Precisamos substituir a economia do desmatamento pela economia da biodiversidade, que valoriza a floresta em pé, o conhecimento das populações tradicionais e a produção de comida de verdade

A riqueza da floresta amazônica nos possibilita iniciativas que aliem geração de renda com a conservação ambiental. © Valdemir Cunha / Greenpeace

O Brasil que queremos prioriza a conservação e o uso racional de nossas florestas e toda a biodiversidade associada a elas, e uma agricultura diversa e sem veneno, ancorada nos agricultores familiares. Essas são duas bases importantes para a recuperação econômica verde e justa que o país e o mundo precisam.

Para substituirmos a economia do desmatamento pela economia da biodiversidade, as atividades econômicas devem valorizar não apenas os produtos que a floresta tem a oferecer, como também as populações indígenas, quilombolas e tradicionais, que possuem valiosos conhecimentos sobre o assunto, acumulados por séculos. 

Infelizmente, o Brasil que queremos não estava refletido nas falas do vice-presidente Mourão e da ministra da Agricultura Tereza Cristina no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta quarta-feira (27/01). Ambos desperdiçaram a chance de mostrar ao mundo o potencial que o país tem de liderar iniciativas que aliem geração de renda com a conservação ambiental e uma produção de alimentos de verdade, para todas as pessoas. 

O discurso de Mourão não refletiu o que de fato acontece no chão da floresta, e forçou a barra ao dizer que o governo tem trabalhado incessantemente no combate às queimadas e ao desmatamento. A destruição da maior floresta tropical do planeta não está sob controle. Dados do Prodes de 2020 mostram que ela tem batido recordes: o desmatamento na Amazônia é o maior desde 2008.

“Sem controlar os crimes na Amazônia, como o garimpo e a extração ilegal de madeira e a invasão de terras públicas, será impossível construir alternativas econômicas que respeitem a preservação ambiental”, afirma Thais Bannwart, porta-voz de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil. 

Para Thais, criar um modelo socioeconômico sustentável no país depende de um planejamento estratégico, que olhe com cuidado para tudo o que já vem sendo experimentado pelas comunidades que tiram seu sustento da floresta viva.

“Esse planejamento precisa ser elaborado com base em um processo de escuta e consulta de todos os atores envolvidos, tanto da sociedade civil quanto dos demais grupos de interesse. Só assim conseguiremos formular uma visão estratégica de desenvolvimento e fortalecimento da bioeconomia em curto, médio e longo prazos”, ela diz.

Mourão também afirmou que o setor privado é fundamental para o desenvolvimento da Amazônia. É importante lembrar que de nada adiantam investimentos privados se o governo federal não está fazendo seu dever de casa básico, que é controlar o desmatamento na região.

A floresta em pé vale mais, como mostra Alex dos Santos, extrativista de açaí da comunidade de Arraiol, Bailique, no Amapá. © Diego Baravelli / Greenpeace

O futuro da nossa comida é agroecológico

Já Tereza Cristina argumentou que a inovação na agropecuária é fundamental para assegurar segurança alimentar e preservação ambiental. O problema é que a inovação tecnológica e digital defendida pela ministra tem o intuito de perpetuar um modelo de produção que devasta o meio ambiente, potencializa a crise climática e gera concentração de renda e mais desigualdade social.

Diante de espectadores do mundo todo, Tereza Cristina perdeu a oportunidade de falar sobre questões bem mais importantes, que afetam o dia a dia de milhões de brasileiros. Por exemplo, de que precisamos urgentemente de políticas públicas que estimulem a transição da agricultura convencional para sistemas de produção de alimentos sem veneno, saudáveis e seguros para quem planta e para quem come, e que não arranquem ainda mais árvores da Amazônia e de outros biomas. A transição para sistemas mais sustentáveis é um movimento global, que no Brasil envolve milhares de agricultores, especialmente os de base familiar. 

A agroecologia está aí para mostrar que um outro caminho é possível. Ela é sinônimo de comida de verdade, de vida e de saúde. Por respeitar os processos da natureza e incentivar a biodiversidade, ela protege e pode restaurar os ambientes naturais. Por outro lado, você sabia que o chamado modelo alimentar convencional, voltado à produção industrial, é altamente nocivo à nossa saúde e ao meio ambiente? Ele se baseia em monoculturas (diversidade zero!) e prioriza o lucro acima de tudo. Nunca se produziu tanto, mas de forma tão destrutiva, seja pelo uso massivo de agrotóxicos que contaminam a água e o solo, como pelo desmatamento. 

Em 2020, o governo Bolsonaro bateu o próprio recorde de aprovação de agrotóxicos: foram aprovadas 493 substâncias, que, somadas àquelas aprovadas em 2019, chegam a quase 1.000 agrotóxicos liberados em apenas dois anos. No entanto, a própria Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que o uso de agrotóxicos não é necessário para garantirmos alimentos em escala global. Além do mais, pode justamente levar a um cenário de insegurança alimentar, porque, no longo prazo, o solo, a água e a rica biodiversidade que temos tendem a se esgotar, tornando a produção de alimentos cada vez mais difícil.

Fórum Econômico Mundial em 2020: ativistas do Greenpeace protestam pelo fim do financiamento de combustíveis fósseis e por medidas para conter a crise climática. © Greenpeace / Ex-Press / Flurin Bertschinger

Sobre o Fórum Econômico Mundial

O Fórum Econômico Mundial acontece todos os anos, em Davos, Suíça, reunindo as principais lideranças políticas e empresariais do mundo (em 2021, devido à pandemia da Covid-19, as sessões estão sendo feitas de forma on-line). As discussões giram em torno de questões urgentes que precisam de cooperação global, como saúde e meio ambiente. 

No entanto, o Fórum Econômico Mundial traz em sua essência um problema que o torna quase inapto a endereçar as crises da atualidade: muitos de seus participantes não questionam o sistema econômico atual, em que os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Segundo a Oxfam, só no Brasil, cinco bilionários têm o patrimônio igual aos 50% mais pobres. 

Diante de uma pandemia que já matou mais de dois milhões de pessoas ao redor do mundo e tirou emprego e direitos de outras tantas, pesquisas recentes apontam que a desigualdade social aumentou ainda mais.

Esse sistema injusto tem que ser substituído urgentemente. Precisamos de mudanças radicais e é isso que deve ser discutido em Davos.