O El Niño de 2026 pode ser o mais intenso em décadas. Entenda o que é, o que as previsões indicam e quais impactos esperar no Brasil em secas, enchentes e ondas de calor.
1877, o ano em que o mundo quase parou
Em 1877, um El Niño de intensidade excepcional desencadeou uma das maiores catástrofes humanitárias do século XIX. Estima-se que dezenas de milhões de pessoas morreram ao redor do mundo em decorrência de secas, fome e doenças associadas ao fenômeno. No Brasil, o Nordeste foi devastado por uma das piores estiagens da sua história, teve lavouras destruídas, êxodo em massa, e uma crise que marcou gerações.
Quase 150 anos depois, modelos climáticos indicam que o El Niño de 2026 pode atingir uma intensidade comparável. A diferença fundamental é que hoje temos ciência, tecnologia e capacidade de nos antecipar. A questão é se vamos usá-las.
O que é El Niño e o que torna um “Super” diferente
El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Esse aquecimento altera padrões de vento e chuvas em escala global, com efeitos opostos em diferentes regiões do Brasil.
No Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste do país, o El Niño costuma reduzir as chuvas e elevar as temperaturas, o que deixa essas regiões mais vulneráveis à secas prolongadas e às queimadas. No Sul, o efeito se inverte e traz chuvas mais intensas e concentradas, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. No Sudeste e Centro-Oeste, ondas de calor ficam mais frequentes, geralmente combinadas com baixíssima umidade do ar.
Um Super El Niño ocorre quando a anomalia de temperatura da superfície do mar ultrapassa +2°C em relação à média histórica. Nos últimos 150 anos, isso aconteceu apenas 4 vezes: 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Os modelos climáticos atuais indicam que 2026 pode ser o quinto. Caso se confirme, significará um intervalo de pelo menos 5 anos mais curto entre um Super El Niño e outro, o que pode estar associado ao aquecimento global e intensificação das mudanças climáticas.

O que as previsões dizem para 2026
As projeções divulgadas pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Naciona dos Estados Unidos) em maio de 2026 apontam 82% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho, e 96% de que o fenômeno se mantenha entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, o que significa impactos que podem se estender até pelo menos o segundo semestre de 2027.
A intensidade máxima ainda é incerta mas, o que pode definir a gravidade é, em grande medida, o nível de preparação e resiliência dos países, estados e cidades que serão atingidos.
Qual o papel do aquecimento global
O fenômeno do El Niño em si é natural e cíclico, e provavelmente acontece há milhões de anos, mas o que mudou nas últimas décadas é o contexto ambiental em que ele ocorre, contribuindo para o aumento na sua frequência e intensidade. Não é coincidência que entre 2023 e 2025 tenha-se registrado os maiores picos de ondas de calor no Brasil desde 1980, e que eles sejam ainda mais intensos em anos de El Niño.
O oceano é parte essencial desse mecanismo, pois regula o clima do planeta por meio de suas correntes, que distribuem calor ao redor da Terra, influenciando as temperaturas, as chuvas e os padrões climáticos em diferentes regiões.
As emissões pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pela pecuária vem aquecendo o planeta, e os oceanos absorvem a maior parte desse calor. Com os mares em temperatura cada vez mais alta, o El Niño passa a ocorrer em condições mais extremas do que as de décadas anteriores. Assim, embora o El Niño continue sendo um fenômeno natural, seus efeitos são amplificados por um clima cada vez mais desequilibrado. Por isso, proteger os ecossistemas marinhos é, diretamente, fortalecer a resiliência climática de populações costeiras e ribeirinhas.
As florestas também têm papel fundamental nessa equação e, quando degradadas, elas perdem a capacidade de regular a temperatura, reter umidade e influenciar na formação de chuvas. Em anos de seca severa, a floresta em pé e conservada funciona como uma proteção climática. Quando a seca aperta em algumas regiões, cresce muito a probabilidade de incêndios florestais em áreas com mata degradada, que não consegue impedir o avanço do fogo, muitas vezes provocado por ações humanas.
O que 2024 nos mostrou
O El Niño de 2023/2024 não chegou a ser considerado “Super”, mas sim como “Forte”. Nesse período, o Brasil enfrentou sua maior seca recente em extensão e 4.748 municípios (mais de 80% dos municípios do país) registraram algum grau de estiagem, dos quais quase 1.400 em níveis severos ou extremos. Em 2024, na Amazônia e no Pantanal, incêndios de grandes proporções devastaram extensões territoriais recordes. Comunidades no Norte respiraram ar com concentrações de partículas finas que superaram registros de grandes metrópoles globais, situação documentada em detalhe no relatório Céus Tóxicos, do Greenpeace.
No oceano, o calor extremo também provocou o 4º evento global de branqueamento em massa de corais já registrado, afetando recifes em diferentes regiões do Brasil e deixando os corais expostos a meses consecutivos de estresse térmico. Quando esses ambientes entram em colapso, populações costeiras se tornam mais vulneráveis a perdas econômicas, insegurança alimentar, danos à infraestrutura e aumento do custo de vida, aprofundando desigualdades sociais em cidades e territórios que dependem diretamente do oceano.
