
Vazamento, multa do Ibama e falhas técnicas expõem a fragilidade da perfuração de petróleo na região.
Toda vez que uma violação ambiental acontece, inicia-se um debate sobre a gravidade de impactos. Na Foz do Amazonas, no entanto, a pergunta central deveria ser outra: por que seguimos tratando como aceitável qualquer nível de risco em um território que nunca deveria ser perfurado?
O vazamento de fluido durante as operações de perfuração realizadas pela Petrobras no Bloco 59, na Bacia da Foz do Amazonas, não é um episódio isolado. Ele se soma a uma sequência de alertas ignorados, falhas operacionais e decisões que priorizam a exploração de petróleo em detrimento do futuro das comunidades locais e da proteção de um dos sistemas marinhos mais complexos e sensíveis do planeta.
Risco ambiental sob penalidade
O vazamento de mais de 18 mil litros de fluido de perfuração ocorreu a cerca de 175 quilômetros da costa do estado do Amapá. Após vistoria da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Petrobras foi autorizada a retomar as atividades mediante o cumprimento de requisitos básicos. Já o Ibama aplicou uma multa de R$ 2,5 milhões à empresa, reconhecendo que o fluido representa risco médio para a saúde humana e para o ecossistema aquático.
A Foz do Amazonas não comporta testes, ajustes pós-acidente ou margens de erro. Se um vazamento já ocorreu, se equipamentos críticos operavam sem certificação e se o monitoramento só foi reforçado depois do incidente, não há como sustentar qualquer discurso de segurança. Cada novo episódio apenas reafirma uma constatação incômoda, mas necessária: não existe perfuração segura nesse território.
Afirma Mariana Andrade, coordenadora de Oceanos do Greenpeace Brasil.
O mínimo que não estava sendo cumprido
Um mês após o vazamento, a ANP emitiu um parecer que detalha o ocorrido, mas suaviza sua gravidade. O aspecto mais preocupante do documento não é a lista de condicionantes impostas, mas que:
As novas exigências revelam que a Petrobras não atendia requisitos fundamentais de segurança antes do incidente.
Entre as falhas identificadas está a presença de 15 juntas de riser sem certificado de conformidade a bordo. Essas estruturas são responsáveis por conectar a sonda ao poço no fundo do mar, tiveram sua integridade comprometida pelas fortes correntes marítimas da região, conforme reconhecido pela própria ANP.
A agência também apontou que o monitoramento da atividade era insuficiente, determinando a redução do intervalo de coleta de dados de vibração e a substituição integral dos selos das juntas de riser.
Nada disso é detalhe técnico. Esses elementos indicam que o risco de vazamentos foi subestimado desde o início das atividades de perfuração.
Impactos que seguem invisibilizados
Embora reconheça que o acidente teve causas multifatoriais, especialmente relacionadas à intensidade das correntes marítimas da Foz do Amazonas, a ANP não apresentou qualquer análise ou condicionante sobre os impactos ambientais do vazamento na coluna d’água. A própria necessidade de uma base hidrodinâmica atualizada é justificada por eventos como este. O silêncio sobre os danos ambientais é tão alarmante quanto o vazamento em si.
Esse apagamento se expressa de forma concreta:
- Ausência de avaliação dos impactos do vazamento na coluna d’água;
- Desconsideração da conexão entre sistemas recifais, manguezais e comunidades costeiras da região;
- Tentativa de normalizar o risco em um território ambientalmente interligado e sensível;
- Adiamento da suspensão da licença para perfuração, ampliando o risco às populações e biodiversidade locais.
Assine e se posicione
O vazamento no Bloco 59 não é um acaso. Ele é um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Proteger a Foz do Amazonas é proteger o oceano, o clima e as comunidades que dependem diretamente desse ecossistema para existir.
👉 Assine a petição #PetróleoNaAmazôniaNão e some-se a quem defende que a Foz do Amazonas não pode ser colocada em risco.
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