Em meio à redução de investimentos em prevenção de desastres, voluntário do Greenpeace na Zona da Mata reforça que enchentes em Minas têm “nome, rosto e endereço”, e cobra compromisso

© Tomaz Silva / Agência Brasil

Os eventos extremos se intensificam no Brasil, e Minas Gerais volta ao centro do debate sobre crise climática e justiça social. Na Zona da Mata, cidades como Juiz de Fora e Ubá enfrentaram rios transbordando, encostas cedendo, vidas ceifadas e famílias desalojadas após chuvas intensas.

Não é a primeira vez. No início de 2022, a voluntária do Greenpeace Brasil Mariana Faria relatou como chuvas intensas atingiram a cidade de Juatuba entre os dias 5 e 10 de janeiro. Ela descreveu a sensação de medo e indignação que permaneceu mesmo após a água baixar, e criticou a falta de iniciativas de contenção de enchentes que poderiam ter mitigado os danos

Estudos climáticos também apontam que as enchentes de 2020 em Minas Gerais tiveram probabilidade ampliada pelo aquecimento global, um indicativo de que chuvas extremas tendem a tornar eventos como os da semana passada mais frequentes sem políticas robustas de adaptação climática e redução de emissões.

Gilvan Amorim Soares, voluntário do Greenpeace durante
atividade do grupo de voluntariado na Zona da Mata Mineira.

O que para alguns vira estatística, para nós tem nome, rosto e endereço”, comenta Gilvan Amorim Soares, advogado, voluntário do Greenpeace Brasil na Zona da Mata Mineira e morador da cidade de Carangola. Segundo ele, a região carrega um histórico de enchentes e deslizamentos que se agravaram nos últimos anos:

Não é fatalidade. É a soma da crise climática com cidades despreparadas e políticas públicas insuficientes.

Após os alagamentos, o padrão se repete: decretos de calamidade, visitas oficiais e promessas.

Prevenção não pode ser feita depois que a água baixa. A redução drástica de investimentos em ações relacionadas aos impactos das chuvas significa menos obras de drenagem, menos contenção de encostas e menos planejamento urbano, aumentando o risco para quem já vive em áreas vulnerabilizadas historicamente.

Dados do Portal da Transparência mostram que os investimentos estaduais em prevenção de desastres caiu drasticamente entre 2023 e 2025. Passou de mais de R$ 135 milhões para cerca de R$ 6 milhões em dois anos. Uma redução de quase 96%.

Falta prioridade orçamentária. Falta planejamento territorial. Falta política habitacional que impeça que famílias precisem morar em encostas instáveis ou às margens de rios.

Gilvan lembra ainda que o impacto é desigual. Enquanto áreas centrais se recuperam mais rápido, nas periferias a perda é total: móveis, documentos, memórias e segurança. Essa dinâmica revela o que especialistas chamam de racismo ambiental.

Para Gilvan, a crise climática não é apenas ambiental. “É sobre orçamento público. É sobre decisão política. É sobre quem pode se proteger e quem é deixado para trás.”

Minas Gerais não enfrenta um episódio isolado, mas um padrão que tende a se repetir. E Gilvan cobra:

“ A Zona da Mata mineira não precisa apenas de solidariedade após a tragédia. Precisa de compromisso permanente com adaptação climática, política habitacional e prioridade orçamentária

Antes da próxima chuva.

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