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A desigualdade de gênero – assim como a emergência climática  – não é inevitável, mas ela se mantém pelas más escolhas que muitos homens cis fazem diariamente. E não são apenas as mulheres que são magoadas e presas por esse problema patriarcal, mas também meninas e pessoas não binárias, assim como muitos meninos e homens.

Mulheres durante a Greve pelo Clima, em São Paulo. Foto: Barbara Veiga/Greenpeace

Por milênios, a desigualdade de gênero tem funcionado muito bem para a maioria dos homens. Globalmente, os homens detêm 85% dos cargos de liderança sênior nas empresas, por exemplo, enquanto os 22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres da África. Nada disso é por acaso e muitos homens relutam em mudar um sistema que acham que os beneficiam.

Enquanto isso, as mulheres permanecem na linha de frente da desigualdade de gênero e da emergência climática. E, devido ao patriarcado, surpreendentemente, elas raramente são ouvidas sobre questões que as impactam profundamente, e que, como resultado, afetam toda a sociedade.

Um grande número de homens acredita na igualdade de gênero e isso precisa ser reconhecido. Mas é fácil para os homens simplesmente ‘acreditarem’ em algo pelo qual colherão recompensas sociais posteriormente. Aceitar que a desigualdade de gênero exista – tanto quanto a emergência climática – e tomar medidas positivas são cruciais para podermos alcançar um planeta mais equitativo, pacífico e verde.

Porque o fato é que a equidade pelo mundo levaria a mais satisfação com a vida, melhor segurança, ganho econômico e soluções mais sustentáveis para as mudanças climáticas.

Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace International, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça © World Economic Forum /Manuel Lopez

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, apelo aos homens para serem mais do que feministas; façam mais do que apenas celebrar as mulheres.

Para começar, precisamos que os homens sejam antipatriarcais e antimisóginos e estejam ativamente em campanha contra a negação do aquecimento global, para o benefício de todos. Somente então começaríamos a nos aproximar do tema Igualdade da #IWD2020 (Dia Internacional da Mulher 2020).

O que estou pedindo pode parecer demais, mas pequenas mudanças de atitude individuais podem levar a enormes mudanças progressivas nas normas sociais obsoletas que estão afetando muitas pessoas em nosso prejuízo coletivo.

“Somos todos partes de um todo. Nossas ações, conversas, comportamentos e mentalidades individuais podem ter um impacto em nossa sociedade em geral ”, dizem os organizadores da IWD.

Os homens podem começar a promover a igualdade de gênero de maneira proativa nos espaços que dominam de muitas maneiras diretas: ouvindo as mulheres e não falando por cima delas; creditá-las por suas ideias; rejeitar configurações somente masculinas; garantir que as mulheres sejam incluídas nos painéis e equipes esportivas; recusando-se a brincar com estereótipos e chamando a atenção de outros que estão sendo antimulheres, antidiversidade e anticiência.

Em minha posição privilegiada como mulher branca ocidental, liderando uma organização ambiental global e diversificada, luto para usar minha liderança para capacitar, proteger e incluir pessoas de todas as origens.

Muitas vezes me estranha que tenho mais acesso aos corredores do poder do que aquelas com a experiência de viver na linha de frente da emergência climática. Aquelas que lidam com as devastadoras secas, inundações e incêndios ligados à mudança climática, que são predominantemente mulheres negras, indígenas, de cor, do sul global.

São pessoas verdadeiramente poderosas, das quais tenho muita inspiração, e, no entanto, suas vozes permanecem muitas vezes desconhecidas pelos tomadores de decisão, formuladores de políticas públicas, pela mídia e outros, devido ao patriarcado. Amplificar as vozes dessas mulheres e aumentar seu acesso a oportunidades e plataformas é essencial na minha missão e a missão do Greenpeace.

Pois não pode haver paz verde sem igualdade de gênero. No Greenpeace, aspiramos nos tornar líderes na construção e no apoio a uma força de trabalho que reflita com mais precisão a diversidade da comunidade global que atendemos, bem como os valores que a organização defende, e temos iniciativas em prevenção de assédio, preconceitos inconscientes e poder estrutural.

Adotamos uma posição de tolerância zero em relação a assédio sexual, verbal ou físico, bullying e qualquer tipo de discriminação com base em gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência, fé ou qualquer outro aspecto de nossos seres.

Continuaremos a examinar como a marginalização sistemática e as questões de equidade se cruzam com nossa missão e valores centrais como Greenpeace. Fazemos esse trabalho prontamente porque o poder das pessoas está ligado a praticamente tudo o que o Greenpeace faz, desde o impacto que podemos causar no mundo até nossa capacidade de prosperar como parte de um movimento.

Devemos sempre agir de uma maneira que veja, valorize e abrace as pessoas em toda a sua diversidade. Aumentar a voz daqueles que o patriarcado ativamente tenta silenciar levará a uma maior equidade e melhores soluções climáticas.

Mulheres notáveis ​​já estão liderando a mudança: das indígenas Autumn Peltier e Brianna Fruean, as matriarcas do território Wet´uwet que lutam contra o gasoduto Coastal Gas Link, no Canadá, até Vanessa Nakata e Winona LaDuke, entre muitas outras.

Mas o patriarcado é feito por homens, bem como as mudanças climáticas. Está na hora de os homens cis combaterem a desigualdade de gênero e a emergência climática ao lado das mulheres, a quem eles realmente devem aceitar como iguais.