O Maranhão é um pedaço curioso de Brasil que concentra um pouco de tudo que faz do nosso país esse paraíso de belezas naturais: Amazônia, praia e cerrado. E foi por este último que empacotei meus cadernos e minhas velhas botas de aventura no mês passado e segui rumo ao sul do estado – uma experiência que quero compartilhar com você.

Cachoeira da Prata, Parque Nacional da Chapada das Mesas, no Maranhão. © Marizilda Cruppe / Greenpeace

O cerrado ocupa quase 60% do Maranhão. Um bioma tão diverso quanto ameaçado. A região que visitei faz parte de um território de interesse econômico conhecida como MATOPIBA – que é a junção de territórios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Desde o início da última década, esse quadrilátero tornou-se o foco da expansão agropecuária, que já começa a deixar rastros e vítimas pelo caminho.

Conhecido como a Caixa D’água do Brasil, por seu enorme potencial de coletar e armazenar água, o Cerrado já tem seus primeiros refugiados pela água. Populações que começaram a migrar, porque os riachos que serviam suas comunidades simplesmente secaram.

Mas antes da chegada da soja, antes que começássemos, como País, a olhar para as vegetações nativas do Cerrado como um “espaço vazio” a ser ocupado, milhares de pessoas já viviam alí, existindo em meio à fartura do bioma, como as quebradeiras de coco de babaçu.

Floresta de palmeiras de babaçu em Coquelândia, Maranhão. © Marizilda Cruppe / Greenpeace

O Babaçú é uma palmeira grandiosa, de onde pendem cachos igualmente grandes com fileiras de cocos, cada um do tamanho de uma mão. Coletar e processar os cocos são atividades que envolvem toda a comunidade. Mas quebra-los é uma atividade tradicionalmente feminina.

A visão de dentro de um babaçual é realmente impressionante. Mas mais impressionante é acompanhar o trabalho de extração das castanhas. Depois de reunir os cocos, as mulheres sentam-se ao redor das pequenas montanhas, cada uma diante de um machado cravado no chão de terra, onde golpeiam os cocos com um pedaço de pau, até que de suas lascas soltem-se os gomos de castanha – de dois a cinco por coco.

A cinegrafista Fernanda Ligabue acompanha de perto o processo de quebra do coco, em Coquelândia. © Rosana Villar / Greenpeace

Do coco se faz a farinha do mesocarpo – que dizem ser ótima para problemas de estômago – artesanatos, carvão, leite e o óleo, que tem o gosto e o cheiro daquela terra. Entre risadas e um papo gostoso na varanda, sempre nos recebiam com algum ensopado feito com o leite ou o óleo do babaçu. Uma delícia que cada brasileiro deveria ter a chance de conhecer um dia.

Do coco também são retirados os gongos, umas larvas gordinhas e brancas de besouro que crescem dentro do fruto. Embora dessas eu não possa contar muito, já que não tive o apetite para experimentar – mesmo depois que as crianças me ensinaram a degustá-lo, enquanto faziam piada com minha falta de coragem.

O gongo, como é conhecida a larva do besouro Pachymerus nucleorum, cresce no interior do coco do babaçu, enquanto se alimenta da castanha. Com alta concentração de gordura, a larva é utilizada na culinária local e em tratamentos para a pele e cabelo. © Marizilda Cruppe / Greenpeace

O Cerrado e seus frutos fazem parte da vida de muitos brasileiros e essa biodiversidade, os serviços maravilhosos que este bioma nos presta, é essencial para todos, de norte a sul. Em contrapartida, é um dos mais ameaçados: Já desmatamos 51% do cerrado brasileiro. O avanço da destruição no bioma vem sendo, inclusive, mais rápido que o avanço sobre a Amazônia. Isso é muito preocupante e é preciso entender suas causas e as alternativas a tanta devastação.

Precisamos olhar com mais atenção para este bioma. E com o seu apoio, estamos fazendo isso.

Obrigada por nos ajudar a contar esta história.