Mobilização termina com os povos indígenas clamando por um país democrático, justo, multicultural, que respeite e proteja a vida

O maior acampamento indígena do mundo terminou semana passada em Brasília (DF). Foto: Matheus Alves

A carta final do Acampamento Terra Livre 2022 – divulgada na tarde do dia 14 de abril, no encerramento do evento – serve como um bom resumo do que foi a jornada indígena que levou mais de 8 mil lideranças, de 200 povos diferentes, a Brasília (DF) nas últimas semanas. 

Com o tema “Retomando o Brasil: Demarcar Territórios e Aldear a Política”, o evento foi a resposta a um chamado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ao longo de dez dias, a Apib organizou e articulou uma intensa agenda de debates e ações para expressar e consolidar a resistência dos povos indígenas contra os distintos projetos de extermínio que os donos do poder têm articulado ao longo desses 522 anos.

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O documento acabou por reafirmar algumas das lutas históricas dos povos originários – como a demarcação de territórios, condição fundamental para garantir sua sobrevivência física e cultural – e deixar claro que as lideranças querem ter um papel ativo na formulação de políticas e nos processos decisórios que lhes dizem respeito.

“Por muito tempo, nós indígenas recusamos estar no comando dos órgãos e ocupar esses espaços típicos da política dos brancos. Mas esse tempo acabou. Agora queremos ocupar tudo, queremos estar nas câmaras, nas assembleias e dirigir órgãos como a Funai. Chega de termos pessoas não comprometidas com a causa indígena decidindo as coisas por nós”, disse a coordenadora-executiva da Apib, Sônia Guajajara, numa das plenárias que debateu o assunto.

A carta traz uma seção chamada Pontos para uma Plataforma Indígena de Reconstrução do Brasil, em que a Apib apresenta propostas divididas em cinco eixos: demarcação e proteção dos territórios indígenas; retomada dos espaços de participação e controle social indígenas; reconstrução de políticas e instituições indigenistas; interrupção da agenda anti-indígena no Congresso Federal e promoção de uma agenda ambiental

Bancada Indígena

Conscientes da necessidade de serem protagonistas seus planos de vida e da necessidade de exercerem seu direito de participar e formular políticas públicas que lhes nos dizem respeito, para as eleições de 2022 as mulheres indígenas lançaram a “Bancada Indígena” – composta por trinta e quatro mulheres que apresentaram suas candidaturas e se comprometeram com a defesa dos direitos indígenas nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional.

A luta contra o #PacotedaDestruição do governo Bolsonaro também foi outro assunto muito falado no acampamento: na terça-feira 5, foi lançado um abaixo-assinado contra o Projeto de Lei 191/2020, que libera a mineração e o garimpo, entre outras atividades econômicas, dentro de Terras Indígenas. Várias manifestações lembraram do PL 490/2007; do Marco Temporal; e do Pacote do Veneno (o PL 6299/2002), entre outros projetos de lei e iniciativas que violam os direitos indígenas e ameaçam o equilíbrio ambiental dos cinco biomas nacionais, entre eles a Amazônia.

Os atos de rua trouxeram de maneira estrondosa as demandas dos povos indígenas para Brasília. A marcha “DemarcaçãoJá!” abriu o calendário de atos no Eixo Monumental, lembrando das mais de 800 Terras Indígenas aguardando providências da União para serem homologadas e regularizadas. Em aliança com os povos indígenas, o Greenpeace entregou ao Ministério da Justiça um abaixo-assinado, com mais de meio milhão de assinaturas, que pediu “Basta de Violência contra os Povos Indígenas!”.

Na segunda (12) foi a vez da “Marcha contra o Garimpo que Mata e Desmata”, que levou barras de ouro sujas de sangue e lama para a frente do Ministério de Minas e Energia (MME), deixando claro que o ouro extraído na Amazônia está manchado com a lama que polui os rios e com o sangue dos povos. Nos dez dias de evento, foram realizadas cinco marchas que saíam do Complexo cultural da Funarte rumo à Esplanada dos Ministérios.

Força e poder

Outros pontos dignos de nota no acampamento foram a cozinha comunitária do Movimento Sem Terra (MST), que forneceu mais de 21 mil refeições diariamente para as lideranças indígenas; e o tema LGBTQIA+ que, pela primeira vez, por meio de uma plenária, entrou de maneira oficial na programação do Acampamento Terra Livre. “Colorindo a luta em defesa do território” foi o mote da discussão, que discutiu a presença de pessoas trans e não-binárias nos territórios indígenas, assim como a necessidade de acolhimento e visibilização das violências sofridas por essas pessoas. 

Para o porta-voz da Campanha Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar, a retomada da versão presencial do Acampamento Terra Livre em 2022 mostrou a força e o poder de articulação do movimento indígena no Brasil:

“Mais uma vez, as lideranças indígenas provaram que ainda tem muito a oferecer para o fortalecimento da cultura brasileira, mas também para o processo de enfrentamento da crise climática global. Não será violando os direitos indígenas que iremos construir um país justo e ambientalmente equilibrado. Para isso é fundamental garantir o reconhecimento do direito originário dos povos indígenas aos seus territórios”, disse Danicley.

The 18th Free Land Camp takes place in Brasília from April 4th to the 14th, 2022 with the "Retaking Brazil: Demarcating the Territories and Indigenizing the Politics". This is the first camp held in person in two years, due to the Covid-19 pandemic. Held since 2004, the camp demands that Indigenous Lands be demarcated, in addition to the defense of life against the destruction agenda promoted by the Bolsonaro government.

The mobilization aims to block the anti-Indigenous agenda that looms in the National Congress and fight the Marco Temporal thesis, to be ruled in June by the Brazilian Supreme Court, possibly the most important ruling on the Indigenous People history, which will decide the future of all Indigenous Lands in Brazil.

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