Movimentos sociais lançam debate durante a Semana da Alimentação,  entre 11 e 15, sobre as transformações imprescindíveis para superarmos a fome e a crise climática

Semana da alimentação | Créditos:  Christian Braga / Greenpeace
Semana da alimentação | Créditos: Christian Braga / Greenpeace

A nuvem de poeira que engoliu cidades no Sudeste do Brasil não poderia ser um alerta mais claro!  A crise ambiental mundial que vem agravando uma epidemia de fome no Brasil precisa de ações urgentes.   

Para ampliar esse debate e cobrar soluções concretas e imediatas, o Greenpeace Brasil participa das ações da Semana Mundial da Alimentação (confira programação abaixo) que acontece até o dia 16 de outubro, quando se celebra a data de criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU). Há 67 anos a data inspira reflexão e celebração ao direito de todas as pessoas a comida de verdade no prato! 

Embora alimentação saudável e adequada seja um direito de toda a população brasileira, previsto na nossa Constituição Federal, a fome cresce a cada dia e afeta principalmente os mais pobres, negros, mulheres e crianças. E,  justamente no momento em que o país enfrenta uma de suas piores crises sanitárias e de saúde, agravada pela pandemia do Novo Coronavírus, voltamos ao mapa mundial da fome. Uma vergonha para o maior produtor e exportador de carnes e grãos do mundo. 

Estamos reféns de um sistema alimentar que semeia doenças, cultiva desigualdades e produz mortes. Além da altíssima dependência dos agrotóxicos, que irá se intensificar a partir do recente e inaceitável Decreto Presidencial publicado às vésperas do feriado que facilitou a aprovação de substâncias super perigosas para nossa saúde.  O agronegócio brasileiro encarna um modelo de produção e comercialização de alimentos que é um dos principais motores das mudanças climáticas e é, também, o maior vetor de desmatamento e destruição da nossa biodiversidade. 

Há décadas sustentado por incentivos públicos inesgotáveis, o agronegócio vai passando sua boiada sobre os territórios de povos tradicionais e agricultores familiares, trocando nossa riquíssima diversidade cultural, alimentar e biológica por imensos desertos de commodities agrícolas, que ganham o mercado internacional, mas deixam a população a ver navios. 

Entre os anos de 2000 e 2019, as áreas plantadas de arroz e feijão no Brasil encolheram 53% e 37%, respectivamente, ao mesmo tempo em que a monocultura de soja expandiu as lavouras em 162%. Enquanto o Brasil desaba em crises sucessivas, o “agro pop” celebra safras recordes e exportações bilionárias. 

A pandemia escancarou o que muitos cientistas e organizações da sociedade civil já apontam há anos, o atual modelo de produção de alimentos é insustentável. Para conseguir se reerguer da crise humanitária a que chegamos só há uma saída: o Brasil precisa iniciar uma transição para sistemas alimentares mais saudáveis, justos e sustentáveis, e isso é para ontem. Sistemas alimentares capazes de alimentar pessoas, não empresas. Que respeitem e valorizem a diversidade e a cultura alimentar de cada região. Que gerem saúde no campo e nas cidades, em parceria com a natureza. 

A boa notícia é que esses sistemas já existem. São colocados em prática não há 50 ou 60 anos, mas há milhares de anos, e isso se chama agroecologia. Uma forma de produzir comida operada por famílias em todo o planeta, que se baseiam na biodiversidade local e nos princípios da economia solidária para produzir alimentos diversos e saudáveis que vão abastecer outras famílias e a si mesmas, garantindo a segurança e a soberania alimentar da população. A agroecologia é democrática e depende da democracia viva para avançar sobre os territórios.

Não é à toa que a ONU – cujo Programa Mundial de Alimentação recebeu o Prêmio Nobel da Paz –  já aponta há mais de uma década em seus relatórios científicos e políticos que a agroecologia é um caminho indispensável na redução das desigualdades sociais e para a promoção da saúde coletiva e ambiental no mundo. 

É justamente em torno deste caminho, que já vem sendo trilhado, mas que precisa mais do que nunca ser fortalecido, e sobre os absurdos que estamos assistindo que estarão os debates a serem realizados nos próximos dias por organizações, coletivos, movimentos sociais, agricultores familiares, comunidades tradicionais e indígenas. 

Entre nossos grandes parceiros nessa luta, a campanha  “Gente é para brilhar e não pra morrer de fome” está com uma programação para lá de especial que pode ser acessada aqui. No mais, siga acompanhando nossas redes para ficarem antenadas e antenados no que vem pela frente!