Seguiremos lutando porque o que está em jogo é o futuro de todos nós, e não podemos parar

© Todd Southgate / Greenpeace

No último dia 03 de junho, um barco do Greenpeace saiu de Manaus em direção ao sul do Estado do Amazonas. Depois de muito planejamento, a nossa expedição “A Amazônia que Precisamos” estava virando realidade: seríamos, por quase um mês, uma base de trabalho para cientistas que estudam a biodiversidade amazônica e teriam a oportunidade de fazer pesquisa em um lugar ainda bem pouco estudado; e um ponto de contato e aproximação com as comunidades do Rio Manicoré, para apoiá-los em sua luta histórica pela garantia de suas terras e de seus modos de vida.

A expedição mal havia começado quando Bruno e Dom desapareceram. Era exatamente contra o crime que ameaça todos aqueles que trabalham para defender a floresta e seus povos que criamos essa expedição, na esperança de promover uma Amazônia biodiversa, que garante o direito dos povos indígenas e das comunidades tradicionais que nela habitam e que encontra caminhos viáveis de desenvolvimento que são o oposto dessa terra sem lei que o governo brasileiro fomenta e tenta nos fazer engolir.

Desde que a morte de Dom e Bruno foi confirmada, entre a tristeza e a indignação, também nos perguntamos como seguir por aqui, como falar de uma Amazônia possível quando esse fato escancara para o Brasil e o mundo o mais profundo desprezo por parte das autoridades brasileiras a esse projeto de futuro. Desprezo aos povos indígenas que vêm denunciando as violências e ameaças sofridas sistematicamente e nada acontece, desprezo às comunidades tradicionais e as intimidações que sofrem cotidianamente, desprezo pela ciência e inovação, quando mingua o financiamento para pesquisas.

Escolhemos seguir aqui para honrar o legado de Bruno, Dom e tantos que foram mortos antes deles. Vamos, sim, falar da Amazônia que precisamos – como forma de resistência. Vamos falar de luta pelo direito à terra, vamos falar de culturas tradicionais que respeitam a floresta, vamos falar de biodiversidade, de ciência e de tudo o que nos fará avançar. Porque avançaremos.

Enquanto eu escrevia esse texto, soube que o grupo de pesquisadores de aves que está na expedição, localizou no Rio Manicoré o passarinho batizado de Chico Mendes em homenagem ao ativista acreano. O passarinho está muito ao norte de onde ele já havia sido registrado, fazendo desse achado uma novidade sobre o que se sabe dele e de seu habitat. O pesquisador que me contou da descoberta me mostrou também o texto etimológico que justifica a escolha do nome da espécie. Ele termina assim: 

Se Mendes estivesse vivo hoje, não podemos deixar de imaginar que o Brasil estaria muito à frente no desenvolvimento de uma Amazônia verdadeiramente sustentável, em harmonia razoável com os povos indígenas e colonos. Ao trazer este passarinho desconhecido à luz da ciência, invocamos o espírito de Chico Mendes para nos ajudar a fazer o certo.

Lutaremos por Justiça – por Dom, por Bruno e por todos aqueles cujas vidas foram tiradas por atos ou omissões de um Estado cada vez mais conivente com o crime. Lutaremos ao lado do povo do Rio Manicoré. Lutaremos por essa floresta e por todas as espécies que conhecemos – e todas aquelas que não conhecemos também. Seguiremos lutando porque o que está em jogo é o futuro de todos nós, e não podemos parar. Nós precisamos fazer o que é certo. 

Te convido a vir junto e a manifestar seu apoio a essa causa – cada voz soma e amplifica.

Em breve você vai poder acompanhar a expedição nos nossos canais.  

Um abraço e obrigada,

Carol Pasquali

Carol Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil