Do gás de cozinha ao óleo de soja, famílias brasileiras tendem a sentir no bolso os efeitos dos conflitos com alta nos combustíveis e alimentos

Há quase três meses, os EUA e Israel deram início a uma guerra contra o Irã que escalou para outros países do Oriente Médio. Já são milhares de mortes e milhões de pessoas deslocadas à força, além de restrições no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
No Brasil, o aumento no preço dos alimentos é uma das maiores preocupações do efeito cascata na cadeia de combustíveis fósseis, com encarecimento de insumos fundamentais para o agronegócio brasileiro: diesel e fertilizantes.
“Os conflitos geopolíticos em curso estão ceifando milhares de vidas e aprofundando desigualdades em todo o mundo”, explica Leilane Reis, coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil. “O Brasil sente esse impacto diretamente, afinal nossa dependência de combustíveis fósseis nos deixa reféns de crises que não controlamos e que custam bilhões aos cofres públicos. Precisamos ir além de medidas emergenciais e investir em soberania alimentar e energética de forma segura e local. Não é só uma questão ambiental, é responsabilidade econômica e social.”

Impactos da guerra no Brasil: fertilizantes, diesel e o preço da comida
Os efeitos da guerra no Oriente Médio já aparecem no dia a dia das famílias brasileiras e tendem a se intensificar nos próximos meses, especialmente na compra de fertilizantes para a nova safra.
O Brasil importa cerca de 87% dos fertilizantes que consome, aproximadamente 45 milhões de toneladas por ano. A maioria dos insumos são NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) e, no caso dos nitrogenados, como a ureia, países do Oriente Médio têm participação relevante.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP, o óleo de soja teve alta em março, impulsionado pela demanda por biodiesel. Milho, arroz, feijão e açúcar são impactados pelo encarecimento dos fertilizantes, enquanto carnes e ovos sofrem com o aumento da ração e do transporte.
O fluxo de caminhões neste período do ano já é maior, o que amplia a pressão sobre os preços dos alimentos. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam alta no diesel e análises do Cepea/USP apontam que o frete pode subir mais de 50% em comparação anual.
Relação direta guerra e preço da comida
A produção de fertilizantes nitrogenados, o tipo mais usado no Brasil e no mundo, depende do gás natural, conectando o agronegócio diretamente à cadeia de combustíveis fósseis. Já o aumento do diesel (usado nos maquinários e no transporte) impacta o custo do plantio, da colheita e do frete. Resultado: alimentos mais caros.
Reduzir a dependência de fósseis implica em fortalecer práticas anteriores à industrialização, como rotação de culturas e biofertilizantes naturais (esterco e chorume), técnicas também presentes na agricultura de base ecológica, a agroecologia. Hoje, o uso de fertilizantes nitrogenados é uma das agravantes da crise climática, respondendo por 20% das emissões do setor agrícola.
Medidas de contenção do governo federal
Diante da pressão sobre os preços, o governo brasileiro publicou as Medidas Provisórias 1340 e 1349, em março e abril, que mobilizam cerca de R$ 40 bilhões em ações como subsídios ao diesel e gás de cozinha (GLP), além de intensificar a fiscalização em postos de combustíveis contra preços abusivos.
São iniciativas que ajudam a amortecer o impacto imediato sobre as famílias, especialmente as de baixa renda. Mas não enfrentam a raiz do problema: a forte dependência brasileira de combustíveis e insumos fósseis.
Cessar-fogo no Oriente Médio e Soluções Locais
O frágil cessar-fogo no Irã, previsto até 21 de abril, não interrompeu a guerra no Oriente Médio: o Líbano foi bombardeado com 100 mísseis em 10 minutos por Israel e o Estreito de Ormuz segue sob restrição.
Além de ajuda humanitária e pressões diplomáticas, precisamos cobrar de nossos governantes uma economia voltada à paz, baseada em modelos descentralizados e seguros de geração de energia e alimentos.
Esse caminho exige mais investimentos na produção ecológica e na redução gradual de combustíveis fósseis. A transição passa pelo fortalecimento de fontes renováveis, como a solar, e pela expansão de bioinsumos, com apoio direto à agricultura familiar, povos indígenas e comunidades tradicionais.
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