O Greenpeace Holanda apresentou uma petição a um tribunal holandês para demandar à gigante do setor de carnes JBS a divulgação de informações para contestar suas políticas empresariais na Justiça. O pedido engloba seu plano de expansão global de US$ 6 bilhões, dos quais quase metade está destinado à Nigéria.

“O império da carne da JBS se expandiu de mãos dadas com a destruição da Amazônia, emissões colossais, escândalos de corrupção e de direitos humanos, tudo isso com quase nenhuma transparência. Este é o modelo de negócios que a empresa quer exportar para a África Subsaariana. A JBS promete segurança alimentar, mas sua expansão na Nigéria corre o risco de causar danos ambientais irreversíveis e o deslocamento de pequenos agricultores, tudo para encher os bolsos de elites.” afirma Elizabeth Atieno, líder da campanha no Greenpeace África.

Ativistas do Greenpeace Holanda interromperam a primeira assembleia de acionistas da JBS no país. No Hotel Sheraton, no Aeroporto de Schiphol, onde a reunião acontecia, os ativistas penduraram uma faixa com os dizeres: “JBS: Mantenham seus negócios sangrentos longe da África”. © Tengbeh Kamara / Greenpeace
Ativistas do Greenpeace Holanda interromperam a primeira assembleia de acionistas da JBS no país. No Hotel Sheraton, no Aeroporto de Schiphol, onde a reunião acontecia, os ativistas penduraram uma faixa com os dizeres: “JBS: Mantenham seus negócios sangrentos longe da África”. © Tengbeh Kamara / Greenpeace

Diante do histórico de recusas da JBS em publicar informações precisas e confiáveis sobre seus impactos climáticos, ambientais e de direitos humanos, bem como sobre seus planos de expansão, o Greenpeace Holanda considera que o acesso a esses dados é passo necessário antes de dar entrada formal ao litígio, pois essas informações irão embasar sua ação judicial. O processo tem potencial para se tornar a primeira ação judicial climática dessa magnitude contra a indústria pecuária. Isso pode abrir um importante precedente para futuras contestações legais contra o setor agroindustrial, uma das grandes fontes de emissões globais, sobretudo de metano, um gás de efeito estufa potente, responsável por aproximadamente 0,5 °C do aquecimento global desde a Revolução Industrial.

No centro da disputa está o investimento planejado pela JBS de US$ 2,5 bilhões na pecuária industrial na Nigéria. Organizações da sociedade civil nigeriana alertam que essa expansão pode ameaçar a segurança alimentar local, aumentar a instabilidade regional e acelerar a degradação ecológica. Não há evidências disponíveis que a JBS tenha realizado estudos de impacto ambiental ou consultas às comunidades na Nigéria, e esforços locais para obter mais informações por meios legais teriam sido ignorados.

A escalada para os tribunais ocorre após a recusa da JBS em atender a uma notificação formal de divulgação de informações enviada pelo Greenpeace Holanda em abril. A organização ambientalista está recorrendo a uma nova legislação holandesa, que garante às partes com interesse legítimo o direito de exigir acesso a dados corporativos específicos, necessários para embasar litígios contra empresas sediadas no país. A JBS se reestruturou como uma entidade holandesa (JBS N.V.) no ano passado para facilitar a dupla listagem de suas ações na Bolsa de Valores de Nova York.

Os advogados do Greenpeace Holanda alegam que as práticas históricas de negócios da JBS, assim como seus planos de expansão futuros, são incompatíveis com as obrigações climáticas e de biodiversidade da empresa, e representam uma violação do seu dever de cuidado (duty of care) previsto na legislação holandesa, que exige que as empresas atuem em conformidade com o direito internacional dos direitos humanos.

Caso o tribunal decida a favor do Greenpeace Holanda, a organização terá o direito de obter as informações solicitadas por meio de documentos e depoimentos sob juramento de altos executivos da JBS, levantando a possibilidade de os irmãos Batista serem convocados a testemunhar na Justiça holandesa.

Em abril, a JBS precisou interromper temporariamente sua primeira assembleia geral ordinária desde que mudou sua sede para Amsterdã, após o evento ser interrompido por ativistas do Greenpeace Holanda.

Há algumas semanas, a JBS abandonou dois compromissos centrais: atingir o nível zero de emissões líquidas (Net Zero) até 2040 e eliminar o desmatamento de sua cadeia de suprimentos. A empresa também removeu qualquer referência explícita a terras indígenas de todas as suas políticas atuais. O Greenpeace Holanda vê nisso um sinal preocupante de que a JBS busca se expandir sem se ater aos impactos ambientais, climáticos e de direitos humanos de seu negócio.

Protestos pacíficos do Greenpeace Brasil em abril de 2025, em frente ao então prédio-sede da empresa em São Paulo. © Greenpeace

No Brasil, o histórico de irregularidades da multinacional já havia sido detalhado pelo Greenpeace em 2025 com o lançamento do dossiê ‘’JBS: Cozinhando o Planeta. A publicação reuniu o histórico de irregularidades socioambientais noticiado sobre a JBS sobre como a busca pela expansão pecuária atropela leis, florestas e comunidades, alertando que os lucros bilionários da empresa são obtidos às custas do impacto ambiental e climático. Na ocasião, investigações da organização revelaram que a cadeia produtiva da JBS permanecia contaminada pelo fornecimento de gado oriundo de áreas embargadas e território indígena.

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