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“É o prêmio que o Ministro tanto merece, que se esforçou muito pra conseguir”, disse Ian no momento da entrega

Ian Coêlho entregando o “Prêmio Exterminador do Futuro” a Ricardo Salles ® Henrique Medeiros / Mídia Ninja

No dia 9 de outubro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recebeu o “Prêmio Exterminador do Futuro”, durante a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, convocada em razão do vazamento de óleo que até então tinha atingido praias de ao menos nove estados do Nordeste.

O prêmio foi entregue por Ian Coêlho, um dos participantes do movimento “Jovens pelo Clima”, de Brasília, que por meio dessa ação acabou representando o desejo de outros milhares de jovens que têm se articulado para cobrar ações práticas de governantes e empresas para frear as mudanças climáticas.

Nós entramos em contato com o Ian para saber como nasceu o “Jovens pelo Clima” em Brasília e pedimos um relato de como foi a construção desse momento da entrega do prêmio sob a sua perspectiva, que merece ser relembrado, pois as ações posteriores do ministro, que continua avançando quando o assunto é retrocesso ambiental, só fizeram reforçar o merecimento de “Exterminador do Futuro”.

Por Ian Coêlho

Meu nome é Ian Coêlho, tenho 17 anos e atualmente estou cursando o 3˚ ano do Ensino Médio. Nasci e moro em Brasília.

No início deste ano, uma amiga do colégio, chamada Nina, me contou sobre a movimentação internacional que estava acontecendo em torno de uma causa reforçada pela jovem Greta Thunberg. Nós não éramos ambientalmente militantes, mas sempre procuramos debater e pesquisar sobre política e movimentações geopolíticas internacionais.

Numa tarde de realização de um trabalho escolar, Nina sugeriu que, com o objetivo de reverberar o que estava acontecendo no mundo, fizéssemos uma manifestação em defesa do meio ambiente em frente ao Congresso Nacional em Brasília. Eu, Nina e Helena estávamos decididos que seria de fundamental importância que a capital de um dos países mais biodiversos do mundo “marcasse presença” nessa demonstração pública de indignação.

A ideia seguiu forte. Aos poucos outras amigas, Clara, Nara e Marcela, foram se juntando a essa ideia e assim nascia o projeto “Jovens pelo Clima” em Brasília, que começou com uma pequena estrutura e rapidamente foi recebendo cada vez mais jovens. Em nossa segunda manifestação, um total de 100 pessoas ocuparam o gramado em frente ao Congresso Nacional no dia 24 de maio, pedindo seriedade para com a política ambiental brasileira. Na ocasião, conseguimos chamar a atenção do poder público, pois contamos com a presença de um deputado distrital que demonstrou apoio ao projeto.

Cerca de um mês depois, no dia 28 de junho, uma roda de conversa foi feita no mesmo gramado para que pudéssemos dialogar e pontuar críticas e sugestões à política ambiental brasileira.

Com o tempo, o “Jovens pelo Clima” Brasília se estruturou melhor e estreou o segundo semestre de 2019 muito mais preparado para enfrentar tudo o que viria pela frente. Em uma das várias conversas que participamos com grupos ambientais, alguém sugeriu que criássemos um coletivo que reunisse diversas entidades para que pudéssemos fortalecer o movimento ambiental e assim fazer uma manifestação histórica em prol do meio ambiente. Após algumas reuniões, muito esforço conjunto e muito suor, no dia 18 de setembro, a Coalizão pelo Clima do Distrito Federal foi formada e o manifesto da Coalizão foi lido por mim no Salão Verde da Câmara dos Deputados.

Organizamos então como seria a Greve Global pelo Clima, que tinha tudo para dar certo, e deu.

No dia 20 de setembro de 2019, cerca de 2,5 mil pessoas lotaram a rodoviária do Plano Piloto, marcharam em direção ao Ministério do Meio Ambiente e desceram até o Congresso. Na marcha, tivemos a presença da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a presença do deputado Leandro Grass. Ao chegarmos no gramado do Congresso, uma roda de falas foi aberta e todos que tiveram vontade abriram seus corações e compartilharam seus pensamentos. Foi lindo.

Em meio a tantas idas e vindas à Câmara e ao Senado, conheci muitos ativistas do movimento socioambiental que fazem um trabalho fenomenal nessa área. Muitos deles encontraram em nós, jovens militantes, a esperança de um futuro. Após um desses encontros, em reuniões dentro e fora do Congresso, me foi dada a missão de fazer a entrega do prêmio de “Exterminador do Futuro” ao Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que parece mais ser um Ministro do Agronegócio…

Foram algumas semanas de preparação. O que eu quero dizer é: não foi um ato isolado e inconsequente de um estudante delirante, foi algo bem pensado para que tudo desse certo. Tínhamos o momento perfeito para agir. Por diversas vezes, revisamos a legislação brasileira para saber das possíveis sanções que poderiam me ocorrer, mas nada de substancial foi achado. Consideramos então como um ato legítimo, representado por uma pessoa com direito a ocupar aquele local de fala.

O principal objetivo desse ato era fazer uma crítica à condução da política ambiental brasileira, de forma descontraída e sarcástica. O objetivo foi alcançado com louvor, o ato repercutiu muito mais do que achávamos que repercutiria e ficamos sabendo que a notícia chegou até a União Europeia.

Confesso que em alguns momentos eu pensei em desistir, pois o nervosismo era enorme e a adrenalina estava no topo. Quando vi o boneco, minutos antes da entrega, foi uma sensação muito estranha, uma mistura intensa de ansiedade com felicidade.

Foi então que em uma pequena brecha entre a fala do presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e o início da audiência, eu me aproximei da mesa, me ajoelhei para que pudesse retirar o prêmio sem chamar muita atenção e fiz a tão merecida entrega, proferindo as seguintes palavras: “Ministro, eu queria fazer uma entrega pra você. Esse aqui é o prêmio do Exterminador do Futuro pro Ministro Salles, é o prêmio que o Ministro tanto merece, que se esforçou muito pra conseguir”.

Assim que eu coloquei o prêmio em cima da mesa, o Ministro rapidamente o escondeu. Eu acredito que foi uma tentativa de evitar que o ato fosse fotografado, mas já era tarde demais, inúmeras fotos já haviam sido tiradas.
Assim como o Ministro, os policiais legislativos federais foram rápidos e diretos e eu fui retirado de forma ríspida, mas não muito agressiva.

Quando conseguiram me tirar da mesa, me encaminharam até a saída da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Depois de ter saído, não fui repreendido e nem interrogado, fiquei no hall da entrada do Anexo 2 da Câmara conversando com alguns colegas. Quando achei oportuno, fui para a parada de ônibus ao lado do STF (Supremo Tribunal Federal), peguei meu ônibus e voltei para escola ainda a tempo de assistir a uma aula de História.

Seguranças retirando Ian após entrega do “Prêmio Exterminador do Futuro” a Ricardo Salles