A artista e produtora conecta cultura, falta de acesso a direitos e impactos da crise climática, afirmando o rap e a quebrada como ferramentas de transformação

Rapper, produtora e escritora periférica de Sergipe, Priscila Neres transforma vivência em arte que encanta, denuncia e mobiliza.
No single “Histórias Periféricas”, lançado em janeiro deste ano, ela expõe como o abandono do Estado impacta seu território. A música reafirma a cultura como instrumento de consciência e de disputa de narrativa, trazendo a periferia para o centro do debate.
Assista ao videoclipe:
Natural de Sergipe, Priscila Neres vive no Loteamento Novo Horizonte, na Região Metropolitana de Aracaju, território marcado por desafios históricos de infraestrutura, falta de saneamento básico, acesso irregular à água e ausência de políticas públicas. É desse chão que nasce sua arte.
Gravado de forma independente no bairro onde mora, o videoclipe apresenta Novo Horizonte como protagonista. As ruas, as casas e as vielas deixam de ser pano de fundo e cenário de carência e se destacam como espaço de criação, denúncia e potência política.
Não há romantização da dor. Há politização da realidade. Por meio da arte, Priscila constrói narrativa, consciência e mobilização.


Ali, a crise climática não é um debate distante. É cotidiano: calor extremo, esgoto a céu aberto, falta d’água, abandono histórico. São desigualdades estruturais que se aprofundam com os impactos ambientais e recaem primeiro sobre quem já vive à margem do acesso a direitos básicos.
Ao longo da entrevista que você acompanha a seguir, Priscila reforça que sua arte é também ferramenta política, especialmente em um ano eleitoral. Quando o Estado falha, a cultura denuncia. Quando direitos básicos como água e saneamento são negados, a música cobra.

Leia a entrevista na íntegra:
Sua música nasce da sua vivência e fala de vários abandonos do Estado. Quando você olha pro seu território hoje, o que mais te atravessa e como isso vira arte?
“Ver meu território sem acesso aos direitos básicos, me atravessa muito. Pagamos impostos como qualquer cidadão e não temos diariamente nem água e nem saneamento básico. Minha arte nasce dessa dor, dessa revolta. Como ainda não tenho acesso diretamente à política, minha arte é a forma que tenho de fazer política.”
Você canta que “as histórias periféricas causam revolução”. Que tipo de revolução a cultura é capaz de fazer?
“Acredito que a cultura faz uma das principais revoluções, que é a mental. Através da cultura conseguimos repassar informações que o sistema insiste em silenciar. O movimento cultural ensina, informa e forma cidadãos mais conscientes.”
Quando você fala na letra de sua música sobre esgoto a céu aberto, saneamento básico, crianças com fome, como vê que essas desigualdades que marcam o cotidiano se conectam com a crise climática?
“Pra mim tem uma ligação direta, pois as pessoas que são empurradas para as margens são consequentemente as mais afetadas pela crise climática. Além disso, são pessoas em situações de vulnerabilidade que sequer têm tempo nem saúde mental pra pensar e lutar por causas climáticas que vão além do cotidiano próximo delas, como o aquecimento global, a poluição das águas, o desmatamento em massa e tantas outras…”
Quem vive nas periferias sente primeiro os impactos do descaso ambiental. Você acha que a cultura ajuda a tornar essas injustiças visíveis?
“Sim, a cultura ajuda a informar, e uma vez que a população está informada, ela consegue enxergar as causas dos problemas, que antes ou não enxergava ou via como “natural”.
Na letra de “Histórias Periféricas” , você diz que “de quatro em quatro anos” as coisas se repetem. Qual é o papel da arte em infomar e cobrar responsabilidade de quem governa, principalmente em um ano de eleições?
“A arte nos traz um lugar seguro para denunciar o que é feito para ser silenciado. Acredito que quando verbalizamos, a denúncia é feita de forma direta, e essa é uma forma de apontar as irresponsabilidades e as faltas dos governantes, de informar que estamos enxergando e que queremos mudanças. Lançar Histórias Periféricas em um ano de eleição foi um ato político em forma de arte.”
Como o lançamento do videoclipe impactou o lugar onde você mora, pensando principalmente no alcance da mensagem e da informação?
“Acredito que o maior impacto foi mostrar que a periferia também escreve, canta e faz arte politizada. Eu já escrevia desde a infância, mas por falta de incentivo acabei deixando a música no passado. Mas ela retornou na fase adulta, depois que eu tive acesso a movimentos culturais independentes. Com o clipe, eu consegui mostrar pra minha comunidade que é possível, e que mesmo às margens, conseguimos fazer arte de qualidade. Além do impacto ter sido local, ainda consegui passar informações de forma mundial, pois o clipe está no YouTube.”
Quando o Estado falha no seu território e o clima fica cada vez mais extremo, que injustiças recaem primeiro sobre quem mora aí?
“Uma das faltas mais brutais aqui na comunidade é a falta diária de água, mesmo os moradores pagando mensalmente por isso. Precisamos cobrar fortemente. É um direito básico e sem água é difícil até mesmo sobreviver.”
Priscila também é idealizadora e produtora do Movimento Cultural do Novo Horizonte, iniciativa que ocupa o território como espaço de formação, articulação e transformação social. O movimento fortalece a organização comunitária e reafirma a cultura como instrumento de mobilização a partir de quem vive o território todos os dias.

Se a injustiça é estrutural, a resposta precisa ser coletiva. Para Priscila Neres, a cultura é ferramenta de transformação, e pra gente também. Porque justiça climática não tem a ver só com o futuro do planeta. Tem a ver com quem não tem acesso à água hoje, quem sofre com enchente, calor extremo e descaso, agora.
Corre de quebrada é isso: é reconhecer que as periferias não são apenas territórios impactados, são territórios de solução, criação e liderança. Apoiamos a transformação da vivência em denúncia, da arte em ferramenta política e da cultura em caminho de justiça climática.
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