Para que a Amazônia, o maior patrimônio ambiental da população brasileira, esteja protegida, será preciso bem mais que a mudança de um ministro no Ministério do Meio Ambiente

Um dos assuntos mais comentados no noticiário político nos últimos dias é o entra e sai de ministros do governo Bolsonaro. Dos 22 ministérios, seis passaram por substituições. Quem se preocupa com a proteção do meio ambiente está agora se perguntando: e o Salles, quando cai?

“Apesar de urgente, a saída de Salles não basta para fechar as feridas que o próprio governo dolosamente abre. Sua saída não é suficiente, e mantê-lo é pior ainda”, afirma Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil.  

Salles deve sair ou ficar, então? Mariana explica: “Será preciso bem mais que a mudança de um ministro para mudar a realidade e a imagem brasileira”. O Brasil é hoje considerado um vilão da pandemia e do clima e, segundo ela, uma mudança radical precisa ser feita para salvar vidas, proteger o patrimônio ambiental brasileiro e acalmar as enormes críticas nacionais e internacionais geradas pela má condução do governo com as crises sanitária, econômica e climática. 

O problema é que, no governo Bolsonaro, é tudo farinha do mesmo Salles. Um exemplo disso é quando, no ano passado, Bolsonaro colocou o vice-presidente Mourão no comando das políticas ambientais para a Amazônia. O aumento do desmatamento e das queimadas mostrou que a militarização das ações contra o crime na região, além de cara, foi um fracasso. Ou seja, enquanto o projeto do capitão do navio for o mesmo, a direção rumo a medidas que ameaçam a vida, a floresta e seus povos não mudará. 

Ricardo Salles não é exatamente um ministro de Meio Ambiente. Está mais para “sinistro do meio ambiente”, porque trabalha contra a floresta, que deveria defender. Quem não se lembra que, quase um ano atrás, com a Covid-19 já tendo tirado milhares de vidas no país, Salles, em reunião interministerial, sugeriu usar o momento da pandemia para “passar a boiada” da destruição ambiental

Como Bolsonaro não conseguiu extinguir o Ministério do Meio Ambiente quando assumiu como presidente, conforme pretendia, colocou na pasta alguém que pudesse destruí-la por dentro. E Salles tem feito seu dever de casa: em quase dois anos e meio, tem trabalhado para:

  • desmontar órgãos ambientais e de pesquisa, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe);
  • demitir, intimidar e difamar servidores, que são substituídos por militares, policiais e ruralistas não tecnicamente qualificados para os cargos;
  • que práticas ilegais ligadas à mineração, agropecuária e extração de madeira deixem de ser penalizadas;
  • que a política antiambiental resultasse em desmatamento recorde: houve aumento de 9,5% no desmatamento da Amazônia em 2020, o maior índice desde 2008.

Para piorar, Salles tem agora aliados de peso no Congresso, a começar pelos presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira (PP/AL) e Rodrigo Pacheco (DEM/MG), que, atendendo aos interesses de ruralistas, facilitarão o avanço de propostas nocivas, como a legalização da grilagem e a mineração em terras indígenas. Além disso, com a deputada Carla Zambelli à frente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, a boiada poderá andar em ritmo acelerado, transformando em lei propostas que até então vinham sendo implementadas por canetadas do governo federal.

trecho da floresta amazônica destruída

Sem crédito na praça

Nesta semana, o antiministro Salles veio a público colocar suas condições para conter a destruição na Amazônia: disse que reduziria o desmatamento no bioma em 40% se o Brasil receber US$ 1 bilhão dos Estados Unidos. Quando um ministro de Meio Ambiente condiciona a proteção da floresta ao repasse de dinheiro de outros países, prova que abriu mão de seu papel de cuidar do maior patrimônio ambiental dos brasileiros.

O governo Bolsonaro está queimado lá fora e recuperar a confiança de países doadores e investidores não será fácil. Há quase R$ 3 bilhões do Fundo Amazônia que poderiam contribuir para a conservação da Amazônia, mas que estão congelados desde que Bolsonaro assumiu a presidência. Alemanha e Noruega, doadores do fundo, pararam de transferir recursos porque Salles, arbitrariamente, tirou a participação da sociedade civil nos conselhos.

“O governo federal precisa assumir seu dever e reverter sua política imediatamente. Não bastam discurso e maquiagem verde, é preciso apresentar resultados concretos e transparentes”, diz Mariana. 

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