Brasil já usa mais de 5 mil agrotóxicos e 700 mil toneladas por ano — se bancada ruralista aprovar o Pacote do Veneno, números vão aumentar

Greenpeace Brazil activists protest in front of the National Congress building in Brasília, against the Poison Bill (PL 1459/22), which is currently in the Environment Commission in the Senate. The agricultural businesses is lobbying to put pressure for the Senate to vote for the bill soon. The bill weakens the current Brazilian law on pesticides and authorises more toxic and even carcinogenic substances.
United Nations experts have urged the Brazilian Senate to reject a draft bill on pesticides, warning that its adoption will mark a monumental setback for human rights in the country.

Para dizer, mais uma vez, não ao Pacote do Veneno (PL 1459/22), ativistas fizeram uma mobilização em frente ao Congresso Nacional na quarta-feira (4), representando centenas de organizações e milhões de pessoas que já se posicionaram contra a proposta.

No mesmo dia, o Pacote do Veneno estava na pauta da Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado, mas foi retirado após pedido do relator. Mesmo assim, o risco de avanço na tramitação continua. 

A bancada ruralista não esconde a pressa em avançar com o Pacote do Veneno, ignorando os prejuízos à sociedade e à biodiversidade brasileira. O Brasil é um dos líderes em uso de veneno no mundo: são mais de 5 mil agrotóxicos registrados e mais de 700 mil toneladas consumidas por ano (Fonte: MAPA e FAO).

Se o Pacote do Veneno for aprovado, o que já é ruim vai piorar. Recentemente, em setembro, o relator Fabiano Contarato (PT) apresentou uma nova versão tentando diminuir seus danos, porém questões críticas seguem: o Pacote do Veneno enfraquece a legislação brasileira sobre agrotóxicos e permite o registro de substâncias cancerígenas, muitas das quais são proibidas na União Europeia. 

Reforçando o repúdio da sociedade, na última semana mais de 230 organizações ambientais, científicas e de saúde assinaram uma nota contra a nova versão do Pacote do Veneno. A Fiocruz também endereçou um comunicado ao Senado, preocupada com o uso de agrotóxicos no Brasil. 

“É preciso rejeitar o PL 1.459/22 em sua totalidade e não se deixar levar pela pressão dos ruralistas. Reconhecemos o esforço do senador Contarato em trazer melhorias ao texto e em pedir mais debates sobre um assunto tão importante à saúde da população e ao meio ambiente”, destaca Mariana Campos, porta-voz de Agricultura do Greenpeace Brasil.

“No entanto, o Pacote do Veneno segue sendo uma ameaça, porque não podemos negociar o risco de doenças como câncer e malormação fetal.”

Bancada ruralista insiste no Pacote do Veneno

Bancada ruralista é o nome popular da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA): um grupo de parlamentares ligados ao agronegócio e que defende propostas de interesses do setor no Congresso Nacional. No total, são 374 membros: 324 deputados e 50 senadores, ou seja, são maioria na Câmara dos Deputados (73%) e no Senado (62%). 

Por ser maioria no poder legislativo, a bancada ruralista consegue avançar com propostas que, muitas vezes, só favorecem suas bases, como multinacionais agrícolas e grandes latifundiários, enquanto causam impactos ao meio ambiente e à população, como o Pacote do Veneno. Por isso, a sociedade civil e científica segue atenta e vigilante contra ataques e retrocessos socioambientais. 

Mariana Campos lembra que “o Pacote do Veneno vai na contramão dos compromissos sociais e ambientais firmados pelo governo Lula”, sendo alvo de preocupação inclusive da comunidade internacional. Além disso, vários países, incluindo os da União Europeia, têm banido cada vez mais substâncias nocivas à saúde e ao meio ambiente. “Por que as crianças europeias são poupadas de veneno e as brasileiras, não? Não faz sentido.”

11 perigos do Pacote do Veneno 

1- Revoga a Lei de Agrotóxicos sem motivos técnico-científicos: a atual Lei nº 7.802/1989 confere maior proteção ao meio ambiente e à saúde pública, pautada no princípio da precaução no uso de agrotóxicos. O Pacote do Veneno visa facilitar o registro de agrotóxicos em detrimento dos direitos coletivos e  fundamentais.

2- Determina o conceito de “risco aceitável” para doenças como o câncer: a proibição de agrotóxicos vai ser restringida aos “riscos inaceitáveis”, termo vago que pode permitir o registro de substâncias cancerígenas e mutagênicas.

3- Muda o nome para mascarar toxicidade: exige a alteração de “agrotóxico” para “pesticida”, porém o termo é utilizado nas normas regulamentadoras e está previsto na Constituição Federal para alertar sobre danos socioambientais.

4- Tira o poder de veto da saúde e meio ambiente: o Pacote do Veneno deixa dúvidas quanto à lógica de registro de novas substâncias, sem estabelecer autorização do Ibama e da Anvisa.

5- Registro eterno de agrotóxicos: atualmente, o Decreto 4074/02 permite que a reavaliação seja feita quando surgirem indícios de riscos.

6- Institui prazos inadequados: delimita prazos rápidos para que os órgãos federais registrem os agrotóxicos, comprometendo a avaliação de toxicologia e ambiental.

7- Exportação de agrotóxicos proibidos: abre possibilidade da fabricação em solo brasileiro de agrotóxicos proibidos no Brasil, caso sejam voltados para exportação, desconsiderando os riscos da produção, transporte e para os países onde serão utilizados. 

8- Receituário de gaveta: prevê a emissão de receituário antes mesmo da ocorrência de uma praga.

9- Desregulamenta a propaganda: ao contrário da legislação atual, o Pacote do Veneno é omisso em relação à publicidade de agrotóxicos.

10- Impede a legislação de estados e municípios: ao centralizar o cadastro de agrotóxicos em âmbito federal, o Pacote do Veneno vai na contramão da legislação brasileira que permite que estados e municípios tenham regulamentação complementar quando forem mais restritivas do que a lei federal.

11- Registro temporário é inaceitável: o texto original do Pacote do Veneno previa o registro temporário, que poderia permitir o uso de agrotóxicos sem a finalização dos devidos estudos. O relatório do Senador Contarato eliminou essa possibilidade.

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