Em 2006, uma campanha do Greenpeace deu inicio ao maior acordo de desmatamento zero do mundo. Vinte anos depois, as próprias empresas que o assinaram abandonaram o compromisso. O que vem agora depende do STF.

Há uma cena que resume bem o espírito de 2006. Uma tarde qualquer em Londres, um grupo de ativistas vestidos de frango entrou numa loja do McDonald’s e se acorrentou às mesas, abrindo cartazes que acusavam a rede de destruir a Amazônia para servir fast food em suas lojas pela Europa. Meses antes, tinha ido ao ar um desenho animado em que o próprio Ronald McDonald aparecia com uma motosserra na mão, cortando árvores com um sorriso torto no rosto. Era o Greenpeace mostrando, da forma mais visual possível, algo que um minucioso trabalho de pesquisa da organização havia levado mais de dois anos para provar em detalhe: que o frango servido ao público europeu vinha de aves alimentadas com soja plantada em terra recém-desmatada na Amazônia.

No centro dessa cadeia estava a Cargill, que desde o início da década vinha operando um porto em Santarém, no Pará, para escoar grão direto de Mato Grosso rumo aos mercados internacionais. O porto atraiu produtores para uma região que antes vivia sob outra lógica de ocupação, e o preço da terra disparou. Foi um ex-jornalista chamado Paulo Adário, então à frente do escritório do Greenpeace em Manaus, quem primeiro notou a mudança na paisagem durante um sobrevoo de rotina em 2001, ainda concentrado em campanhas contra a extração ilegal de madeira. O que ele viu foi floresta dando lugar a lavoura numa velocidade que não condizia com nenhuma explicação inofensiva.

A proposta de Paulo Adário de virar o foco do Greenpeace da madeira para a soja não foi recebida com entusiasmo pela sede internacional da organização. A Cargill era uma multinacional de capital fechado, difícil de pressionar por vias tradicionais de mercado, e ligada a um espectro político nos Estados Unidos que dificultava mobilizar doadores americanos contra ela. A virada só veio quando a investigação encontrou o elo que faltava: a Cargill fornecia, por meio de uma subsidiária francesa chamada Sun Valley, o frango que abastecia o McDonald’s em toda a Europa. Havia, finalmente, uma marca capaz de sentir a pressão do consumidor final.

O relatório batizado “Comendo a Amazônia saiu em abril de 2006 e provocou uma reação em cadeia. A Cargill inicialmente rebateu as acusações, mas em poucas semanas o McDonald’s já estava sentado à mesa com o Greenpeace em Londres, e pouco depois uma reunião em Bruxelas reuniu grandes redes varejistas europeias exigindo mudanças de seus fornecedores de soja. A pressão, que nasceu como campanha ambiental, virou rapidamente um problema de mercado. Em três meses, a Abiove e a Anec, as associações que reúnem as principais traders do país, assinaram o compromisso que se tornaria a Moratória da Soja, com a adesão imediata de Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e Amaggi, e outras grandes empresas do setor.

Paulo Adario, campaigner sênior do Greenpeace Brasil, em uma coletiva de imprensa, com representantes da indústria da soja e da sociedade civil (incluindo o Greenpeace), para anunciar um acordo de moratória da soja. (© Rodrigo Baleia / Greenpeace)
Foto: © Rodrigo Baleia / Greenpeace

“Honestamente, a gente não esperava que a coisa seria tão rápida. A gente sabia que iria pegar a principal empresa de capital fechado do planeta, o que ia ser dificílimo, segundo os especialistas em marketing do Greenpeace, e ia demorar. De repente não foi a Cargill, mas o setor inteiro que assinou.

Paulo Adario, um dos fundadores do Greenpeace Brasil e coordenador da campanha na época. O relato completo de Paulo sobre a origem da Moratória da Soja está no livro ‘O Silêncio da Motosserra‘.

A fórmula de desmatamento zero que funcionou na Amazônia

O que separou a Moratória de outros acordos ambientais da época foi a combinação de escolhas que, combinadas, garantiam a efetividade do compromisso com o desmatamento zero: uma data de corte fixa, julho de 2008, que prevenia que novas áreas abertas fossem aptas a comercializar soja; adesão coletiva do setor inteiro ao mesmo tempo, o que impediu que a soja de área desmatada simplesmente migrasse para quem não tinha compromisso nenhum; e uma governança mista, com sociedade civil, setor privado e, a partir de 2008, o próprio governo federal.

