Investigação realizada pelo Greenpeace Internacional, da Holanda, sobre a expansão da indústria da soja no Brasil revela novas evidências sobre a relação entre multinacionais norte-americanas com o desmatamento, a grilagem de terras e o trabalho escravo na Amazônia. Ao construir silos e infraestrutura no coração da floresta, financiar a abertura de estradas e comprar soja produzida em fazendas ilegais ou proveniente de desmatamento, inclusive com o uso de trabalho escravo, Cargill, ADM e Bunge estão, ao mesmo tempo, estimulando e se beneficiando da invasão da soja na Amazônia.

Confira aqui a íntegra do relatório

A floresta amazônica é uma das regiões mais ricas e de maior biodiversidade do planeta. Abriga cerca de 10% das espécies conhecidas de mamíferos e 15% das espécies de plantas. É também um dos ecossistemas mais ameaçados do mundo e está desaparecendo a um ritmo de mais de 18 mil km2 ao ano. Nos últimos 25 anos, uma área de floresta primária maior do que os estados do Mato Grosso do Sul e do Rio de Janeiro, juntos, foi destruída para sempre na Amazônia.

Nos últimos anos, o governo brasileiro adotou medidas importantes para combater a exploração ilegal de madeira e o desmatamento na Amazônia. Ao mesmo tempo, uma nova e poderosa ameaça de destruição da floresta surgiu na região: a soja. Grandes investimentos por parte do setor de agronegócio norte-americano transformaram a Amazônia na mais nova fronteira agrícola do País. Até 2004, cerca de 1,2 milhão de hectares de florestas foram convertidas em plantações de soja. Apesar de representar apenas 5% do total da área cultivada com soja atualmente no Brasil e de muitos cultivos antigos ocuparem áreas já desmatadas, novos investimentos em estradas, silos e portos pela Cargill e outras empresas fazem com que seja mais lucrativo queimar áreas intactas de florestas do que comprar áreas já desmatadas, impulsionando assim a expansão da soja na Amazônia a uma velocidade ainda maior. Esta expansão tem um preço não apenas para a floresta, mas para as populações indígenas e comunidades tradicionais, que são expulsas de suas terras para dar lugar à soja, e para milhares de pessoas que são enganadas e forçadas a trabalhar na derrubada da floresta.

Apesar de várias reportagens terem investigado um aspecto ou outro do fenômeno soja, até hoje não existia uma análise abrangente das causas e efeitos desta monocultura na Amazônia. Desde 2004, o Greenpeace Internacional, com sede na Holanda, iniciou esta análise, baseada em investigações de campo, sobrevôos, entrevistas com comunidades afetadas, representantes da indústria e políticos, análise de imagens de satélite e dados de exportação, e monitoramento de navios para o mercado internacional. A investigação, que durou dois anos, foi além dos campos de soja e das florestas na Amazônia, e identificou a cadeia da soja desde as decisões iniciais em salas de reuniões de empresas nos Estados Unidos até chegar às prateleiras de restaurantes, lanchonetes e supermercados da Europa, passando pela destruição da maior floresta tropical do planeta. Este relatório apresenta nossas descobertas preliminares. É o retrato de uma indústria vigorosa e devastadora, e inclui novas evidências da responsabilidade das empresas norte-americanas e do papel involuntário de consumidores europeus na destruição da floresta, na grilagem de terras, expulsão de comunidades locais e uso de trabalho escravo na Amazônia.

Muitos atores, nacionais e internacionais, têm sido cúmplices na dconversão da floresta amazônica em monoculturas de soja. No entanto, nossas evidências apontam, repetidamente, para três multinacionais norte-americanas do setor do agronegócio como responsáveis por esta destruição – Archer Daniels Midland (ADM), com sede em Decatur, Illinois; Bunge Corporation, baseada em Saint Louis e, mais importante, a Cargill, com sede em Minnesota. Fornecendo desde sementes e fertilizantes até a infraestrutura necessária para armazenamento e transporte da soja, estas empresas agem como imã para atrair novos produtores para a Amazônia. Elas não apenas impulsionam a expansão da soja, mas fecham também elos importantes na cadeia da destruição ilegal da floresta, grilagem de terras e trabalho escravo, tornando a soja produzida na Amazônia extremamente barata para consumidores europeus, e dispendiosa para todos os outros. As evidências coletadas pelo Greenpeace mostram como a Cargill e seus aliados se alimentam da destruição da floresta, construindo portos, silos e outras obras de infraestrutura, financiando a abertura de estradas em áreas de florestas e comprando soja produzida em fazendas envolvidas com grilagem de terras, desmatamento ilegal em áreas protegidas e trabalho escravo.

A grande maioria desta soja é exportada para a Europa para ser usada como ração animal e garantir que produtos como o Chicken McNuggets e outras carnes continuem com os preços baixos e abundantes para os consumidores europeus.