Não existe escolha ou dilema entre um meio ambiente equilibrado e uma população saudável e próspera, pois um é condição para a outra, por isso, nesta pandemia do coronavírus defendemos a proteção dos brasileiros e dos ecossistemas como prioridade nacional

Dos rincões da Amazônia à periferia das grandes cidades, nosso trabalho tem sido se aliar à rede de solidariedade para proteger os brasileiros nas situações mais vulneráveis desta pandemia e dos maus-tratos ao meio ambiente – Foto: Christian Braga / Greenpeace

Um ano após a pandemia da Covid-19 atingir o país, o Brasil atravessa o pior momento da mais grave crise de saúde já enfrentada na história recente. Batemos recordes no número de mortes diárias e de contaminações e chegamos ao colapso do sistema de saúde e à exaustão dos profissionais na linha de frente. Faltam insumos básicos como oxigênio e medicamentos para intubação de pacientes enquanto a campanha de vacinação no Brasil tropeça na falta de doses em decorrência da total falta de planejamento. 

A pandemia expôs – e agravou – as desigualdades sociais que assolam o Brasil: o desemprego disparou e já são 14,3 milhões de pessoas à procura de trabalho e cerca de 19 milhões de pessoas ou 9% da população brasileira sem ter comida na mesa nem auxílio de políticas sociais efetivas para garantir seus direitos básicos. Não bastasse a renda minguar, os preços dos alimentos, combustíveis, energia e outros itens essenciais só subiram nos últimos meses. A gravidade do caos social que se instalou no Brasil mostra o quanto os sistemas atuais, considerados “normais”, já não nos servem mais. Hoje, é a sociedade civil, por meio das ONGs, igrejas, voluntariado e setor privado, quem vem suprindo as necessidades mais emergenciais. O Greenpeace Brasil vem prestando ajuda com a distribuição de insumos médicos e alimentos para povos indígenas em áreas remotas da Amazônia e famílias mais vulneráveis nas periferias dos grandes centros. 

Desde o início da pandemia, o governo federal vem agindo com irresponsabilidade, minimizando a gravidade e pregando tratamento precoce com medicamentos ineficazes, promovendo campanhas anti-vacina e criticando o isolamento social. O presidente Bolsonaro criou, ainda, uma narrativa perversa de transferência de responsabilidade para os indivíduos, a partir do falso dilema entre saúde e economia. Diante dessa postura, o Brasil se tornou um péssimo exemplo de como uma política ou gestão negacionista tem a capacidade de atrapalhar a ciência e a tecnologia em momentos delicados, como o atual. O país já é visto como uma ameaça global em função da livre circulação do vírus e da vacinação lenta, condição propícia ao surgimento de novas variantes mais agressivas que podem desafiar a eficácia das vacinas existentes.

Neste momento tão grave, as crises sanitária, econômica e social que enfrentamos só podem ser resolvidas com união e solidariedade, mas o governo prega a divisão e o medo. O debate jamais deveria ser a escolha entre comer ou ter saúde; entre se proteger ou trabalhar. Essas escolhas são imorais e inaceitáveis para qualquer cidadão em qualquer país do mundo.

Da mesma forma, não existe escolha ou dilema entre um meio ambiente equilibrado e uma população saudável e próspera, pois um é condição para o outro. Por isso, defendemos como prioridade de governos, empresas e da sociedade a proteção dos brasileiros e da natureza e nos colocamos ao lado dos especialistas em saúde.

O QUE PEDIMOS:

  • Que o isolamento social seja garantido por meio de um lockdown para conter o agravamento da pandemia neste momento crítico, e esteja amparado por uma forte rede de proteção social, e não boicotado pelo discurso da austeridade fiscal; 
  • Que o Estado garanta um auxílio emergencial digno em parcela única e apoie os pequenos negócios para preservar os postos de trabalho, especialmente entre os mais pobres, também mais vulneráveis não apenas à doença, mas às várias formas de violência que se acentuam neste momento;
  • Que o amplo acesso às vacinas esteja garantido por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e não pela privatização que fura filas; 
  • Em relação à natureza, o poder público, seja Executivo, Legislativo ou Judiciário, tem o dever de garantir que os interesses particulares que ameacem a proteção ambiental não prevaleçam em meio ao combate à pandemia. Ou seja, que o momento atual não seja usado para “passar a boiada”.

Medidas como a abertura de terras indígenas para mineração ou o projeto de lei que premia o roubo de terras (grilagem) – que também são parte dos arroubos autoritários que ameaçam a nossa democracia tanto quanto o uso político da Lei de Segurança Nacional ou das Forças Armadas para intimidar  e silenciar opositores – acabam estimulando a economia do desmatamento e não podem ser aprovados sem o devido debate na sociedade, pois a destruição ambiental aprofunda as desigualdades, estimula violências e esgarça os limites ecológicos

A pandemia do coronavírus é a triste lição de como isso tem consequências graves para a humanidade, mas as mudanças climáticas não podem ser ignoradas ou minimizadas. Se um vírus derrubou a economia global, o que pode fazer um colapso ecológico sistêmico causado pelo aquecimento global?

O Greenpeace Brasil se coloca, mais uma vez, ao lado daqueles que lutam pela vida em todas as suas formas, e se solidariza com as milhares de famílias de brasileiros e brasileiras que perderam seus entes queridos para a Covid-19. A lição deste momento é que é de nosso interesse prevenir pandemias investindo na construção de políticas públicas estruturantes e inclusivas para proteger (toda) a humanidade. Assim como é de nosso interesse prevenir os colapsos ecológico e econômico decorrente das mudanças do clima, porque as consequências serão catastróficas e mais agudas para os mais vulneráveis – como sempre o é. Uma ação firme é mais urgente do que nunca; não se pode esperar. É uma decisão política e, como tal, uma questão de prioridade: a de garantir a vida de todas as pessoas e a proteção da nossa casa comum.

É PELA VIDA, NÃO É SÓ O VÍRUS