Conheça o novo relatório do Greenpeace Brasil sobre Adaptação Climática baseada em Comunidades. Dados, casos reais e caminhos para a justiça climática.

Na Vila Arraes, no bairro da Várzea, em Recife (PE), a comunidade conhece bem os riscos que as chuvas trazem para o território. Mas conhece também os caminhos para enfrentá-los. 

Em 2022, durante fortes chuvas que atingiram Pernambuco, os moradores se mobilizaram para criar o Plano Comunitário de Contingência, Adaptação e Mitigação dos Efeitos das Chuvas. Elaborado pela Associação GRIS Espaço Solidário, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio do projeto de extensão TIG-Periferias, e com a participação de organizações e moradores do território, o plano reúne ações de monitoramento de riscos, educação climática, saúde, logística e gestão de crise para preparar e proteger as famílias antes, durante e depois das chuvas. A iniciativa mostra como a participação e o protagonismo das comunidades são fundamentais para construir respostas à crise climática e promover justiça climática.

Joice Paixão, researcher, social educator and president of the GRIS Espaço Solidário Association, led the development of the Community Plan for Contingency, Adaptation and Mitigation of the Effects of Rainfall in Vila Arraes, Brazil, together with local residents and partners.

A história da Vila Arraes é uma das experiências reunidas no relatório As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades, lançado pelo Greenpeace Brasil.

O estudo mostra que, em diferentes regiões do país, comunidades negras, indígenas, quilombolas, periféricas e tradicionais já desenvolvem respostas concretas aos impactos da crise climática, mesmo quando o acesso a recursos e políticas públicas continua limitado.

O documento nasce de um cruzamento entre revisão de literatura, análise de políticas públicas, pesquisa e entrevistas com iniciativas de adaptação em funcionamento em diferentes territórios do país. 

O Brasil não tem um problema de solução climática. Tem um problema de escuta.

Por que “adaptação” não é a mesma coisa para todo mundo

O relatório também organiza o conceito de adaptação climática traduzindo-o como o conjunto de ações para reduzir os efeitos das mudanças do clima sobre pessoas e ecossistemas. No entanto, ela só é efetiva quando quem vive o problema é parte da construção da solução.

Por isso o documento defende a Adaptação Baseada na Comunidade (AbC), uma abordagem em que os territórios deixam de ser destinatários de política pronta e passam a liderar a construção da resposta, a partir de seus próprios saberes e redes de solidariedade.

Um dos alertas mais importantes do relatório é sobre a má adaptação: quando uma medida pensada para reduzir risco acaba, na prática, aumentando a vulnerabilidade, geralmente porque ignora fatores sociais, culturais ou institucionais do território. Remoções forçadas sem plano de realocação são o exemplo mais recorrente no Brasil.

Adaptação Baseada na ComunidadeMá adaptação
✔️ Parte dos saberes, vínculos e redes de solidariedade já existentes no território.❌ Ignora fatores culturais, sociais e institucionais da comunidade.
✔️ Coloca a comunidade como protagonista da solução, não como receptora passiva.❌ Trata o território como problema a ser removido, não como parte da resposta.
✔️ Reduz vulnerabilidade de forma preventiva e duradoura.❌ Reduz um risco enquanto cria ou aprofunda outro.
✔️ Fortalece redes de cuidado e lideranças locais.❌ Reforça padrões históricos de exclusão e deslocamento forçado.

Como usar o material: quatro portas de entrada

Para facilitar o acesso a quem quiser se aprofundar, a publicação foi organizada em quatro materiais complementares:

As soluções dos territórios – Adaptação Climática Baseada em Comunidades: a base de tudo. Reúne revisão de literatura, dados sistematizados, análise de políticas públicas e embasamento técnico por trás das recomendação. Para pesquisadores, gestores públicos e organizações.
As Soluções dos Territórios – Estudos de caso: o retrato do que já acontece nos territórios. Aprofunda as experiências comunitárias mapeadas pela pesquisa, detalhando cada uma e mostrando o que pode ser replicado em contextos parecidos.
Sumário Executivo: a porta de entrada mais rápida. Em poucas páginas, resume o cenário de vulnerabilidade, o conceito de adaptação baseada em comunidades, os principais gargalos e as recomendações divididas por esfera de governo.
Guia para Comunidades – Adaptação Climática para quem vive os impactos nos territórios: material pensado para quem vive o problema no dia a dia. Traduz os conceitos técnicos em linguagem acessível, ajudando lideranças e moradores a entender seus direitos e a cobrar respostas do poder público.

Soluções baseadas na comunidade

As práticas territoriais mapeadas no relatório demonstram que a inovação e a eficácia climática já acontecem em diversos territórios Brasil afora. São vários os exemplos trazidos. Conheça alguns deles:

Amapá: um sistema de tratamento de esgoto sanitário com biodigestão foi instalado em uma comunidade quilombola na área rural de Macapá. A implementação do sistema soluciona a problemática de saneamento e reduz a ocorrência de doenças relacionadas à má qualidade da água, provocada pelo esgoto não tratado. Uma solução acessível que poderia ser aplicada em larga escala. 

Pernambuco: Como inundações e deslizamentos de terra estão ocorrendo com mais frequência devido ao aumento de eventos de precipitação extrema, um plano de contingência, adaptação e mitigação dos efeitos das chuvas na Vila Arraes, em Recife, estruturou brigadas comunitárias com atuação em logística, saúde (mental e preventiva), comunicação e gestão de crises. 

Rio de Janeiro: O Projeto Horto Natureza visa a limpeza e manutenção do Rio dos Macacos, além da garantia de direitos, entre eles, o de permanência no território. A limpeza do rio, combinada com a coleta do lixo, reduz a probabilidade de enchentes durante períodos de chuva prolongada e de doenças, além de favorecer a conservação da biodiversidade. O projeto garantiu a permanência dos moradores, uma comunidade bicentenária.

Onde estamos hoje?

O lançamento do Plano Clima (2024-2035) representou um salto qualitativo ao consolidar a adaptação e a justiça climática como eixos transversais de desenvolvimento nacional. A partir deste marco, as diretrizes para construção e desenvolvimento de uma governança em diferentes níveis ganhou impulso com iniciativas como o AdaptaCidades (no âmbito do Programa Cidades Verdes Resilientes). Esse programa passou a oferecer suporte técnico e capacitação estratégica para que estados e municípios elaborem planos locais de adaptação voltados aos territórios vulnerabilizados.

No nível municipal, o principal avanço deste programa consiste em realizar ou atualizar o mapeamento de riscos existentes nos territórios e identificar quais medidas de adaptação climática precisam ser priorizadas de acordo com cada especificidade. 

Além disso, permite criar integração com instrumentos tradicionais de ordenamento urbano, prioritariamente o Plano Diretor. Ao integrar a gestão de risco e as soluções baseadas na comunidade à legislação urbanística local, o Plano Diretor é o instrumento urbanístico mais efetivo para que as medidas de adaptação possam ser implementadas na cidade, considerando a resiliência climática nas regras de uso e ocupação do solo, habitação e mobilidade, transformando metas nacionais em ações concretas para proteger territórios periféricos e historicamente vulnerabilizados.

O que vem depois do lançamento

O relatório termina com uma pergunta política: quem vai estar no centro das decisões sobre adaptação climática no Brasil? Seguir tratando territórios negros, indígenas, quilombolas e periféricos como receptores passivos de política pública é repetir a mesma lógica que criou a vulnerabilidade deles. O caminho já existe, já foi testado e já demonstrou resultado em vários territórios brasileiros, falta financiar, construir junto e escutar em escala.

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