Entre 2009 e 2022, o desmatamento caiu 69% nos municípios monitorados pelo acordo, enquanto a área plantada de soja no bioma amazônico cresceu 344%, saltando de 1,64 milhão de hectares para 7,28 milhões. Hoje, 96,6% da soja amazônica é produzida em áreas já abertas antes de 2008. Antes da Moratória, cerca de 30% da expansão da soja avançava sobre vegetação nativa; depois dela, esse número caiu para os atuais 3,4%. A Moratória não travou o agronegócio, e sim orientou a produção.

Em 2016, a Moratória passou por um momento decisivo. As traders vinham pressionando havia anos para encerrar o monitoramento privado, alegando que a reforma do Código Florestal de 2012 tornava redundante o trabalho do acordo. Porém, ao final de uma longa discussão entre as partes, as traders recuaram e o acordo passou a valer sem data para acabar, encerrando o ciclo de negociações anuais que consumia energia de todos os lados. 

“Dos 20 anos que a Moratória completaria, estive presente nos últimos 10 anos dessa história. Foi incrível ver de perto como o desmatamento zero funcionava na prática e como funcionava um trabalho integrado entre setores. Essa integração entre sociedade civil, setor privado, e em alguns momentos governo, foi muito rica, e isso acontecia no dia a dia, para pensar e implementar processos, mas também quando os ataques começaram. Um momento marcante foi ter participado, logo que entrei no Greenpeace, de uma negociação sobre a renovação ou não da Moratória, e foi quando, depois de um acalorado debate — com direito a pausa para as partes conversarem entre si —, concordamos em renovar a Moratória por tempo indeterminado, para então focar em deixar o acordo ainda mais eficaz ao invés de dedicar tempo discutindo a sua renovação.

Cristiane Mazzetti, Líder da frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil

O ataque à moratória da soja e o julgamento no STF

A queda de braço em torno da Moratória nunca foi travada só no campo. Conforme os números do acordo se tornaram difíceis de contestar, a disputa migrou para outros terrenos, menos visíveis ao público, mas igualmente decisivos. Entidades do setor produtivo passaram a questionar a legitimidade do acordo em múltiplas frentes. Governos estaduais do Mato Grosso, Rondônia, Maranhão e Tocantins aprovaram leis que retiravam benefícios fiscais de empresas que adotassem critérios ambientais mais rigorosos do que o mínimo exigido por lei – uma inversão do bom senso mais elementar, em que cumprir a lei é tolerado, mas ir além dela passa a custar caro. 

O acordo seguiu vigente em 2025, ainda que sob disputas e ataques no campo político-jurídico – audiências públicas, pedido de investigação no CADE e leis estaduais. E o centro dessa disputa se deslocou para o Supremo Tribunal Federal (STF), que recebeu para sua avaliação ações diretas questionando a constitucionalidade das leis estaduais.

A continuação da análise da constitucionalidade dessas leis estaduais está marcada para julgamento no STF em 12 de agosto de 2026, menos de um mês depois de a Moratória completar duas décadas. O Greenpeace atua no processo como amicus curiae (amigo da corte).

É um misto de preocupação com esperança. O que está diretamente em debate no STF não é a Moratória em si, mas a constitucionalidade de diversas leis estaduais que punem e proíbem compromissos voluntários de proteção ambiental que vão além das exigências legais. Para mim, trata-se de uma escolha de caminho, e acompanhar esse debate é sim mais um momento histórico, mas o faço com bastante preocupação, afinal estamos falando de um dos mais importantes instrumentos de governança voluntária socioambiental já construídos no Brasil e no mundo. A Moratória mostrou, na prática, que o desmatamento zero não é uma utopia, mas um objetivo concretamente alcançável. A Constituição estabelece um patamar mínimo de proteção ambiental; ela não impede que a sociedade e o setor privado assumam compromissos mais ambiciosos, e que a própria ordem econômica deve observar o princípio da defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental das atividades econômicas. Caberá ao STF reafirmar que a Constituição nunca tratou liberdade econômica e proteção ambiental como princípios opostos. Esses compromissos não substituem a atuação do Estado nem afastam o cumprimento da lei; ao contrário, eles a complementam e fortalecem.

Angela Barbarulo, Gerente Jurídica do Greenpeace Brasil
Angela Barbarulo,  Gerente Jurídica do Greenpeace Brasil, em sessão no STF em 2025.

