Entre barcos e ônibus, MC denuncia racismo ambiental e crise climática nas periferias e mostra como o Hip Hop amazônico ocupa esse front

Diferente de muitos outros passageiros, Jonatha Francisco, 26 anos, sobe no barco com a caixinha de som na mão. Como artista rimador ambulante, ele percorre ônibus e embarcações da região metropolitana de Belém (PA) rimando para garantir parte do sustento.
É nesse mesmo movimento de quem transita entre periferias e rios que Jon da Rima, nome artístico de Jonatha, construiu uma visão de mundo onde Hip Hop e justiça climática são passos de um só caminho.
Carioca de nascença, ele se mudou para Ananindeua em 2017 e nunca mais desapareceu da cena. Hoje integra a Conexão das Batalhas de Rimas de Ananintuba, organiza o Duelo de Mc’s Revolução Cabana e milita no Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, um movimento social que atua nacionalmente pela reforma urbana e pelo direito à moradia digna.
Foi com essa bagagem que ele inscreveu sua rima na batalha virtual Corre na Rima, parceria entre o Greenpeace Brasil, pelo projeto Corre de Quebrada, e a Batalha da Matrix, e que você pode ouvir a seguir:
A rima que Jon fez para o concurso condensa em menos de um minuto sua bagagem de uma construção de anos nas ruas. “Justiça climática é justiça ambiental e justiça social, visando a derrubada do capitalismo e a luta contra o marco temporal”, diz em um trecho.
Da referência ao geógrafo Milton Santos à memória dos que “partiram, porém lutaram”, cada verso carrega uma escolha política deliberada.
“Justiça social é fazer ocupação, como os povos indígenas ocuparam a Cargill. Enquanto isso, Belém debaixo d’água, Pernambuco debaixo d’água, Minas Gerais debaixo da terra, e eu falo daqui do Pará”, complementa. Nesse trecho da rima, Jon cita também tragédias e crimes que escancaram a disputa sobre o modelo de desenvolvimento imposto não só à Amazônia e quem decide seu destino, mas que se repete na realidade de comunidades periféricas de outras regiões do país.
Hip Hop como escola
Antes disso tudo, havia um adolescente que vivenciava as consequências de um modelo de sociedade e de escola que desconsidera as muitas formas de viver e pensar.
O encontro com o Hip Hop mudou sua forma de encarar esse caminho:
Minha relação com o Hip Hop é algo extremamente íntimo, pois foi através dele que comecei a ter autodeterminação, ganhei autoestima, fui compreendendo o mundo em sua complexidade e aonde eu estava encaixado dentro da sociedade. Mudou radicalmente a forma de eu me ver e enxergar as coisas ao meu redor, me ajudou a combater bullying contra mim e contra pessoas que eram próximas
Suas notas na escola oscilavam entre quatro e sete, e tinha reprovado duas vezes antes de descobrir o Rap.
O Hip Hop me ajudou a entender que eu não era burro, mas sim que a forma como eu estava inserido na escola, a forma como eu tentava aprender não era compatível com a minha vivência.
A partir daí, passou a gabaritar as provas.
Aos 16 anos, já frequentava rodas culturais de Hip Hop no Rio. Em 2021, de volta ao Pará, fundou a Batalha de Cristo no próprio bairro, em Ananindeua, que revelou nomes como Mc Láindia, Mc Afrotonni e Mc Félix.
Vi que no meu bairro precisava ter uma roda cultural de Hip Hop para ser uma alternativa para a juventude da nossa área
Foi o Rap também que o levou a Malcolm X, Che Guevara e ao Partido dos Panteras Negras, e dali ao socialismo.
Quando me apresento como hip hopper, trago comigo todos esses nomes que viveram e se dedicaram por uma sociedade onde as riquezas fossem para todos.
A Amazônia como território de rima
No Norte, Jon entende que fazer Rap implica necessariamente falar de terra, de rios e de povos.
Quem produz Hip Hop nessa região tem que falar sobre a questão da luta pela terra, a questão da natureza, a crise climática, falar sobre a soberania dos povos originários, quilombolas e ribeirinhos.
Para ele, esses povos carregam uma cultura de “harmonia com a natureza, consumir de forma necessária e não para gerar lucro”, cultura que entra diretamente em choque com a lógica extrativista.
Ele cita em nossa conversa uma luta atual em que está envolvido pelo Pedral do Lourenço, formação rochosa no rio Tocantins que grupos empresariais querem remover para viabilizar a hidrovia Araguaia-Tocantins, favorecendo o agronegócio e a mineração. “Vai afetar pescadores e populações ribeirinhas, que usam do rio para se alimentar e se sustentar”, alerta.
O contexto é o mesmo que alimenta outro front de denúncia: uma investigação recente do próprio Greenpeace Brasil apontou que esquemas de lavagem de ouro na Amazônia, usando permissões de garimpo como fachada, são responsáveis pela comercialização ilegal de toneladas do metal extraído de terras indígenas e unidades de conservação. Para Jon, é a mesma lógica:
O agronegócio, a mineração, exploração das florestas e dos rios é um retrocesso, coloca em risco toda a humanidade.
Em sua rima feita para o Corre na Rima, Jon canta sobre a “população negra, indígena e periférica” forçada a morar em “área de risco”, e não é figura de linguagem. Durante as obras de saneamento para a COP30 em Belém, os resíduos foram direcionados para a Vila da Barca, bairro periférico. O projeto que deveria tratar o esgoto da Avenida Visconde de Souza Franco, cartão-postal da cidade, transferiu o problema para o mesmo bairro.

Nesta entrevista, MCs de Balém e voluntários do Greenpeace na capital paraense também trouxeram em seus depoimentos a preocupação com a desconexão entre o que a COP mostraria para quem era de fora e a realidade de quem vive ali todos os dias: Da quebrada à COP30: jovens de Belém falam sobre cultura, resistência e futuro da Amazônia
“Todo esse dinheiro não mudou em nada a vida do pobre aqui. Pelo contrário, piorou em vários aspectos”, afirma Jon. Depois das chuvas que deixaram bairros de Belém debaixo d’água este ano, ele e coletivos como a Conexão das Batalhas de Ananintuba e a Kabanagem Produções levaram para as redes e para as rodas de rua a pergunta que a grande mídia não fez: onde foi parar o mais de um bilhão investido em drenagem e saneamento para a COP30?
O Norte não é margem
Jon também aponta o que chama de “lógica do centro-periferia dentro do capital”:
Assim como o Brasil é periferia do mundo, o Norte é periferia dentro do Brasil. Invisibilizam as pessoas daqui para que a narrativa delas não seja contada, para não expor a contradição do capitalismo
O Hip Hop regional, para ele, tem a missão de combater essa invisibilização, e foi exatamente isso que a cena paraense fez durante as ocupações indígenas da Cargill em 2026 e da Seduc em 2025, em que 20 povos diferentes ocuparam a Secretaria exigindo a revogação da Lei 10.820/2024. A lei alterava a carreira do magistério e abria caminho para substituir o ensino presencial por EAD em áreas remotas, como comunidades quilombolas e terras indígenas. Na ocasião, artistas estiveram na linha de frente desmentindo a versão que muitos canais de TV propagaram, colocando os povos indígenas como os errados da história.
O Hip Hop vai se unir com qualquer cultura que é oprimida no mundo, se adaptar pra caminhar junto a essa cultura para combater aqueles que estão oprimindo
A rima que Jon enviou para o Corre na Rima cumpre o que o Rap do Norte propõe: nomear o que a mídia encobre, honrar quem luta e fazer do verso um ato político.
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