Investigação aponta como falhas na regulação do garimpo permitem que ouro ilegal extraído de terras protegidas seja vendido como produto legal. 

Vista aérea de área de garimpo com troncos de árvore derrubados, solo exposto em tons alaranjados, sulcos de erosão profunda e poças de água barrenta cercadas por resquícios de vegetação amazônica.
Sobrevoo regista áreas de garimpos ilegais dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, em abril de 2021. Crédito: © Christian Braga / Greenpeace

Em períodos de instabilidade econômica e geopolítica, o ouro volta a ocupar posição estratégica no mercado global. Historicamente associado à segurança financeira, o metal se fortalece em cenários marcados por guerras, crises econômicas e incertezas internacionais. Mas por trás do brilho, se esconde a anatomia de uma fraude que está destruindo o coração da maior floresta tropical do planeta.

O relatório inédito do Greenpeace Brasil Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude usa dados públicos para detalhar que o principal instrumento utilizado para legitimar o ouro ilegal é a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG). A investigação mostra que o regime das PLGs, que deveria funcionar como regulamentação do garimpo artesanal, na prática permite que elas sejam utilizadas como fachada para fraudes em larga escala.

O principal instrumento: a Permissão de Lavra Garimpeira

A Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) é um tipo de regime de extração mineral outorgado pela Agência Nacional de Mineração (ANM).

Criada em 1989 com o objetivo de regulamentar e controlar a atividade garimpeira, a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) acabou capturada por esquemas ilícitos de lavagem de ouro na Amazônia. Essa utilização indevida vai muito além de uma simples irregularidade administrativa. Trata-se de fraude e de conduta criminosa.

Como a lei não exige uma pesquisa mineral prévia, qualquer declaração de quantidade de ouro extraído na área pode ser aceita como real, já que não há dados geológicos para contestar – mesmo quando, na verdade, o ouro foi extraído ilegalmente de Terras Indígenas ou Unidades de Conservação.

Os achados da investigação

A investigação do Greenpeace Brasil analisou 187 processos minerários nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia entre 2018 e 2026. O que encontramos é alarmante:

  • Destes processos, 98 são PLGs que apresentaram irregularidades graves, concentrando 97% de todo o ouro declarado na amostra.
  • Estas PLGs foram responsáveis pela comercialização de 25,3 toneladas de ouro, o que equivale a aproximadamente R$ 18,4 bilhões em valores atuais de maio de 2026.
  • 94% destas PLGs foram classificadas como garimpos fantasmas ou operações em escala industrial.

A anatomia da fraude

O relatório detalha as duas táticas principais de fraude identificadas na investigação:

Garimpos fantasmas

São áreas que declaram toneladas de produção de ouro, mas imagens de satélite e sobrevoos mostram que a floresta está intacta, ou com pouca atividade garimpeira – o que é incompatível com o alto volume de extração de ouro declarado ali. É essa falsa declaração de origem que lava o ouro ilegal e coloca o metal no mercado legal.

Os casos de garimpos fantasmas são 29,6% das 98 PLGs com irregularidades e representam 48,5% das 25,3 toneladas de ouro declaradas nestas 98 PLGs.

Garimpos em escala industrial:

Os garimpos em escala industrial são arranjos em que múltiplos processos minerários independentes – principalmente PLGs – concedidos num mesmo recorte territorial são explorados de forma a sugerir uma única operação.

A manobra não apenas escapa do licenciamento ambiental mais rigoroso e das regras aplicadas à mineração industrial, mas também pode facilitar a lavagem de ouro extraído ilegalmente.

Os casos de garimpo em escala industrial são 66,3% das 98 PLGs com irregularidades e representam 49,2% das 25,3 toneladas de ouro declaradas nestas 98 PLGs.

A disputa contra o garimpo é uma escolha de futuros

De um lado, está a imposição de um modelo predatório: o lucro concentrado, territórios invadidos, rios contaminados por mercúrio e um rastro permanente de violência. 

Do outro, está a necessidade de uma nova economia para a Amazônia, capaz de conviver com a floresta, respeitar os direitos humanos e superar a pobreza.

Precisamos de um modelo que distribua riqueza, fortaleça as comunidades e garanta a dignidade humana. Tudo isso provando, na prática, que a floresta em pé é a verdadeira garantia de vida no planeta.

É hora de desmontar a fraude.

Assine a petição Amazônia Livre de Garimpo e some sua voz à pressão por transparência, fiscalização e proteção da Amazônia.

Na segunda-feira, dia 1º de junho, publicaremos o relatório completo da pesquisa – incluindo os casos mais emblemáticos da investigação e nossas recomendações para a ANM. Acompanhe nossos canais.

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