Greenpeace, MST, CUFA e Rede Maniva entregam mais de doze mil quilos de alimentos agroecológicos para famílias em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar

Mães chefes-de-família recebem alimentos agroecológicos em Belém (PA) Foto: CUFA Pará

A fome é uma realidade no Brasil – e foi agravada pela pandemia de COVID-19. Segundo dados publicados pelo governo, mais da metade dos lares brasileiros, ou 116,8 milhões de pessoas, estavam sujeitos a algum grau de insegurança alimentar ao final de 2020, quando se tem acesso parcial ou nenhum à alimentação.

Depois de uma histórica ação promovida pelo Greenpeace na sexta-feira (30), que lembrou a marca de 400 mil vidas perdidas pela COVID-19 e vai distribuir 18 toneladas de alimentos a quem precisa, continuamos combatendo a fome por meio de uma estratégia essencial, a agroecologia. As ações também cobram o responsável por deixar o Brasil nesse cenário: o Governo Federal.

A campanha emergencial “Comida para quem precisa de comida de verdade”, uma iniciativa do Greenpeace Brasil, Movimento Sem-Terra (MST), Rede Maniva e Central Única das Favelas (CUFA), está distribuindo alimentos agroecológicos produzidos por famílias de agricultores para famílias periféricas, em situação de vulnerabilidade e fome.

O Dia do Trabalhador (1º de Maio) marcou mais um dia da primeira etapa de distribuição mais de doze toneladas de alimentos mais de 700 famílias das Regiões Norte e Nordeste do Brasil – locais mais afetados pelo descaso governamental. Atualmente, cerca de 14% dos habitantes da região Nordeste e 18% da região Norte estão passando fome.

“A campanha vai além de levar comida para quem precisa. Ela ajuda a fortalecer a produção agroecológica de famílias de agricultores como solução para a insegurança alimentar no Brasil, além de cobrar a responsabilidade do Poder Público, que deveria ser o principal ator a trazer soluções concretas para esta crise que estamos vivendo. Porém, essa falta de ação cobra um preço caro e infelizmente quem paga são as comunidades mais suscetíveis, muitas delas que estão na resistência e proteção de nossa biodiversidade. Precisamos lembrar desse período e cobrar transformações em 2022, quando poderemos escolher um novo presidente para o país. Até lá a solidariedade e o ativismo salvam vidas”, defende Pamela Gopi, estrategista da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil.

Ainda segundo os dados publicados pelo governo, cerca de 19 milhões de pessoas não têm o que comer no Brasil em plena pandemia de COVID-19.

Cestas doadas em Campina Grande ajudaram mais de cem famílias. Foto: Andresa Costa/Levante Popular da Juventude

Matando a fome de quem precisa

Tendo em vista que as regiões Norte e Nordeste são hoje as mais impactados pela fome, a ação, que começou em março, distribuiu cestas de alimentos agroecológicos em Fortaleza (CE), Recife (PE), Manaus (AM), Maceió (AL), Campina Grande (PB), Porto Velho (RO), Belém (PA) e na região do Bico do Papagaio (TO). Nesta semana, no dia 6, quem recebe é Teresina (PI).

Para onde e quanto doamos até agora?

Recife (27/03)

Distribuídas pelo Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, cerca de 150 famílias foram beneficiadas em Pernambuco com 700 quilogramas de comida agroecológica.

Fortaleza (18/04)

Na capital do Ceará, 30 famílias das favelas Barroso 2, Pantanal e Quadras receberam cestas de alimentos agroecológicos totalizando 867 quilogramas.

Maceió (25/04)

As cestas agroecológicas foram entregues a cinco circos de artistas itinerantes: três em Rio Largo, dois em Marechal Deodoro e um no Vergel do Lago. No total, 60 famílias foram beneficiadas em Alagoas com 1,4 tonelada de alimentos.

Porto Velho (29/04)

Na capital de Rondônia, cerca de 75 famílias foram beneficiadas por 2,2 toneladas de doações provenientes da agricultura familiar agroecológica do MST.

