Entenda como as mudanças climáticas impactam o orçamento e por que preparar as cidades custa menos do que reconstruir

Se fechar as contas no fim do mês virou um malabarismo diário, você não está sozinho nessa. A crise climática encarece as compras, dispara a conta de luz e ameaça a nossa rotina.
Ir ao supermercado e se assustar com o preço do tomate, do café ou do feijão, ver a conta de energia subir com a bandeira vermelha ou perder horas no trânsito por causa de um temporal inesperado. Se você vive em uma cidade brasileira, esses problemas já fazem parte do seu dia a dia.
As enchentes, ondas de calor e secas que acontecem com maior frequência e intensidade impactam a produção e o transporte de alimentos, a água disponível para abastecer as cidades, a saúde e a geração de energia.

Um imposto (quase) invisível
Quando uma seca severa esvazia o reservatório das hidrelétricas, são acionadas as termelétricas, mais caras e também mais poluentes. Ao mesmo tempo, o excesso de chuva ou calor extremo impactam a produção no campo, principalmente de hortaliças, grãos e frutas. Com menos produtos disponíveis no mercado, os preços disparam.
Além disso, a infraestrutura urbana e as rotas de transporte sofrem diretamente com esses extremos, encarecendo toda a cadeia logística. Estradas bloqueadas por deslizamentos ou ferrovias interrompidas por inundações atrasam as entregas e elevam o custo do frete e dos combustíveis, um valor que as distribuidoras repassam para o preço final das mercadorias que chegam até você.
No fim das contas, cada evento climático extremo funciona como um imposto invisível, cobrando uma taxa extra sobre tudo o que consumimos.

O impacto real: do supermercado ao mercado de trabalho
Uma pesquisa realizada em Porto Alegre pelos Cartórios de Protesto do Rio Grande do Sul, após a tragédia de 2024, revelou o impacto econômico das enchentes na vida da população:
- A dor também foi no bolso: Segundo a pesquisa, o preço dos alimentos foi o fator que mais pesou no orçamento de 56% dos porto-alegrenses. Além disso, 44% dos entrevistados deixaram de pagar alguma conta no 1º semestre de 2024. Desses, um terço afirmou que os alagamentos motivaram a inadimplência.
- Energia e transporte: Dos maiores vilões da alta do preço, os combustíveis (20%) ficaram em segundo lugar, e a alta na conta de luz (12%), em terceiro.
- Insegurança com o futuro: Além dos gastos imediatos, o maior temor de 43% dos entrevistados passou a ser a perda de emprego e de renda.
Ninguém quer estar constantemente no “modo sobrevivência”, equilibrando contas e torcendo para o tempo não virar. Toda pessoa tem o direito de viver com dignidade, segurança e tranquilidade, com condições para construir e planejar o seu futuro.

É melhor prevenir do que remediar
Apesar do ditado popular, a gestão pública no Brasil tem feito exatamente o contrário quando o assunto é clima.
Nos últimos dez anos, o Brasil gastou mais de R$ 11 bilhões remediando estragos e gerenciando crises após desastres climáticos. Enquanto isso, apenas R$ 4 bilhões foram investidos em prevenção e adaptação urbana no mesmo período. (Fonte: TCU , via CNN Brasil, maio de 2024)
Gastamos quase três vezes mais apagando incêndios do que investindo em evitá-los. O problema não é a falta de dados científicos ou de avisos, mas a escolha política de pagar uma conta astronômica depois, em vez de blindar nossas cidades antes que o pior aconteça.

A transformação que já começou
A boa notícia é que muitas soluções já existem. Em bairros, comunidades e territórios historicamente marginalizados, as pessoas não estão esperando a mudança acontecer. Coletivos, redes de solidariedade e lideranças locais já criam soluções práticas e de baixo custo que geram resiliência e economia.
Conheça algumas iniciativas e histórias inspiradoras de quem está transformando outros bairros e territórios:
- Projeto Horto Natureza (RJ): Como resposta coletiva às ameaças de enchentes e às pressões históricas de remoção, a comunidade passou a promover a proteção, limpeza e manutenção do Rio dos Macacos, mantém uma horta comunitária, atividades de educação ambiental, compostagem de resíduos orgânicos e a partir da organização coletiva e articulação garantiu o direito à permanência e acesso a outros direitos, como coleta de lixo.
- Coletivo Utopia Negra e Escola quilombola (AP): Um coletivo e uma escola quilombola implementaram um projeto que comprova como é possível solucionar o problema de saneamento básico no estado com uma tecnologia simples e acessível.
Esses projetos provam que a tecnologia e o conhecimento para adaptar nossas cidades já existem. O que falta é vontade política para transformar essas ações locais em políticas públicas de grande escala.

O futuro da sua cidade custa menos se começarmos agora
Transformar essa realidade exige um esforço coletivo. Precisamos juntar nossas vozes e cobrar que quem está no poder construa soluções junto com a população e destine recursos para políticas públicas que protejam nossa saúde, reduzam o custo de vida e valorizem o lugar onde moramos e trabalhamos. Afinal, preparar as cidades agora custa muito menos do que reconstruí-las depois.
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