Projeto do Greenpeace de freezers solares no Amapá aponta para um modelo de desenvolvimento virtuoso para a Amazônia e contra o avanço do petróleo

A instalação das placas solares vai permitir a produção de gelo, essencial para dar mais autonomia à produção de açaí e peixe das comunidades

O que gelo, energia solar e açaí têm em comum? Se estivermos nas comunidades ribeirinhas do Bailique, Amapá, tudo. Quatro vilas da região agora produzem gelo com freezers que funcionam à base de painéis fotovoltaicos. Boa parte desse gelo vai ser usado para refrigerar polpas de açaí e peixe – os dois produtos que são a base da economia local.

O Bailique é um arquipélago remoto formado por oito ilhas na foz do rio Amazonas. Para chegar lá, onde vivem 46 comunidades em meio à floresta Amazônica, leva-se de 12 a 14 horas de barco de Macapá. A harmonia com a floresta é uma das principais características e talvez a mais marcante dessas pessoas.

A outra característica não é tão boa. São comunidades ameaçadas pelo avanço da pecuária, pela ameaça da exploração de petróleo e que seguem à margem do sistema elétrico do país. A energia que chega ali é inconstante e os deixa por dias, ou semanas, no escuro e na mão. Muitas comunidade sequer têm acesso à rede elétrica, e por isso a geladeira é um item pouco comum nas casas.

A saída é recorrer a geradores a diesel, que só funcionam quatro horas por dia, devido ao alto custo. A prefeitura arca com uma parte do combustível, mas a manutenção é por conta dos moradores – e chega a custar até R$ 3 mil a cada conserto.

Em um lugar onde o sol é constante, a energia solar resolve um problema e muda a vida de todos. A instalação de freezers e painéis fotovoltaicos em quatro comunidades do Bailique foi parte de um projeto do Greenpeace Brasil, em parceria com o Instituto IDEAAS, a Associação da Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB) e a Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

O projeto contou também com a instalação de um sistema de captação de água da chuva em uma das comunidades, e três dias de cursos de capacitação em instalação, manutenção e gestão da nova tecnologia. Agora, cada comunidade vai cuidar dos sistemas, mantê-los e até replicá-los, através da criação de um fundo comunitário que será abastecido com a venda do gelo.

O gelo dentro da comunidade muda bastante nossa vida, porque a gente precisa dele. Antes, a gente tinha que ir buscar em outra comunidade, gastar tempo e o dinheiro com a gasolina do barco. Esse tempo já era suficiente pra perder as comidas que estragavam em casa”, diz Suzana Barbosa Sarges, moradora da vila do Arraiol, a primeira a receber os sistemas e onde aconteceram os cursos de capacitação. Como a energia é inconstante, era comum que a viagem até uma comunidade onde deveria ter gelo fosse em vão porque os freezers já estavam desligados há horas ou dias.

O Bailique também é conhecido pela sua organização comunitária. Como estão a 160 quilômetros e mais de 12 horas de barco de Macapá (município do qual fazem parte), a falta de serviços públicos os obriga a buscar formas colaborativas para tarefas que vão desde comprar os mantimentos do mercadinho, até reformar as passarelas de madeira – necessárias devido ao avanço diário do rio.

Foi por conta dessa organização comunitária que o Bailique se tornou referência em açaí: é de lá que sai para ser vendido em todo o Brasil o único açaí com selo FSC – que assegura que as plantações são feitas com manejo florestal ambientalmente adequado, socialmente benéfico e economicamente viável. Em outras palavras: os extrativistas de açaí respeitam e dependem da floresta em pé.

“Você chega num dia aqui de manhã cedo e vê a alegria dos pássaros, o barulho pra tudo quanto é lado, aquela animação da natureza. A natureza fala com a gente. Aí, a gente vê notícia de bicho morrendo… Aquilo toca a gente, que sabe o valor que um animal tem. Não é só nós, seres humanos, que temos valor. Qualquer animal pequeno que tenha vida tem o seu valor”, conta Alex dos Santos, extrativista de açaí do Bailique.

Alex dos Santos Lopes é um deles. Ele conta que o extrativismo do açaí foi a solução para que ele tivesse uma fonte de renda sem precisar deixar a pequena vila do Arraiol, onde nasceu e de onde não quer sair, porque à cidade grande ele não se acostuma.

Dez anos atrás, ele ouvia falar no tal do “ouro preto” – não o petróleo, mas o açaí, como chamavam, até que passou a colher no terreno do seu pai. Hoje são 1.300 pés entre os nativos e os plantados. No meio de tudo isso, estão as árvores intocadas, como as de de ucuuba, pau-mulato, andiroba, pracuuba, a taboca, a jussara e aninga. “Não adianta eu tirar essas árvores daqui. Aí o solo fica ruim e o açaí não brota”, explica.

Na entressafra do açaí, que dura 6 meses, a atividade econômica predominante no Bailique é a pesca. Parte fica para o comércio interno ou consumo próprio, parte tem como destino Macapá. Alguns pescadores vão para o mar, outros ficam pelo rio. Mas os peixes se misturam entre o que é de água doce ou salgada, sem respeitar barreiras.

E as correntes da região são conhecidas por serem fortes e trazerem e levarem o que vem do mar. Hoje, a costa do Amapá é uma fronteira para exploração de petróleo. É por isso que existe uma preocupação sobre o bem estar desse modo de vida. Desde que as manchas de petróleo cru começaram a chegar nas praias do Nordeste, ficou ainda mais evidente os riscos que a atividade impõe à natureza, às pessoas e a à economia que depende de um mar limpo.

“O rio Amazonas é a vida nossa. A gente depende do rio aqui. Fornece nossa alimentação, é nossa estrada. Para mim, o rio é a nossa vida. Nada mais do que isso, diz José Cordeiro dos Santos Lopes, extrativista do arquipélago do Bailique.

Empresas estão de olho em blocos na região da foz do Rio Amazonas estimuladas pelos incentivos do governo brasileiro. Mas a população local não vê com bons olhos, como explica Antônio Luiz Cordeiro Lopes. “Nós não somos favoráveis porque vai gerar pouco emprego para a região, muitos profissionais virão de fora. Nós não temos a mão-de-obra qualificada aqui. Não temos simpatia por esse tipo de coisa”, disse.

Moradores do Bailique temem que, em caso de um derramamento, o óleo afete os peixes que são fonte de renda e alimentação. Elielson Bagem Farias, que mora na Vila Progresso, é um deles. “Se acontecer isso, é perda total pro pescador porque não vai poder produzir o seu pescado. Pra quem não tem outro tipo de renda não tem jeito, não sei nem o que pode acontecer”, diz.

A presença da energia solar e o acesso à eletricidade na Amazônia é uma questão de justiça energética. A existência de comunidades que vivem em harmonia com o rio saudável e a floresta em pé são uma mostra de que um modelo de desenvolvimento sustentável, limpo e virtuoso é possível – e importante – para a região da Amazônia e os povos que nela habitam, como os brasileiros que vivem no Bailique.

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