Mais um impacto do crime da Vale: a contaminação do rio impossibilita que famílias de agricultores continuem produzindo

Em garrafas plásticas, Geraldo de Oliveira está guardando a água contaminada do rio Paraopeba que ele coleta diariamente desde 26 de janeiro. Foi um dia depois que a barragem da Vale rompeu, em Córrego do Feijão. E o dia em que a água do rio em frente à casa dele ficou marrom, cor de tijolo.

Ele pega a água com cuidado e com esperança de vê-la limpa de novo. Quando isso acontecer, ele vai religar a bomba que traz a água do rio para regar sua pequena horta de salsinha e coentro. Os temperos são fonte de renda extra para ele que aos 73 anos vive de um salário mínimo e das vendas de um bar – fica aberto quatro horas por dia em uma estrada de terra, no área rural de Mário Campos (MG).

“Agora eu tô parado. Mas se Deus quiser, eu vou continuar. Minhas sementes tão ali. Tudo pronto pra eu continuar”, diz emocionado. Ele não quer ficar parado, ele quer trabalhar em sua roça porque, parado, ele morre, diz. E para isso, ele precisa da água limpa do rio. Só que talvez seu Geraldo precise esperar anos e anos para que isso aconteça. Ainda não há qualquer previsão de quantos tempo irá levar até que o rio Paraopeba fique limpo e utilizável para a agricultura de novo.

Estima-se que mais de 90 km do Paraopeba já estejam contaminados pelos rejeitos da barragem de Córrego do Feijão. Pelo menos 40 km já foram declarados mortos. Enquanto os rejeitos descem o rio, vão tornando impossível a utilização de sua água.

Como Geraldo, há muitos outros agricultores que bombeavam água do Paraopeba para irrigar suas plantações. Sem o rio, eles dependem da água de cisternas que, na maioria das vezes, não suprem a grande demanda por água porque abastecem as suas próprias casas. As hortas precisam de água quase o dia todo. Outra saída têm sido aproveitar a chuva. Só que chuva não tem hora ou quantidade regulada para cair. Quando ela não cai, o sol quente de verão queima as hortaliças.

A mineradora Vale se comprometeu em enviar caminhões-pipa para abastecer as cisternas desses agricultores. Treze dias depois da tragédia, quando estivemos em Mário Campos, eles tinham apenas a esperança dessa promessa.

Enquanto o tempo passa, eles estão perdendo dinheiro. Já perderam colheitas e vendas. Há quem não queira mais comprar com medo de que os legumes e hortaliças estejam contaminados. Ali, há muitas plantações de alface, agrião, rabanete, mostarda e brócolis. Boa parte disso alimenta a região metropolitana de Belo Horizonte.

“Fazia um ano que eu plantava aqui e tava tudo bem. Aí aconteceu essa tragédia e acabou com o sonho de todo mundo”, fala Eliane Gomes. Ela e seu marido, Alexandre Gomes, arrendaram um terreno em Mário Campos desde que ele ficou desempregado. “Ninguém esperava isso. A gente faz plano de vida, faz dívida, né”, diz ela.

Sem poder puxar a água do rio, eles estão usando um pouco da água da cisterna, mas que não tem sido suficiente. A cisterna abastece a água da casa, então, é preciso racionar e fazer escolhas.

Já Fábio Adelardo, além de estar usando um pouco da cisterna, pensou no longo prazo: esses dias plantou alguns pés de brócolis, que demandam menos água, e demitiu três pessoas. “Eu sei que vou vender menos. Não vou ter dinheiro pra pagar mais ninguém não. Ficou aqui só eu, meu irmão e minha irmã”, diz.