Campina Grande (29/04)

Na cidade do interior da Paraíba, no Bairro Pedregal, 108 famílias receberam cestas de alimentos agroecológicos e garantiram sua alimentação para o próximo mês. No total, foram distribuídas 2,7 toneladas.

Manaus (10 e 19/04, 01 e 07/05)

No Amazonas, quatro atividades ajudaram até agora cerca de 140 famílias, incluindo indígenas do Parque das Tribos e que participavam da Mobilização Nacional Indígena na cidade.

Belém (01/05)

A capital do Pará recebeu cerca de duas toneladas de alimentos agroecológicos, ajudando 80 famílias em situação de fome.

Bico do Papagaio (01/05)

A região do Bico do Papagaio é uma área no norte do Tocantins que faz fronteira com o Pará e com o Maranhão. Neste local afetado pela fome, 65 famílias foram beneficiadas com as doações.

Teresina (06/05)

Atividade será realizada dia 06/05.

Teresina (06/05)

As entregas foram realizadas em três bairros da capital piauiense: Dirceu, Árvores Verdes e Jardim Europa, ajudando 70 famílias em necessidade.

Se considerarmos que cada família tem em média quatro pessoas, no total, mais de 2,8 mil pessoas garantiram sua alimentação para o próximo mês graças à produção de famílias assentadas do MST que adotam o modelo agroecológico de produção, ou seja, que não usa agrotóxicos e respeita a natureza. É comida sem veneno na mesa de quem mais precisa.

Para Clarice Rodrigues, da coordenação nacional do MST, a parceria representa um movimento de solidariedade. “O MST, a CUFA, a Rede Maniva e o Greenpeace estão juntos para o fortalecimento fundamental dos laços de solidariedade entre os povos do campo e da cidade. É o povo cuidando do povo”.

Quem faz a seleção dos beneficiários é a CUFA, que identifica famílias que fazem parte de sua rede de atuação que estão em situação de maior vulnerabilidade. São famílias, na maioria das vezes, monoparentais, com mães solteiras no papel de chefes de família.  

“A CUFA, que há um ano está na pandemia em ação direta, nunca saiu da rua. Estamos articulados em cinco mil favelas. Muito importante essa articulação, a união e a inteligência dos movimentos sociais. Acreditamos que nessa hora a solidariedade tem que ser um movimento permanente, mais forte e mais contagioso do que o próprio vírus”, comenta Preto Zezé, Presidente Nacional da CUFA.

Segundo a técnica da Rede Maniva, Renata Peixe-boi, a ação é muito importante para que o trabalho da agricultura familiar orgânica seja mantido e a saúde das pessoas resguardada. “Essa parceria é fundamental para que agricultores da Rede Maniva que estão em dificuldade de escoamento da produção devido o fechamento das feiras e outros canais, consigam manter a renda da família. Outro ganho também para as comunidades em vulnerabilidade, que recebem alimentos de qualidade  de acordo com sua cultura alimentar para que tenham uma alimentação mais saudável e não venham a adoecer”.

Em Manaus, indígenas do Parque das Tribos foram contemplados. No centro da foto está Lutana Kokama, Cacique Geral do Parque das Tribos. Foto: Rede Maniva

O Greenpeace Brasil, com o dinheiro de doações de pessoas físicas, financiou a compra dos alimentos doados. Entre os alimentos oferecidos estão: arroz, feijão, farinha branca, farinha de mandioca, goma, flocão para cuscuz, legumes, como abóbora, batata-doce, mandioca e inhame, frutas, como banana e limão, café,  açúcar mascavo, sal, entre outros. Em alguns locais, na falta de opções orgânicas de certos produtos como óleo e açúcar, foram doadas opções convencionais.

Você também pode ajudar a financiar esta campanha.

O buraco é mais embaixo

Os altos níveis de insegurança alimentar no Brasil têm responsável – e não estamos falando apenas da pandemia de COVID-19, que certamente agravou a situação, mas de um Poder Público que aposta suas fichas no agronegócio e nada faz para combater a fome, negligenciando este tema.

