A convite do Greenpeace, jovens de periferia sobrevoaram a Amazônia para ver de perto a destruição da floresta que impacta diretamente suas vidas

Voluntário do Greenpeace Brasil, Rui Gemaque Jr, que acompanhou o sobrevoo segura o banner escrito ''o que acontece na Amazônia, não fica na Amazônia''
Voluntário do Greenpeace Brasil, Rui Gemaque Jr, que acompanhou o sobrevoo, segura o banner escrito ”o que acontece na Amazônia, não fica na Amazônia”. © Bruno Kelly / Greenpeace

Eles estão separados por milhares de quilômetros, mas têm muito mais em comum do que imaginam: são os que pagam a conta mais alta pela crise climática. Rui Gemaque Jr., um estudante de medicina veterinária, vive na periferia de Belém do Pará. A quase três mil quilômetros dali está Audino Vilão, um youtuber da periferia da região metropolitana de São Paulo. Ana Clis, que também mora em uma das zonas periféricas da maior cidade do país, é técnica em gestão financeira e ativista climática. 

A convite do Greenpeace, os três sobrevoaram no início de setembro uma das regiões com mais focos de queimadas da Amazônia para ver de perto a origem de grande parte dos problemas que afetam as populações mais vulnerabilizadas

O desmatamento da maior floresta tropical do mundo, que aumentou 52,9% sob o governo Bolsonaro, é a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa do Brasil, que intensificam o aquecimento global e está custando caro – muito caro –  para indígenas, ribeirinhos, pessoas negras, de baixa renda e que habitam regiões periféricas, em especial mães chefes de família. 

Nos últimos 20 anos, a conta de luz quadruplicou nas casas brasileiras. Atualmente, quase metade das famílias gasta metade ou mais do que ganham para pagar o consumo de energia e gás. Segundo pesquisa do Instituto em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), realizada em 2021, 22% dos brasileiros precisaram deixar de consumir algum alimento básico para pagar a conta de luz. E a Amazônia, ou melhor, a destruição dela, tem tudo a ver com isso. O bioma desempenha um papel fundamental na regulação das chuvas em todo o continente através da evapotranspiração, o que tende a agravar ainda mais os eventos de seca severa em um contexto de crise climática. Até 2021, a Amazônia já tinha perdido mais de 1/5 de sua cobertura natural. Quanto menos floresta, menos água.

Segundo o Mapbiomas, mais de 15% de toda sua superfície de lagos, rios e nascentes do Brasil foi perdida nas últimas três décadas. Um dos impactos diretos dos ataques à floresta e do descaso com o clima é o aumento das tarifas de energia. Como o país depende de hidrelétricas, a falta de água pressiona os reservatórios e, em vez do governo combater o desmatamento e investir em fontes renováveis como a solar e a eólica, ele segue incentivando a destruição e apostando nas termelétricas a gás e carvão, extremamente poluentes e bem mais caras que as renováveis.

“Para a gente que não vive próximo da Amazônia, tudo isso pode ficar meio vago, meio abstrato. A gente não imagina o tamanho dos incêndios. Mas pensa, são incêndios do tamanho do seu bairro, do tamanho da sua cidade. É isso que está acontecendo. As árvores parecem cadáveres”, relatou Audino Vilão depois do sobrevoo.

Audino Vilão também participou do sobrevoo e viu de perto a destruição da floresta.
Audino Vilão também participou do sobrevoo e viu de perto a destruição da floresta. © Bruno Kelly / Greenpeace

Somente na primeira semana de setembro deste ano, mais de 18 mil queimadas ilegais aconteceram na Amazônia, um aumento de 474% em relação a 2021, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para se ter uma ideia do tamanho da devastação, o número de queimadas registradas nos primeiros sete dias do mês superaram todo o setembro passado, quando o Inpe detectou 16.742 focos.  Para ver a situação de perto, os jovens de periferias partiram de Porto Velho (RO), cidade marcada pela expansão predatória do agronegócio, para sobrevoar a região da AMACRO, a tríplice divisa entre Acre, Amazonas e Rondônia, que vem sendo alvo de desmatamento, da invasão de terras públicas (incluindo terras indígenas e unidades de conservação), de garimpo, de queimadas e da extração de madeira. 

A equipe do Greenpeace chegou a sobrevoar a maior área desmatada da Amazônia entre agosto de 2021 e julho de 2022. De acordo com dados do Deter, só nela, já são cerca de 8 mil hectares de destruição, o que equivale a 11 mil campos de futebol padrão FIFA.

“Qualquer pessoa que visse o que a gente viu hoje sairia impactada. Apesar de a gente escutar sobre isso, é diferente ver a proporção do que acontece. É triste e desesperador”, disse Rui ao sair do avião.

Também abalada pelas cenas de destruição que presenciou, Ana Clis conseguiu entender a dimensão da crise que traz consequências para as pessoas que moram no seu bairro.

“Para mim foi muito importante vir de São Paulo para fazer essa conexão sobre o que acontece na floresta e que me impacta na cidade (…). Podemos conectar as queimadas, a derrubada de árvores com a crise hídrica de São Paulo, com o aumento do ar seco. Eu, particularmente, por conta das estiagens, da seca e do racionamento, percebo que essas queimadas, esse derrubamento de árvores estão também causando tudo isso em São Paulo”.

Ana Clis, voluntária do Greenpeace Brasil, vendo do avião os incêndios florestais.
Ana Clis, voluntária do Greenpeace Brasil, vendo do avião os incêndios florestais. © Bruno Kelly / Greenpeace

O desmatamento custa caro porque pesa no bolso de quem já sente tantas faltas: falta de acesso à moradia e alimentação seguras, de saneamento básico, saúde e uma série de outros direitos que deveriam ser garantidos pelo poder público para uma vida digna a todes. Não tem como falar em crise do clima sem falar de justiça social, de um sistema que lucra com a destruição da natureza e sem ouvir as populações que são mais impactadas. Tudo está conectado. Sem floresta, não tem água, não tem comida, não tem futuro. O que acontece na Amazônia não fica só na Amazônia.

As eleições de outubro podem começar a mudar este cenário de devastação. Estude as propostas dos candidatos e candidatas e conheça os projetos de cada um/a para o meio ambiente. Pensar na Amazônia na hora de votar é essencial para garantirmos o futuro de todas as formas de vida.

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