Do Encontro das Águas, em Manaus (AM), o Greenpeace envia mensagem de solidariedade e cobra do poder público medidas efetivas de combate à pandemia, com foco na proteção das pessoas

Ativistas utilizaram 18 toneladas de alimentos, máscaras, materiais de higiene e cilindros de oxigênio para formar a mensagem. Foto: Leo Otero/Greenpeace

Após o Brasil atingir a trágica marca de mais de 400 mil mortos pela Covid-19, o Encontro das Águas de Manaus (AM), um dos mais famosos símbolos da Amazônia brasileira, amanheceu com uma mensagem de solidariedade: a bordo de uma grande balsa, ativistas do Greenpeace Brasil utilizaram alimentos, máscaras, materiais de higiene e cilindros de oxigênio para formar a mensagem “400 mil vidas”, em respeito às vítimas e suas famílias.  

Para formar a mensagem “400 mil vidas”, de 14 metros de altura e 92 metros de comprimento, foram utilizadas 18 toneladas de mantimentos e produtos, que serão doados para comunidades e instituições que já vêm atendendo famílias em situação de vulnerabilidade na capital do Amazonas e seu entorno: CUFA Manaus, Parque das Tribos, Comunidade do Julião, Aldeia Beija-flor e Associação Omisma Watyamã.

Diante da mais grave crise de saúde já enfrentada na história recente do país, a ação realizada hoje também tem como objetivo cobrar do poder público sua responsabilidade no combate à pandemia, com foco prioritário na adoção de medidas eficazes de proteção para toda a sociedade brasileira, com destaque para políticas públicas focadas nas classes mais vulneráveis e na redução das desigualdades, que têm se acentuado nos últimos meses.

“Chegamos ao trágico número de 400 mil pessoas que perderam suas vidas por conta de um cenário que, em grande parte, poderia ter sido evitado. Vivemos hoje em um país onde falta respeito à população e onde milhões de brasileiras e brasileiros seguem abandonados à própria sorte – sem vacina, sem comida, sem emprego”, afirma Tica Minami, Diretora de Programas do Greenpeace Brasil. “Desde o início da pandemia, o governo federal vem agindo de forma irresponsável para lidar com a doença e proteger a população, provocando danos profundos a milhares de famílias e prejuízos econômicos para o país. Trata-se de um cenário que poderia ter sido evitado se a pandemia tivesse sido tratada com seriedade e respeito pela ciência”, complementa. 

A pandemia expôs e agravou as desigualdades sociais que assolam o Brasil: o desemprego disparou e já são 14,3 milhões de pessoas à procura de trabalho e cerca de 19 milhões de pessoas – 9% da população brasileira – sem comida na mesa nem auxílio de políticas sociais efetivas para garantir seus direitos básicos. Não bastasse a renda minguar, os preços dos alimentos, combustíveis, energia e outros itens essenciais só subiram nos últimos meses.

Além disso, o país hesita em dar uma resposta firme e eficiente contra a Covid-19. A campanha de vacinação no Brasil, que já chegou a imunizar mais de 18 milhões de crianças em um só dia em campanhas anteriores, hoje tropeça na falta de doses em decorrência da total falta de planejamento. Enquanto milhões de pessoas sofrem com incertezas, o presidente Jair Bolsonaro segue dando declarações levianas, minimizando a gravidade da doença, estimulando medidas ineficazes, gerando aglomerações e promovendo ataques constantes à democracia.

O que pedimos:

  • Medidas de proteção – que o poder público siga as recomendações dos especialistas e estabeleça medidas de isolamento social garantidas por meio de um lockdown neste momento crítico e desenvolva melhor capacidade de rastreamento e monitoramento dos casos, além de testagem para controle de disseminação do vírus, com a compra e distribuição de testes antigênicos pelo Estado;
  • Apoio econômico à população carente – que o Estado permita que as pessoas fiquem em casa, com a garantia de um auxílio emergencial, e apoie a manutenção dos pequenos negócios para preservar os postos de trabalho, especialmente entre os mais pobres, que também são mais vulneráveis à doença e às várias formas de violência que se acentuam neste momento;
  • Fortalecimento do SUS que o governo federal garanta os recursos financeiros e o abastecimento de insumos (como medicamentos, equipamentos e oxigênio) para os entes federativos. E assegure que o acesso às vacinas seja feito apenas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e não pelo setor privado, o que privilegiaria apenas aqueles que podem pagar e não protege os mais vulneráveis; 
  • Medidas que ofereçam riscos à sociedade e ao meio ambiente não sejam estabelecidas pelo poder público e nem colocadas em discussão na pandemia – Em relação à natureza e direitos sociais, o poder público, seja Executivo, Legislativo ou Judiciário, tem o dever de garantir que os interesses particulares que ameacem a proteção ambiental e os direitos não prevaleçam em meio ao combate à pandemia. Ou seja, devem priorizar as pautas que tratam do enfrentamento da pandemia, tanto sanitárias quanto sociais. Em um momento em que vidas são perdidas e pessoas estão passando fome e perdendo sua fonte de renda, é inaceitável que o poder público aproveite esta tragédia nacional para continuar “passando a boiada” na arena ambiental e de direitos – como os projetos de lei da grilagem, do licenciamento ambiental e de exploração em terras indígenas, além de cortes no orçamento em áreas sensíveis como educação e programas sociais.

Solidariedade

Enquanto o poder público falha em assumir sua responsabilidade e liderar uma resposta firme e adequada à crise da Covid-19, a sociedade civil organizada não tem poupado esforços em agir de maneira rápida e eficaz para minimizar os danos da pandemia. A crise sanitária, econômica e social que o país vive só pode ser enfrentada com união e solidariedade, e não com divisão e o medo. “A escolha jamais deveria ser entre comer ou ter saúde, entre se proteger ou trabalhar. Esse é um falso dilema, criado para transferir a responsabilidade, que é do poder público, para os indíviduos”, afirma Tica. Da mesma forma, não existe escolha ou dilema entre um meio ambiente equilibrado e uma população saudável e próspera, pois um é condição para o outro. 

Ao longo do último ano, o Greenpeace Brasil realizou o projeto Asas da Emergência, que levou alimentos e materiais de saúde para diversas comunidades na Amazônia. Por meio desta iniciativa foram doadas mais de 100 toneladas de insumos para cerca de 70 povos indígenas em cinco estados amazônicos – Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Acre. Também foi instalada uma usina de oxigênio na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, onde vivem 23 povos indígenas e 750 comunidades. A usina atenderá não só esse município, mas também Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro – os três juntos, totalizam quase 100 mil habitantes. 

Além disso, distribuímos em 2020 mais de 4.400 marmitas em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ) com o objetivo de auxiliar famílias carentes. Atualmente, estamos trabalhando com parceiros para levar cestas agroecológicas a quem mais precisa. Já foram distribuídas mais de três toneladas desses alimentos para comunidades em Fortaleza (CE), Maceió (AL), Recife (PE) e Manaus (AM).  

O governo federal precisa assumir sua responsabilidade e investir na construção e adoção de políticas públicas estruturantes e inclusivas. O Brasil e a sociedade brasileira precisam e merecem mais. Uma ação firme é mais urgente do que nunca, não se pode esperar. É uma decisão política e, como tal, uma questão de prioridade: a de garantir a vida de todas as pessoas e a proteção da nossa casa comum.

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