Reunidas em Brasília entre os dias 9 e 14 de agosto, milhares de mulheres indígenas  protestam pela garantia de seus direitos previstos na Constituição Federal

Nos quatro cantos do Brasil, as mulheres indígenas enfrentam uma realidade bastante perversa. Com o propósito de conseguirem dar visibilidade aos desafios que vivem diariamente nas suas terras e fortalecerem suas lutas, mais de 1.500 mulheres se organizaram nas cinco regiões do país e foram a Brasília exigir que os seus direitos à vida, ao território e ao seu modo de vida tradicional sejam respeitados.

Já são mais de 100 povos presentes na capital federal, representados no 1º Fórum e na 1ª Marcha das Mulheres Indígenas. Tamanha diversidade se expressa nos diversos rituais, danças, cantos e pinturas que se iniciam logo ao amanhecer e se revezam o dia todo. Os maracás – chocalhos indígenas -, só descansaram bem tarde na primeira noite do acampamento.

Apesar do frio, característico do Cerrado nesta época do ano, a união de tantas guerreiras manteve o fogo da esperança aceso: “não desistiremos nunca de nossas florestas e de nossos territórios, eles representam a Mãe Terra, que é nossa própria vida”, afirmou Cunllung Teíe no cair da tarde para toda a plenária. Membro do povo Xokleng, de Santa Catarina, ela integra uma geração de antigas lideranças mulheres que décadas atrás já vinha a Brasília reivindicar respeito aos direitos dos povos originários deste país.

Professora e jovem, Glicélia Tupinambá, da Terra Indígena Serra do Padeiro, no sul da Bahia concorda com a anciã. “O que a gente enfrenta em nossos territórios é um desrespeito inaceitável aos povos originários deste país. Nós, mulheres indígenas, viemos aqui pra Brasília pra dizer que seguiremos na linha de frente, enfrentando tudo o que for necessário pra garantir a proteção das nossas matas, dos nossos filhos e o futuro dos nossos povos”, declarou ela.

Em sintonia, Alessandra Munduruku, declarou, enfática: “É muito importante o que está acontecendo aqui. Estamos ligadas como uma árvore grande, com cada galho da árvore ligado, umas nas outras”.

Café na esteira

Em vários depoimentos, as mulheres indígenas denunciaram a desnutrição de suas crianças. Compartilharam que, em acampamentos de lona, montados na estreita faixa de terra entre a rodovia e as cercas de latifúndios, alguns povos vivenciam o frio e a fome diariamente. Seus territórios tradicionais, mesmo os homologados, têm sido invadidos por madeireiros, garimpeiros e outros criminosos. Inúmeras situações de preconceito e abusos de autoridade ocorrem, com frequência, nas cidades, escolas, universidades e nos hospitais. Disseram ainda que meninas indígenas se prostituem nas BRs para comprar comida para suas famílias.

Além destas violações de direitos, elas denunciaram que o próprio governo agrava bastante a situação, ao promover um enorme retrocesso em relação à saúde e educação diferenciadas. O testemunho sobre o aumento das violências praticadas especialmente pela disputa territorial, como as invasões, o loteamento, os roubos de bens naturais e as criminalizações de lideranças foi recorrente durante as rodas de conversa realizadas no início da tarde.

Pela saúde, ocuparam a Sesai

Logo após o café da manhã desta segunda-feira, dia 12, as mulheres indígenas deixaram suas barracas e se organizaram em filas com suas faixas e cartazes. O destino era o prédio da Secretaria Especial de Saúde Indígena, a Sesai.

Leia aqui a íntegra do manifesto publicado hoje pelas mulheres indígenas.

Novamente, cantando e tocando seus maracás, elas ouviam do carro de som algumas lideranças afirmarem que saúde com qualidade não é um privilégio, mas sim um direito inscrito na Constituição Federal. Direito este que está muito distante de suas realidades nos territórios e nos postos de atendimento, onde o abandono é o cenário mais comum. Após ocuparem de forma pacífica várias áreas do prédio da Sesai, em uma só voz, elas exigiram o fim do desmonte da saúde indígena e a saída imediata da atual secretária Especial de Saúde Indígena, Sílvia Nobre Wajãpi.

Devido ao seu descaso com os povos e a própria saúde indígena, a secretária foi bastante rechaçada pelas lideranças. “Sílvia não representa as mulheres indígenas”, afirmou Célia Xakriabá. Outra liderança que não se identificou no microfone disse que o espírito dos Wajãpi não habita mais o corpo da secretária, que teria sido tomado pelo capitalismo. Sílvia não recebeu as lideranças para conversar.

Diante deste descaso, as mulheres indígenas mantiveram a ocupação da Sesai no início da tarde, que deve se prolongar até a noite. Dos seus modos, elas explicitam que não abrem mão de seus direitos básicos.

“Uma das coisas que me chama atenção aqui é este rompante de mulheres que surgem das aldeias, dos territórios. Primeiro, reconhecemos nossas realidades, tão comuns. Em seguida, a gente percebe o tamanho da força que temos. Estamos fortalecendo nossos corpos e nossos espíritos. Nossa força será muito maior na luta por nossos territórios. É como uma gigante onda. Ninguém pode nos segurar. Somos as mães da resistência secular dos povos indígenas!”, resumiu Eunice Kerexu, do povo Guarani, moradora da Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Santa Catarina.

Apoie a luta dos povos indígenas. Assine a petição:

CLIQUE E ASSINE