No Sul, o Rio Grande do Sul viveu um dos maiores desastres climáticos de sua história. Enchentes de escala inédita destruíram casas, infraestrutura e vidas.
Além das tragédias, o El Niño traz consequências econômicas também. O Banco Central reconheceu o impacto inflacionário do evento sobre os preços dos alimentos, especialmente produtos in natura. Famílias que já comprometem grande parte do orçamento com despesas básicas sentiram diretamente no bolso o custo da estiagem, das queimadas e das enchentes. E reagir depois de instalada a crise custa muito mais do que investir em prevenção antes.
O que esperar em 2026 e 2027 no Brasil
Com base nas análises do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN) divulgadas em 19 de maio, os padrões esperados para o próximo ciclo seguem o comportamento histórico dos Super El Niños anteriores.
- Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste: redução de chuvas, temperaturas mais altas e maior vulnerabilidade a secas prolongadas. Os efeitos sobre a geração de energia hidrelétrica nas bacias do Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia são uma preocupação concreta. Menos água nos rios significa menos energia e mais pressão sobre os preços, além da degradação da qualidade da água, do ecossistema, e dos impactos da seca para a população local.
Ainda nessas regiões, sobretudo na Amazônia Legal e no Pantanal, as temperaturas elevadas e a possibilidade de secas prolongadas aumentam significativamente os riscos de incêndios florestais, frequentemente agravados pelo uso inadequado ou criminoso do fogo. Embora o cenário para o bioma Amazônia ainda seja incerto para este ano – devido ao elevado volume de chuvas incomum para a época – permanecem em estado de alerta as áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado e, principalmente, o Pantanal.
O alerta, inclusive, já foi reforçado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino intimou a União e os estados dessas regiões a informarem, no prazo de até 10 dias úteis, quais providências e planejamentos estão sendo adotados diante das projeções já divulgadas. - Sul: aumento significativo no volume e na intensidade das chuvas entre setembro e dezembro. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná concentram os maiores riscos de enchentes, enxurradas e deslizamentos. Porto Alegre segue como área de atenção máxima, com infraestrutura ainda em recuperação.
- Sudeste e Centro-Oeste: ondas de calor mais frequentes combinadas com baixa umidade, impactando saúde pública, produção agrícola e segurança hídrica.
- Oceano: Dados do NOAA mostram que 10% das áreas monitoradas no mundo já registram branqueamento de corais em 2026 e o El Niño pode agravar a situação. Duas estações no Brasil, Maracajaú (RN) e Todos os Santos (BA) já estão sob alerta de branqueamento inicial.
Em todos os casos, os impactos mais severos tendem a recair sobre quem tem menos recursos para se proteger: comunidades periféricas, indígenas, ribeirinhas, costeiras e agricultores familiares.
O que precisa acontecer e o que você pode fazer agora
A diferença entre o El Niño de 1877 e o de 2026 não está apenas no tempo que passou, está também na capacidade de agir com base em informação antecipada.
Segundo dados da plataforma AdaptaBrasil, dois em cada três municípios brasileiros têm baixa ou muito baixa capacidade adaptativa às mudanças climáticas, evidenciando fragilidades na preparação e resposta a eventos extremos e suas consequências, e isso pode fazer a diferença entre uma crise gerenciável e uma tragédia anunciada.
Para que os eventos previstos não repitam o que vimos em 2023/2024, governos federal, estaduais e municipais precisam agir agora:
- Ampliar o orçamento em adaptação climática, prevenção e resposta a desastres;
- Garantir que governos federal, estaduais e municipais estejam preparados para prevenir e combater incêndios florestais, especialmente em biomas sob maior risco, como Pantanal, Cerrado e áreas de transição da Amazônia;
- Implementar infraestrutura verde e azul nas cidades – recuperação de rios, parques alagáveis, áreas permeáveis, reflorestamento urbano;
- Fortalecer a proteção costeira e marinha por meio de áreas marinhas protegidas que incluam corredores migratórios, áreas de alta biodiversidade e ecossistemas estratégicos como recifes de coral e manguezais,
- Fortalecer sistemas de defesa civil, monitoramento climático e resposta rápida a eventos extremos;
- Barrar retrocessos na legislação ambiental e o avanço de medidas que enfraqueçam ainda mais a fiscalização, o licenciamento ambiental e a capacidade do Estado de prevenir crimes ambientais e queimadas ilegais.
- Garantir que as comunidades mais vulnerabilizadas participem das decisões, não apenas sofram as consequências.
Investir em adaptação climática é a resposta mais eficaz que temos caso um Super El Niño chegue. Assine o abaixo-assinado e exija que os governos priorizem a proteção das pessoas agora.
Sem a ajuda de pessoas como você, nosso trabalho não seria possível. O Greenpeace Brasil é uma organização independente - não aceitamos recursos de empresas, governos ou partidos políticos. Por favor, faça uma doação mensal hoje mesmo e nos ajude a ampliar nosso trabalho de pesquisa, monitoramento e denúncia de crimes ambientais. Clique abaixo e faça a diferença!


