A ampliação da saúde indígena e das ações integradas de combate ao garimpo, mudou o cenário de destruição e emergência humanitária no maior território indígena do país.

Marcha dos Povos Indígenas no Acampamento Terra Livre (ATL) 2025. Crédito:
© Lucas Landau / Greenpeace

Em 20 de janeiro de 2023, o Governo Federal decretou estado de emergência em saúde pública na Terra Indígena Yanomami, reconhecendo oficialmente uma das maiores crises humanitárias da história recente do Brasil. Três anos depois, os dados indicam avanços importantes na área da saúde e proteção do território. Ainda assim, alertas feitos pelos povos que vivem na região mostram que o garimpo segue sendo uma ameaça, encontrando novas formas de resistir às ações do Estado.

Segundo o Ministério da Saúde, desde o decreto de emergência houve uma queda de 27,6% nas mortes, aumento do número de profissionais de atendimento à saúde, além da abertura de um hospital indígena. Em janeiro de 2023, indígenas Yanomami foram encontrados em situação extrema de desnutrição, com surtos de malária e centenas de mortes que poderiam ter sido evitadas. Hoje, três anos depois, o cenário sanitário apresenta melhorias concretas, resultado da presença mais constante do Estado no território.

Em 2024, a resposta governamental foi reforçada com a criação da Casa de Governo, estrutura vinculada à Casa Civil e instalada em Boa Vista (RR), responsável por centralizar e integrar a atuação de mais de 20 órgãos federais. Entre março de 2024 e janeiro de 2026, foram realizadas mais de 9 mil operações de segurança, que resultaram em R$ 644 milhões em prejuízos ao garimpo, segundo dados oficiais.

Outro fator decisivo para os avanços registrados nos últimos três anos foi a atuação conjunta entre o poder público e as organizações indígenas que vivem e conhecem o território. Associações Yanomami e Ye’kwana tiveram papel fundamental ao denunciar invasões, orientar operações de fiscalização e garantir que as ações do Estado respeitassem as dinâmicas culturais e sociais das comunidades. Essa cooperação fortaleceu o processo de desintrusão, tornando as operações mais eficazes e legítimas, além de reafirmar que a proteção dos territórios indígenas só é possível com a participação ativa de seus povos, protagonistas na defesa de suas vidas, florestas e modos de existência.

Esses números demonstram que quando há coordenação, inteligência, presença contínua e fiscalização permanente, o garimpo recua. Ao mesmo tempo, mostram que a repressão sozinha, não resolve o problema. É indispensável uma atuação conjunta entre diferentes órgãos fiscalizadores, capaz de atingir as cadeias financeiras, logísticas e políticas que sustentam o ouro ilegal, garantindo que sejam efetivamente investigadas e coibidas. Diante da valorização crescente do ouro no mercado internacional, o garimpo tende a se reinventar, explorando brechas logísticas, rotas clandestinas e novas tecnologias para seguir destruindo territórios protegidos e ameaçando povos indígenas.

Para Grégor Daflon, porta-voz da Frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, os avanços recentes mostram que é possível proteger os territórios se os compromissos de longo prazo forem firmados e cumpridos. “A presença do Estado salvou vidas e reduziu o garimpo no território Yanomami, mas essa proteção precisa ser permanente e englobar ações de órgãos, empresas e da sociedade em geral, além do trabalho de escuta ativa com as lideranças Yanomami. Enquanto o ouro, que é ilegal, continuar saindo das terras protegidas e entrando na economia global sem um devido controle, os povos indígenas seguirão sob ameaça”, destaca.

Avanços reais, ameaça persistente

O monitoramento mais recente do Greenpeace Brasil, realizado no primeiro semestre de 2025, aponta que a Terra Indígena Yanomami apresentou o melhor resultado entre os territórios monitorados, com apenas 8,16 hectares de novas áreas abertas para exploração ilegal de ouro no período. Esse dado reflete o impacto positivo das ações de desintrusão permanente.

O monitoramento mostrou que o garimpo foi forçado a recuar em todas as Terras Indígenas que passaram por operações coordenadas pelo Ministério dos Povos Indígenas. Na comparação com o primeiro semestre de 2024, por exemplo, houve uma redução de 95,18% na TI Yanomami e 41,53% na TI Munduruku. Na TI Kayapó, apesar de um aumento de 1,93%, não houve abertura de novas áreas de garimpo após o início da desintrusão em maio, e em junho de 2025, a abertura de novas áreas nos três territórios chegou a zero.

Os dados foram apresentados em agosto de 2025, durante reunião da Aliança em Defesa dos Territórios, no escritório do Greenpeace Brasil em Manaus, com a presença de lideranças Yanomami, Munduruku e Kayapó. 

Na ocasião, Julio Ye’kwana Yanomami destacou os impactos positivos das operações e também apontou mudanças estruturais necessárias para conter o garimpo. “Depois da desintrusão, vimos a água limpando, as crianças voltando para a aldeia e mais segurança. A desintrusão é muito boa, mas não adianta só tirar o garimpo, é preciso criar alternativas econômicas para cidades vizinhas ao território e para os jovens”, afirmou.

Mobilização necessária

O Greenpeace Brasil mantém um trabalho independente e contínuo de monitoramento do garimpo em terras protegidas da Amazônia, utilizando imagens de satélite e sobrevoos para identificar novas áreas de exploração e subsidiar ações de fiscalização. 

O monitoramento territorial realizado pela organização abrange as maiores Terras Indígenas da Amazônia e/ou aquelas terras mais ameaçadas pela atividade. Entre elas está a Terra Indígena Yanomami, o maior território indígena do país, com quase 10 milhões de hectares localizados entre os estados do Amazonas e Roraima, onde vivem mais de 33 mil indígenas.

Estrada e Maquinário Ilegais na TI Yanomami na Amazônia. Crédito: ©Valentina Ricardo/ Greenpeace

Desde 2023, o Greenpeace vem denunciando a alarmante infraestrutura utilizada pelo garimpo, como a presença de 176 escavadeiras hidráulicas nas terras Kayapó, Munduruku e Yanomami e a construção de uma estrada ilegal de 150 km, usada como rota logística de garimpeiros 

O relatório “Ouro Tóxico”, divulgado em abril de 2025, mostrou que, apesar de uma redução de 7% na devastação em áreas Yanomami em 2024, o garimpo segue sendo uma ameaça constante, pois no centro desse ecossistema de destruição está a cobiça pelo ouro, um metal precioso que atravessa as fronteiras brasileiras e entra na economia global sem uma regulação eficaz e devida diligência por parte dos países envolvidos.

O garimpo não pode continuar destruindo vidas, rios, florestas e culturas. A luta pela sobrevivência do povo Yanomami é também a luta pela Amazônia, pelo clima e pelo futuro de todos nós. Se você também quer uma Amazônia Livre de Garimpo, assine a petição do Greenpeace Brasil, que já reúne mais de 170 mil assinaturas, compartilhe com amigos e familiares e junte-se a essa mobilização em defesa das florestas e dos povos indígenas.

Sem a ajuda de pessoas como você, nosso trabalho não seria possível. O Greenpeace Brasil é uma organização independente - não aceitamos recursos de empresas, governos ou partidos políticos. Por favor, faça uma doação mensal hoje mesmo e nos ajude a ampliar nosso trabalho de pesquisa, monitoramento e denúncia de crimes ambientais. Clique abaixo e faça a diferença!