Mães da periferia de São Paulo nos contam como garantem uma alimentação saudável para suas crianças

mães falam sobre alimentação saudável

Roda de conversa com as mães na Agência Solano Trindade © Lena Silva/ Greenpeace

Conciliar a rotina de trabalho e vida pessoal com o cuidado com os filhos é uma das grandes dificuldades da incrível aventura de ser mãe. Entre esses cuidados, está o de oferecer uma alimentação saudável às crianças. Fomos até Campo Limpo, periferia de São Paulo, para trocar experiências sobre esses desafios e ouvir as histórias das mães da região.  

Na segunda edição do Café Descolonial com Prosa, uma parceria do Greenpeace com a Agência Popular Solano Trindade, convidamos mães ativistas com diferentes profissões para protagonizar a roda de conversa.

A falta de uma rede de apoio no dia a dia dificulta o retorno à vida “normal” após o nascimento dos filhos, deixando as mulheres da periferia, frequentemente, excluídas da vida social e do mercado de trabalho. Em meio a tantas barreiras, ainda há os desafios relacionados à comida, como o de iniciar a alimentação do bebê, o de transformar o próprio hábito alimentar para servir de exemplo e o de oferecer opções saudáveis às crianças. Muitas vezes não há tempo, energia ou mesmo acesso à comida de verdade, como alimentos frescos, menos processados e sem veneno. O que fazer, então?

Para Raysa Oliveira, mãe de Gael, de 8 meses, o segredo para garantir uma boa nutrição é entender que a alimentação saudável é possível, desde que esteja dentro da realidade do cotidiano. “É preciso aceitar tanto as limitações de mães e pais quanto os desejos da criança”, diz ela, que tenta alimentar Gael de forma rápida e saudável, com muitas frutas e legumes. Empreendedora social, Raysa decidiu trabalhar de forma autônoma após o nascimento de Gael porque queria se dedicar ao filho.

Respeitar as preferências alimentares das crianças e, ao mesmo tempo, assegurar que consumam todos os nutrientes para um bom desenvolvimento não é moleza. A fotógrafa Carol Pedrosa conta que experimenta uma negociação constante com o filho Dante, de 10 anos. “Ofereço várias opções: brócolis, cenoura, abobrinha… Eu dou autonomia para ele escolher, mas ele tem que escolher alguma coisa”.

Democratizar o hábito de comer bem

Fernanda alimenta sua filha Maria Flor

Fernanda Mourão, mãe de Maria Flor © Lena Silva/ Greenpeace

Na periferia, os entraves para conseguir comida saudável e sem veneno são grandes e produtos orgânicos não chegam facilmente. “O que vem aqui para a periferia não tem qualidade”, reclama Fernanda Mourão, mãe de Maria Flor, de 10 meses, maquiadora e uma das colaboradoras do Armazém Organicamente, da Agência Solano Trindade, que está justamente tentando virar esse jogo. O armazém, idealizado por Thiago Vinicius, é o primeiro ponto fixo de comercialização de frutas, legumes e verduras orgânicas na periferia de São Paulo e tem o objetivo de democratizar o ato de comer bem – os preços são acessíveis. O local segue firme com a ideia de combater os desertos alimentares (regiões da cidade onde é preciso andar mais de 400 metros para encontrar alimentos in natura, não processados).

No bate-papo, diversas mães citaram que o nascimento dos filhos apareceu como uma oportunidade para que repensassem seus próprios hábitos alimentares. Evelyn Moreira, mãe solo de Bento, de 3 meses, percebeu que ter regrado sua forma de comer fez toda a diferença para sua produção de leite. “Se eu tivesse abusado em minha alimentação, eu não estaria tão bem e convicta, e meu filho não seria tão sadio”.

Adriana Charoux, da campanha de Amazônia do Greenpeace e mãe de Tom, de 1 ano e 9 meses, sabe que tem o desafio de ser um exemplo para seu filho e usa isso como inspiração. Ela tentou criar hábitos mais saudáveis depois que ele nasceu. “Eu quero ser a minha melhor versão para o meu filho”, diz.  

venda de orgânicos

Alimentação sem veneno: esforço que vale a pena © Lena Silva/ Greenpeace

Apesar de todas as dificuldades, a transição para uma alimentação saudável e sem veneno é vista pelas mães como um esforço que vale a pena, para elas mesmas, para as crianças e para o planeta. Comer comida de verdade, com mais alimentos in natura, menos carne e menos industrializados é mais revolucionário do que parece: além de ser melhor para a saúde dessa e das gerações futuras, contribui para uma mudança gradual do modelo de produção de alimentos e para a preservação do meio ambiente.

#CaféDescolonial