Desmatamento na Terra Indígena Karipuna (RO). © Christian Braga
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Relatório do Cimi revela que a grilagem, o garimpo e o roubo de madeira, dentre outras violências, se intensificaram de modo rápido e agressivo em 2019, de norte a sul

A comunidade Huni Kuī do Centro Huwá Karu Yuxibu, em Rio Branco, no Acre, teve 100 de seus 200 hectares queimados em 2019 © Denisa Sterbova / Cimi

De acordo com o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2019, publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o atual retrato do Brasil indígena revela uma realidade perversa e preocupante.

Além da intensificação das expropriações de terras indígenas, forjadas na invasão, na grilagem e no loteamento, que causa uma inestimável destruição da natureza, houve um aumento também de outros tipos de violências contra os indígenas, como ameaças de morte, mortalidade na infância, homicídio e desassistência na saúde e na educação.

Um dos organizadores da publicação, Roberto Liebgott, afirmou, de modo emocionado, durante o evento de lançamento virtual do relatório: “Neste trabalho, nós não sistematizamos e organizamos apenas dados, números. Não é isso! Estamos falando de vidas, pessoas e coletividades, com histórias, a quem um Estado negligente e, por vezes, conivente, causa muita dor, angústia, sofrimento e morte. Quando sistematizamos os dados, sentimos, junto com os Karipuna de Rondônia, a dor ao ouvir, de suas aldeias, o ronco incessante das motosserras, metáforas de destruição de uma natureza sagrada para os povos que nela habitam.  São as vidas ameaçadas de morte pelos grileiros e loteadores de terras que estão nos registros deste relatório. Sentimos também, com os Guajajara, a dor de ver assassinado Paulinho Paulino, um dos Guardiões da Floresta, no Maranhão”.

José Maria Guajajara e Lenice Guajarara, pai e irmã de Paulo Paulino Guajajara, estavam presentes no evento virtual. O assassinato de Paulino, em novembro de 2019, causado por invasores a partir de uma emboscada dentro da Terra Indígena (TI) Arariboia teve grande repercussão nacional e internacional.

“É muito triste o que estão fazendo, tomar o que é nosso. E não podemos deixar. É da terra que a gente tira nossos alimentos para nós e nossos filhos. Mas a invasão está cada vez maior, de madeireiro, fazendeiro, caçador. Queremos ser protegidos, porque somos ameaçados por eles. Eu não consigo dormir à noite. Mas assim como Paulo lutou, a gente continua a luta dele”, relatou Lenice.

Segundo Adriano Karipuna, da TI Karipuna, localizada em Rondônia, apesar de homologado desde 1998, o território continua sendo invadido por diversos invasores. “Estamos perdendo nossa Mãe, a floresta. Os grileiros estão acabando com ela. Muito perto da aldeia, a gente ouve a movimentação deles, a derrubada das árvores. Também teve muitos focos de incêndio nestes meses e muitos pescadores estão invadindo aqui também”, declara ele.

Em abril de 2020, a Associação do Povo Indígena Karipuna (Apoika), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Greenpeace Brasil denunciaram mais uma vez que o povo Karipuna corre o risco de um iminente genocídio se o Estado brasileiro não agir rapidamente.

O Relatório do Cimi aponta que, em 2019, houve o aumento de casos em 16 das 19 categorias de violência sistematizadas pela publicação. Chama especial atenção a intensificação de registros na categoria “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio” que, de 109 casos registrados em 2018, saltou para 256 casos em 2019.

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