Ao passo que o Brasil segue líder mundial nas exportações de commodities agropecuárias, retirando espaço para a produção de alimentos essenciais e típicos na mesa dos brasileiros, 55% dos lares brasileiros enfrentam algum nível de insegurança alimentar.

O modelo de produção de alimentos convencional, baseado no desmatamento, no uso intensivo de agrotóxicos e na monocultura de commodities, é pensado para vender a maior parte das safras ao estrangeiro. 

Na realidade, sobre 70% das mesas das brasileiras e brasileiros está a comida produzida pela agricultura familiar.

Essa lógica de negócio não apenas mata o solo, tira a vida de rios e acaba com a biodiversidade, mas prejudica a saúde das pessoas, que consomem alimentos com altos níveis de agrotóxicos, como o Greenpeace já comprovou em estudos toxicológicos realizados em alimentos da dieta básica do brasileiro.

Está claro que a agricultura familiar, que garante a alimentação dos brasileiros, em nada é favorecida pelo Poder Público. Em 2019, um ato claro do Governo Federal contra o pequeno agricultor foi a extinção do Ministério do Desenvolvimento Social, pasta que representa essa enorme parcela dos produtores rurais.

Para o Greenpeace e seus parceiros, é preciso combater a fome com políticas que promovam a agricultura familiar e a agroecologia.

Idoso recebe doação em Fortaleza (CE). Foto: CUFA

A terra não é chão de fábrica

Além de não usar agrotóxicos, a agroecologia respeita os processos da natureza e não provoca danos à água, ao solo e aos animais. Diferente do agronegócio, que vê no solo uma linha de produção industrial, a agroecologia tem princípios valiosos, como o incentivo à biodiversidade e a soberania alimentar, ou seja, o direito que os povos têm de decidir sobre o que irão plantar e comercializar, levando em consideração hábitos e cultura locais. 

“É esta agroecologia que, por meio da solidariedade, está tirando inúmeras famílias da fome na campanha ‘Comida para quem precisa de comida de verdade’. É com a agroecologia que vamos combater a fome e este modelo de produção cheio de veneno. É preciso cobrar ações concretas do Estado – mas quem tem fome, tem pressa e precisamos apoiar quem mais precisa nesse momento”, pontua Pamela.

Os governantes têm feito escolhas totalmente equivocadas sobre a alimentação da população brasileira. É fundamental que cobremos deles políticas públicas que incentivem a produção e o consumo de alimentos de qualidade, sem veneno, a preços justos e que promovam hábitos alimentares mais saudáveis e conectados com as culturas alimentares dos diferentes territórios e regiões de um país tão diverso como o Brasil. 

Queremos que a agroecologia seja o novo normal!

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Encontre um agricultor agroecológico perto de você

Se você ainda não consome alimentos da agricultura familiar ou agroecológicos, criamos uma lista com contatos de agricultores em diversos municípios brasileiros para te ajudar a encontrar frutas, verduras, legumes e outros alimentos, com preços bem mais acessíveis do que os que você costuma encontrar nos supermercados. 

Confira aqui.

Ajude comunidades que estão sofrendo o efeito da pandemia

Com o agravamento da fome no país, estamos trabalhando com parceiros para levar cestas agroecológicas a famílias em situação de vulnerabilidade. Estão sendo distribuídas mais de dez toneladas desses alimentos para comunidades no Norte e Nordeste, regiões que mais têm sofrido. Junto a uma rede de solidariedade, temos atuado por meio da campanha de agroecologia – que promove uma alimentação sem agrotóxicos e mais saudável para brasileiras e brasileiros – para conectar agricultores familiares com o fornecimento de alimento para quem mais precisa. Essa é mais uma ação emergencial necessária para um momento como este. 

Você também pode colaborar com essa campanha!

Faça agora sua doação e nos ajude a continuar distribuindo comida saudável para quem mais precisa.

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