Projeto do Greenpeace de freezers solares no Amapá aponta para um modelo de desenvolvimento virtuoso para a Amazônia e contra o avanço do petróleo

A instalação das placas solares vai permitir a produção de gelo, essencial para dar mais autonomia à produção de açaí e peixe das comunidades © Diego Baravelli / Greenpeace

O que gelo, energia solar e açaí têm em comum? Se estivermos nas comunidades ribeirinhas do Bailique, Amapá, tudo. Quatro vilas da região agora produzem gelo com freezers que funcionam à base de painéis fotovoltaicos. Boa parte desse gelo vai ser usado para refrigerar polpas de açaí e peixe – os dois produtos que são a base da economia local.

O Bailique é um arquipélago remoto formado por oito ilhas na foz do rio Amazonas. Para chegar lá, onde vivem 46 comunidades em meio à floresta Amazônica, leva-se de 12 a 14 horas de barco de Macapá. A harmonia com a floresta é uma das principais características e talvez a mais marcante dessas pessoas.

A outra característica não é tão boa. São comunidades ameaçadas pelo avanço da pecuária, pela ameaça da exploração de petróleo e que seguem à margem do sistema elétrico do país. A energia que chega ali é inconstante e os deixa por dias, ou semanas, no escuro e na mão. Muitas comunidade sequer têm acesso à rede elétrica, e por isso a geladeira é um item pouco comum nas casas.

A saída é recorrer a geradores a diesel, que só funcionam quatro horas por dia, devido ao alto custo. A prefeitura arca com uma parte do combustível, mas a manutenção é por conta dos moradores – e chega a custar até R$ 3 mil a cada conserto.

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Em um lugar onde o sol é constante, a energia solar resolve um problema e muda a vida de todos. A instalação de freezers e painéis fotovoltaicos em quatro comunidades do Bailique foi parte de um projeto do Greenpeace Brasil, em parceria com o Instituto IDEAAS, a Associação da Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB) e a Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

O projeto contou também com a instalação de um sistema de captação de água da chuva em uma das comunidades, e três dias de cursos de capacitação em instalação, manutenção e gestão da nova tecnologia. Agora, cada comunidade vai cuidar dos sistemas, mantê-los e até replicá-los, através da criação de um fundo comunitário que será abastecido com a venda do gelo.

O gelo dentro da comunidade muda bastante nossa vida, porque a gente precisa dele. Antes, a gente tinha que ir buscar em outra comunidade, gastar tempo e o dinheiro com a gasolina do barco. Esse tempo já era suficiente pra perder as comidas que estragavam em casa”, diz Suzana Barbosa Sarges, moradora da vila do Arraiol, a primeira a receber os sistemas e onde aconteceram os cursos de capacitação. Como a energia é inconstante, era comum que a viagem até uma comunidade onde deveria ter gelo fosse em vão porque os freezers já estavam desligados há horas ou dias.

O Bailique também é conhecido pela sua organização comunitária. Como estão a 160 quilômetros e mais de 12 horas de barco de Macapá (município do qual fazem parte), a falta de serviços públicos os obriga a buscar formas colaborativas para tarefas que vão desde comprar os mantimentos do mercadinho, até reformar as passarelas de madeira – necessárias devido ao avanço diário do rio.

Foi por conta dessa organização comunitária que o Bailique se tornou referência em açaí: é de lá que sai para ser vendido em todo o Brasil o único açaí com selo FSC – que assegura que as plantações são feitas com manejo florestal ambientalmente adequado, socialmente benéfico e economicamente viável. Em outras palavras: os extrativistas de açaí respeitam e dependem da floresta em pé.

“Você chega num dia aqui de manhã cedo e vê a alegria dos pássaros, o barulho pra tudo quanto é lado, aquela animação da natureza. A natureza fala com a gente. Aí, a gente vê notícia de bicho morrendo… Aquilo toca a gente, que sabe o valor que um animal tem. Não é só nós, seres humanos, que temos valor. Qualquer animal pequeno que tenha vida tem o seu valor”, conta Alex dos Santos, extrativista de açaí do Bailique. © Diego Baravelli/ Greenpeace

Alex dos Santos Lopes é um deles. Ele conta que o extrativismo do açaí foi a solução para que ele tivesse uma fonte de renda sem precisar deixar a pequena vila do Arraiol, onde nasceu e de onde não quer sair, porque à cidade grande ele não se acostuma.

Dez anos atrás, ele ouvia falar no tal do “ouro preto” – não o petróleo, mas o açaí, como chamavam, até que passou a colher no terreno do seu pai. Hoje são 1.300 pés entre os nativos e os plantados. No meio de tudo isso, estão as árvores intocadas, como as de de ucuuba, pau-mulato, andiroba, pracuuba, a taboca, a jussara e aninga. “Não adianta eu tirar essas árvores daqui. Aí o solo fica ruim e o açaí não brota”, explica.

Na entressafra do açaí, que dura 6 meses, a atividade econômica predominante no Bailique é a pesca. Parte fica para o comércio interno ou consumo próprio, parte tem como destino Macapá. Alguns pescadores vão para o mar, outros ficam pelo rio. Mas os peixes se misturam entre o que é de água doce ou salgada, sem respeitar barreiras.

E as correntes da região são conhecidas por serem fortes e trazerem e levarem o que vem do mar. Hoje, a costa do Amapá é uma fronteira para exploração de petróleo. É por isso que existe uma preocupação sobre o bem estar desse modo de vida. Desde que as manchas de petróleo cru começaram a chegar nas praias do Nordeste, ficou ainda mais evidente os riscos que a atividade impõe à natureza, às pessoas e a à economia que depende de um mar limpo.

“O rio Amazonas é a vida nossa. A gente depende do rio aqui. Fornece nossa alimentação, é nossa estrada. Para mim, o rio é a nossa vida. Nada mais do que isso, diz José Cordeiro dos Santos Lopes, extrativista do arquipélago do Bailique. © Diego Baravelli/ Greenpeace

Empresas estão de olho em blocos na região da foz do Rio Amazonas estimuladas pelos incentivos do governo brasileiro. Mas a população local não vê com bons olhos, como explica Antônio Luiz Cordeiro Lopes. “Nós não somos favoráveis porque vai gerar pouco emprego para a região, muitos profissionais virão de fora. Nós não temos a mão-de-obra qualificada aqui. Não temos simpatia por esse tipo de coisa”, disse.

Moradores do Bailique temem que, em caso de um derramamento, o óleo afete os peixes que são fonte de renda e alimentação. Elielson Bagem Farias, que mora na Vila Progresso, é um deles. “Se acontecer isso, é perda total pro pescador porque não vai poder produzir o seu pescado. Pra quem não tem outro tipo de renda não tem jeito, não sei nem o que pode acontecer”, diz.

A presença da energia solar e o acesso à eletricidade na Amazônia é uma questão de justiça energética. A existência de comunidades que vivem em harmonia com o rio saudável e a floresta em pé são uma mostra de que um modelo de desenvolvimento sustentável, limpo e virtuoso é possível – e importante – para a região da Amazônia e os povos que nela habitam, como os brasileiros que vivem no Bailique.

Confira mais no vídeo abaixo: