Cientistas documentaram mais de 600 novas espécies de plantas e animais na Amazônia — e a maioria já está em risco. Entenda o que podemos perder com a destruição da floresta


Ações humanas estão levando espécies à extinção a um ritmo alarmante. Estudos mostram que o desaparecimento da biodiversidade global vem ocorrendo mil vezes mais rápido do que se acontecesse naturalmente e, atualmente, cerca de 1 milhão de espécies correm o risco de desaparecer para sempre, caso ações ambiciosas para conter os vetores de perda de biodiversidade não sejam colocadas em prática.

Em apenas quatro anos, foram descobertas 600 novas espécies de animais na Amazônia, mesmo com toda a dificuldade de se empreender pesquisa no Brasil e com a redução crescente dos investimentos na ciência e na proteção do meio ambiente. Só o Museu Emílio Goeldi foi responsável pela descoberta de 301 destas espécies, além de 60 novos tipos de plantas. Imagine quantas outras espécies teríamos catalogadas se essa área fosse priorizada pelo governo?

Infelizmente, muitas destas espécies são identificadas apenas quando seu habitat e sua existência já estão em grave risco, devido ao desmatamento para a ampliação da fronteira agropecuária, garimpos ou obras de infraestrutura. Estamos perdendo riquezas que sequer conhecemos.

De agosto de 2018 a julho de 2019, a Amazônia perdeu quase 10 mil km² de floresta – a maior taxa de desmatamento da década. Junte a isso a catastrófica política ambiental do Brasil e temos uma bomba com enorme potencial de gerar danos irreversíveis.

A conservação da Amazônia é fundamental para minimizar a crise climática e ainda mais importante para as espécies e pessoas que vivem ali. A ciência vem alertando sobre a possibilidade, cada vez mais real, de chegarmos a um ponto de ruptura, em que a floresta não conseguirá mais se recuperar e perderemos muitas espécies e incontáveis benefícios que a floresta oferece à toda a sociedade, como a distribuição de água pela atmosfera, que irriga as plantações de boa parte do país, e a estocagem de carbono.


* O mapa traz apenas as espécies recém-documentadas com informações geoespaciais



“A floresta é um grande livro aberto, mas as pessoas não querem ler”, disse Valter Calheiros, educador ambiental em Manaus (AM). Precisamos ler o livro da floresta e aprender com os povos que sabem como viver e evoluir com ela. É necessário conhecê-la, em todo o seu potencial, para que possamos preservá-la.

Por isso, o Greenpeace lança em 2020 um edital de apoio ao estudo da biodiversidade da Amazônia, o Programa “Tatiana de Carvalho”, pois acreditamos na ciência e na pesquisa brasileira. Proteger a floresta e toda a sua diversidade é o desafio do século e temos que vencer.

Precisamos retomar o debate público sobre a defesa da Amazônia contra os riscos de expandir a fronteira agrícola indefinida e irrestritamente, para que ela possa continuar sendo a casa da mais rica e fantástica biodiversidade do planeta e nosso passaporte para o futuro.



