Expressão árabe aprendida com o Greenpeace MENA nos deu resiliência para, em uma Conferência marcada pelo lobby do petróleo, pressionarmos os países a reconhecerem a urgência do fim dos combustíveis fósseis.

No penúltimo dia da COP28, o Greenpeace reuniu mais de 65 ativistas para erguerem balões amarelos iluminados por luzes manuais para soletrar a palavra “Yalla!”, a palavra árabe que significa “vamos lá!”, simbolizando o apelo urgente à ação. © Marie Jacquemin / Greenpeace

Assim que chegamos em Dubai para a COP28, os nossos colegas do Greenpeace MENA (região que compreende o Oriente Médio e o Norte da África) nos apresentaram uma palavra que se faria presente em todo o momento: Yalla, uma expressão árabe popular usada para expressar entusiasmo, pressa ou urgência.

Se nos atrasássemos para uma reunião, lá vinha o chamado dos colegas, “Yalla, Brasil!”. Nos cafés da manhã, o ‘bom dia’ nosso de cada dia foi cedendo lugar para um sorridente “Yalla!, assim como o ‘boa noite’.

Com o passar dos dias e as negociações entre os países cada vez mais travadas por causa da discordância entre os países sobre o futuro dos combustíveis fósseis, ‘Yalla’ foi assumindo um tom político e encorajador de “vamos lá!”, “vamos em frente!”.

Nos bastidores das negociações, algo mais grave acontecia: as propostas de se incluir os direitos humanos no texto da COP28 também travava as negociações e dividia os países. Alguns eram contrários a reconhecer que a crise climática, como está posta, também é uma crise de direitos humanos, principalmente entre populações mais vulnerabilizadas do Sul Global.

Sair da COP28 sem um posicionamento global sobre a necessidade de acabar com a era dos combustíveis fósseis, principais responsáveis pela crise climática, e sem incluir os direitos humanos nas negociações do clima, não era uma opção. Foi aí que o conceito de ‘Yalla’ nos deu resiliência e flexibilidade para pressionar os governos a entenderem a urgência de agir.

Respeitando o que foi possível fazer dentro do ambiente civilmente controlado que foi a COP28, reunimos mais de 65 ativistas do Greenpeace e demais organizações na entrada principal da Conferência e, munidos de balões amarelos e lanternas, formamos um painel humano com a palavra YALLA!. Na sequência, colegas da Rede Artivista se juntaram ao grupo e seguraram a mensagem-chave dessa COP: “Fim da Era dos Combustíveis Fósseis”.

Mais de 65 ativistas na COP28 ergueram balões amarelos iluminados por luzes manuais para soletrar a palavra “Yalla!”, a palavra árabe que significa “vamos lá!”, simbolizando o apelo urgente à ação. Banner da Rede Artivista. © Marie Jacquemin / Greenpeace

A ação aconteceu no dia 10 de dezembro. Quarenta e oito horas depois (de muito drama, diga-se de passagem; os governos das Ilhas do Pacífico chegaram a classificar as negociações até aquele momento como “sentença de morte”), saiu o texto final da COP28 com menção aos combustíveis fósseis e inclusões pontuais relacionadas aos direitos humanos de grupos como populações tradicionais, indígenas, crianças e mulheres.

Afinal, como ficam os combustíveis fósseis após a COP28?

Antes de tudo, é preciso entender que a COP28 não foi capaz de criar um plano claro sobre como se dará a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis – ainda teremos muito trabalho pela frente -, mas celebramos o fato de os combustíveis fósseis terem sido colocados no centro do debate, responsabilidade que nenhuma das 27 Conferências do Clima anteriores tinham assumido.

Feita a ressalva, o texto final da COP28 reconhece a “necessidade de reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões de gases de efeito estufa, em conformidade com as trajetórias de 1,5°C”. E como sabemos, não há como limitar o aumento da temperatura do planeta e seguir explorando os combustíveis fósseis nos próximos anos. A conta não fecha, e ela precisa fechar se quisermos sobreviver enquanto espécie.

As próximas COPs, no Azerbaijão (COP29) e no Brasil (COP30), deverão entregar textos claros e com uma linguagem mais firme sobre como eliminar os combustíveis fósseis, incluindo, de preferência, o nosso pedido – e de muitas nações na linha de frente das mudanças climáticas: uma eliminação progressiva e justa de todos os combustíveis fósseis até 2050, com uma diminuição expressiva já em 2030.

Não desanimemos, yalla, yalla!

ps: se não tivesse sido assassinado em 1988, hoje, 15 de dezembro, Chico Mendes completaria 79 anos. Este texto é dedicado ao seu legado, que nos abriu caminhos para lutar por um futuro mais justo e verde para todos.

Como diria Chico Mendes, “ecologia sem luta de classes é jardinagem”.

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