Por que as traders abandonaram a Moratória da Soja em 2026

Em 5 de janeiro de 2026, a Abiove anunciou que as traders que representava abandonariam a Moratória. Não houve decisão judicial obrigando a saída, nem qualquer declaração de que o acordo tivesse deixado de funcionar. A justificativa foi a lei do Mato Grosso, que entrou parcialmente em vigência em 2026 e que tornava a permanência financeiramente desvantajosa para suas associadas. Em poucos dias, os logos da Cargill, Bunge, Amaggi e demais traders desapareceram do site oficial da Moratória, e pouco tempo depois o mesmo ocorreu com o logo da Anec e suas associadas.

Há algo particularmente amargo nessa escolha. Foram justamente essas empresas que, ao longo de quase vinte anos, usaram a reputação de soja livre de desmatamento para abrir portas em mercados exigentes e reduzir riscos comerciais. Colheram os dividendos de um mecanismo que ajudou a diferenciar o Brasil num mercado global disputado, e então, diante de uma questão fiscal, decidiram se afastar exatamente do instrumento que ajudou a construir essa vantagem.

O que está em jogo além da soja amazônica

Reduzir essa história a uma disputa setorial sobre soja seria um erro de leitura. Se empresas podem ser legalmente punidas por adotar compromissos ambientais mais ambiciosos do que a lei exige, qualquer iniciativa voluntária de proteção florestal no país passa a correr o mesmo risco. Um estudo publicado na revista Science em julho de 2026 reforça a escala do problema: existe hoje na Amazônia uma área apta ao cultivo de soja e passível de desmatamento legal equivalente a todo o território de Portugal.

A Moratória da Soja é um case mundial – não é raro ela surgir espontaneamente em conversas com atores de governos ou mercado quando estou no exterior, por exemplo. Em geral, as perguntas vêm carregadas de reconhecimento e admiração. É algo que nos orgulha porque é fruto de uma campanha do Greenpeace – e que nos inspira a pensar que grandes sonhos podem, sim, virar realidade. A campanha que expôs o desmatamento da Amazônia conectado à soja lá em 2006 não nasceu para propor uma Moratória. Mas com a exposição do problema, e com a pressão pública, atores diferentes tiveram que sentar à mesa. E foi desse caldo que surgiu o compromisso. Hoje, depois de anos de luta para que a Moratória sobrevivesse aos ataques coordenados contra a sua existência, eu olho pra frente com a certeza que o coração da Moratória – o desmatamento zero na Amazônia – vai sobreviver e se reinventar, não importa o que aconteça com o acordo em si. Porque vejo que o maior legado da Moratória foi ter provado que há caminhos concretos para transformar o que parece utopia em resultados construídos a muitas mãos e inspiradores para tanta gente ao redor do mundo.

Carolina Pasquali, Diretora-Executiva do Greenpeace Brasil

O futuro do desmatamento zero na Amazônia

Neste 24 de julho, a Moratória da Soja completa 20 anos, e não é uma data fácil de comemorar. O acordo que nasceu de ativistas e apoiadores ao redor do mundo pedindo cuidado com a Amazônia, e que provou por duas décadas que era possível produzir sem destruir floresta , em uma época em que essa ideia soava quase como uma aposta improvável, chega ao seu aniversário sem as próprias empresas que ajudou a colocar no mapa da soja livre de desmatamento. As mesmas traders que construíram sua reputação internacional em cima do compromisso de desmatamento zero trocaram, em poucos meses, quase vinte anos de credibilidade por benefícios fiscais estaduais. Bancos que financiam essas empresas e compradores que negociam com elas carregam parte dessa responsabilidade, e também podem responder à pressão pública, como já responderam no passado.

“Temos uma sociedade civil forte, com muito conhecimento, que vai seguir pressionando por passos ambiciosos e contra retrocessos nos compromissos ambientais, e que sabemos o caminho para chegar lá. A Moratória teve sua eficácia comprovada em diversos estudos, e hoje temos as taxas mais baixas de desmatamento já medidas, como resultado de políticas públicas. Nos próximos anos precisamos seguir avançando rumo ao fim do desmatamento, passo vital para garantir, dentre tantos benefícios para a sociedade, também chuvas para as nossas plantações. Mas precisaremos do esforço de diversos setores para conter e desestimular o desmatamento, inclusive o legal. Cabe justamente a nós, como sociedade, cobrar esse compromisso.” Cristiane Mazzetti

O que está sendo decidido agora, no STF, é se essa lição de duas décadas ainda vale para as próximas.

Assine a petição Soja Sem Desmatamento e compartilhe com quem também acredita que essa escolha não pode passar em silêncio.

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