A queima de combustíveis fósseis é a principal causa da emergência climática que ameaça a biodiversidade do planeta e toda a humanidade. Além disso, derramamentos de petróleo podem ter enormes consequências, como visto no caso das manchas de petróleo no nordeste do Brasil, que começaram em agosto de 2019 e seguem afetando não só o meio ambiente, como comunidades de pescadores e extrativistas que tiveram sua fonte de renda e de alimentação prejudicada. Os impactos desse petróleo em mangues são um exemplo do que poderia acontecer no caso de um derramamento na floresta.
As estradas abrem caminho para o desmatamento e grilagem de terra. Uma das áreas que mais sofre com o desmatamento atualmente é a região do entorno da BR 163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), no caminho de habitats de espécies ameaçadas. O asfaltamento da BR 319, que liga Manaus (AM) à Porto-Velho (RO), é outro exemplo de desastre potencial, ainda sem licenciamento ambiental. O projeto deve reproduzir problemas observados na BR 163, incluindo degradação, desmatamento e grilagem, em uma área que hoje abriga vastas porções de floresta nativa e biodiversidade.
A exploração mineral na Amazônia impulsiona a abertura de estradas, construção de infraestrutura energética e desmatamento. A atividade se espalha também para dentro de áreas protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação, que são grandes pontos de refúgio para a vida selvagem. Além disso, representa grande risco para a qualidade da água e solo no entorno, já que submete o ambiente ao risco de vazamentos de componentes tóxicos.
As queimadas têm dois efeitos para os animais e plantas da Amazônia: o imediato é a morte pela ação direta do fogo. Já em longo prazo, a alteração drástica sobre os ecossistemas e perda de habitat muda a relação das espécies com o ambiente e pode causar até a extinção. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2019 o número de focos de fogo na Amazônia cresceu 30% em relação ao período anterior.
A construção de barragens afeta profundamente o ambiente, os povos e os animais que vivem em seu entorno. O represamento de rios isola espécies, interrompendo o fluxo gênico, contamina a água e leva animais à extinção. A construção de uma barragem depende de análise para identificar e mitigar danos socioambientais. O cumprimento destas medidas de mitigação, entretanto, é pouco efetivo, sem contar as tentativas do legislativo de enfraquecer o licenciamento ambiental no Brasil.
O desmatamento para a expansão da pecuária é um dos principais motores da destruição da Amazônia. Em alguns casos, a criação de gado é uma das ferramentas usadas no processo de grilagem e regularização de terras ocupadas ilegalmente. Desmatadores utilizam o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que é autodeclaratório, para se autoproclamar donos de terras “produtivas” na Amazônia. O mapa mostra a distribuição de áreas com CAR no bioma. Compare com o mapa do desmatamento.


O avanço do desmatamento causa danos irreversíveis à toda a biodiversidade da floresta e para o equilíbrio climático do planeta. A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e lar de uma imensa biodiversidade ainda pouco conhecida pelo homem. Mas ela continua a ser destruída para dar lugar à atividades como pecuária e monoculturas. No último período, houve um aumento de 30% do desmatamento no Bioma. Mas antes mesmo da destruição total da floresta, o processo de degradação, que é geralmente o estágio inicial do desmatamento, com atividades como a retirada ilegal de madeira, também coloca em risco a sobrevivência de espécies.

Titi
(Plecturocebus Miltoni)


Descrita pela ciência em 2014, a espécie só existe no interflúvio dos rios Roosevelt e Aripuanã, nos estados do Mato Grosso e Amazonas. De janeiro a setembro de 2019, foram registrados 204 focos de calor, num raio de até 30 quilômetros de onde vive a espécie. Em todo o ano passado, a região perdeu 3.130 hectares de floresta. Por ser um primata que vive exclusivamente nas copas das árvores, a perda de cobertura florestal é fatal para esta espécie. As principais ameaças são as queimadas e a degradação florestal, que é a primeira etapa para o desmatamento total.
Arara-azul
(Anodorhynchus hyacinthinus)


A Arara-azul já é uma “velha” conhecida da ciência e ocorre naturalmente em três biomas: Amazônia, Cerrado e Caatinga. Mas o desmatamento para a expansão agropecuária, a degradação pela extração ilegal de madeira e o avanço das cidades reduziram drasticamente seu habitat. Hoje ela ocorre apenas em pequenas áreas dos biomas e a espécie é classificada como Vulnerável pela IUCN (International Union for Conservation of Nature’s). Na Amazônia, ainda ocorrem avistamentos na região central do Pará, que é também o epicentro do desmatamento no bioma. Em 2019 a área desmatada na região em que vive a espécie chegou a 203.460 ha.
Bromélia Xinguana
(Aechmea Xinguana)


A espécie de bromélia, identificada em 2016, ocorre nas margens do Rio Xingu, a cerca de 56m de altitude, em Vitória do Xingu, que é um dos municípios incluídos na área impactada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte, situada na região da Volta Grande do Xingu. Em 2019, foram registrados 52 focos de calor no raio de até 30 quilômetros de onde a espécie ocorre e o desmatamento foi de 2.193 hectares.