Os impactos dos eventos extremos para quem vive em áreas de risco precisam estar entre as prioridades do próximo governo

Bairro da cidade de Petrópolis atingido por chuvas fortes em 2022. Mulheres de costas com imagem desfocada olham e apontam para paisagem ao fundo. O cenário ao fundo mostra um morro com terra caída sobre as casas após o deslizamento, com alguns destroços e algumas casas inteiras.
No dia 15/02, Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, enfrentou a maior chuva desde 1932, segundo informações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). As fortes chuvas causaram deslizamentos e tiraram a vida de mais de cem pessoas, desabrigando milhares. © Thomas Mendel / Greenpeace

As chuvas voltaram e, junto com elas, o medo e a insegurança, principalmente para quem vive em regiões sem infraestrutura para enfrentar as consequências das tempestades, como enchentes e deslizamentos. 

O mês de novembro chega ao fim com a ocorrência de fortes precipitações em uma área do Brasil que vai desde o litoral de Santa Catarina até o Espírito Santo. No Paraná, na segunda-feira, dia 28, um deslizamento de terra no km 669 da BR-376, em Guaratuba, interditou completamente a rodovia em ambos os sentidos. A Polícia Rodoviária Federal confirmou vítimas fatais e pessoas desaparecidas.

Os estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina também sofrem com as chuvas que desencadeiam situações desoladoras. Um temporal na tarde desta quarta-feira (30) provocou alagamentos e deslizamentos em Conceição de Macabu, no interior do Rio de Janeiro. Ao menos 25 pessoas estão desabrigadas e cinco ficaram feridas. Em Santa Catarina, segundo a MetSul, o volume acumulado de chuva desde o começo da semana chegou a 645 milímetros em Santo Amaro da Imperatriz, uma das cidades mais afetadas. Em São João Batista, município no vale do rio Tijucas, segundo a prefeitura, 15 mil moradores foram afetados e as inundações cobriram 85% da cidade. Em 24 horas, o Rio Tijucas subiu 6 metros. Foi decretada situação de calamidade pública.

De acordo com o INMET, as previsões climáticas indicam que nos meses de dezembro de 2022 e janeiro de 2023, as chuvas podem ficar mais próximas ou acima da média na região Norte do Brasil e grande parte do Sudeste e Centro-Oeste. Sete estados estão com alerta vermelho para risco de grandes alagamentos, transbordamentos de rios e deslizamentos de encostas. São eles Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Não há mais tempo para que o poder público continue virando as costas para os alertas da ciência e agindo como se nada pudesse fazer para evitar os impactos dos eventos extremos. Depois de um ano recorde em número de mortes por inundações, com tragédias como a de Petrópolis e Pernambuco, o governo Bolsonaro deixou sua marca de descaso e abandono às populações mais vulnerabilizadas reduzindo drasticamente o orçamento de obras emergenciais para prevenção e mitigação de emergências e catástrofes climáticas.

O orçamento proposto no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2023 para os programas de prevenção e resposta a desastres saiu de R$ 2,8 milhões (2022) para R$ 25 mil reais. Estamos falando de uma redução de mais de 90% nos principais projetos e obras de contenção de encostas nas áreas urbanas, no sistema de drenagem e manejo de águas pluviais.

Só neste ano, o Brasil sofreu mais de 450 mortes por enchentes e deslizamentos, de acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM). “Não podemos naturalizar a situação de suscetibilidade e vulnerabilidade de 8,2 milhões de mulheres, negros, negras e jovens que foram colocadas nas mais de 27.660 áreas de riscos no país. Esses impactos são produzidos socialmente nos territórios e são exemplos evidentes de racismo ambiental”, afirma Rodrigo Jesus, porta-voz da campanha de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil. 

Os impactos dos eventos extremos decorrentes da crise climática são realidade na vida das populações e isso precisa ser prioridade nas ações do próximo governo. Um estudo do Observatório dos Desastres Naturais da Conferência Nacional de Municípios (CNM) estima que mais de 345 milhões de pessoas foram afetadas com as chuvas entre 2013 e 2022 e o prejuízo aos cofres públicos ultrapassou o montante de R$341,3 bilhões.


“Estamos diante de um problema histórico e cíclico no país. O poder público precisa garantir a priorização dessa pauta na agenda climática. É urgente que medidas de adaptação climática aos impactos dos eventos extremos sejam elaboradas em conjunto com as pessoas mais impactadas e que sejam destinados recursos para subsidiar boas condições de infraestrutura urbana, moradia, segurança alimentar, centros de saúde, entre outros direitos básicos. É necessário garantir capacidade de resiliência para a sociedade, em especial às populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica”, alerta Rodrigo Jesus.

(atualizado em 05.12.22, 10h55)