No Corre de Quebrada da Expo Favela Paraíba, MCs usam a cultura Hip-Hop para cobrar soluções e alertar sobre a importância do voto

Poeta Calma abrindo o Corre de Quebrada na Expo Favela Paraíba, em João Pessoa, em 2026.
© João Aires / Greenpeace

Se a crise climática é global, a forma de senti-la é local. No Corre de Quebrada realizado na Expo Favela Paraíba, no dia 6 de setembro, MCs de João Pessoa e Campina Grande rimaram trazendo referências à cultura nordestina, à disputa por espaço na cidade e às situações que fazem parte do cotidiano de quem vive nas periferias.

Produzido pelo grupo de voluntários do Greenpeace Brasil em João Pessoa, o encontro também conectou essas vivências às escolhas que serão feitas nas urnas em 2026. Afinal, quem decide sobre leis, orçamento e políticas públicas também influencia as condições de vida de quem está na linha de frente dos impactos climáticos.

O CORRE DE QUEM VIVE A PARAÍBA

Falar de justiça climática na quebrada é falar também do preço da feira que subiu com a seca, da conta de luz que pesa depois de uma temporada de calor extremo e da conquista de uma vida inteira que uma enchente pode levar em minutos.

À direita, MC KitKet, que ganhou o terceiro lugar no Corre de Quebrada da Expo Favela Paraíba, em João Pessoa, em 2026. © João Aires / Greenpeace

Em uma de suas rimas, MC KitKet trouxe o peso da desigualdade evidenciando o fato de que quem sofre mais é quem tem menos responsabilidade pelo problema.

Nas minhas rimas eu quis trazer um pouco dessa realidade da gente, que vem da periferia, que tá nessa linha de frente, que sofre todos os dias com as mudanças climáticas e paga o pato daquilo que não foi ela quem causou. Além disso, quis trazer um grito de esperança: de que o mundo ainda tem jeito, de que ainda existe um futuro pra nossas próximas gerações.

Na batalha de rima, as experiências de cada um, que também são coletivas, ganharam versos. MC Rank, vencedor do Rap pelo Clima, destacou a diferença entre duas paisagens de João Pessoa: de um lado, o bairro do Manaíra, com seus grandes edifícios, condomínios e o maior shopping da cidade. Do outro, a comunidade São José, marcada por outra realidade de infraestrutura e acesso a direitos. Um retrato concreto da desigualdade local.

À esquerda, MC Rank, que ganhou o primeiro lugar no Corre de Quebrada da Expo Favela Paraíba, em João Pessoa, em 2026. © João Aires / Greenpeace

Essa é uma verdade que acontece na nossa realidade aqui em João Pessoa. Se você tá no Manaíra, você vê o shopping e o Rio Jaguaribe. Do outro lado, tá a favela. O que eu quis expressar é a revolta que todo favelado sente e só não sabe como dizer”, comenta Rank.

As referências que apareceram nos versos não estavam ali por acaso, falaram de identidade, de um repertório de quem vive, sente e pensa o território todos os dias. Teve Chico Science, especulação imobiliária, povos originários da região, lama, água chegando pela canela e até o jacaré que apareceu pelas ruas de João Pessoa depois das fortes chuvas. 

O calor sufocante no ônibus lotado, a chuva que trava o bairro e o racismo ambiental que define quem fica mais exposto aos impactos também viraram motivo de cobrança por direitos, políticas públicas e recursos para os territórios.

Poeta marginal Calma.

© João Aires / Greenpeace

A aproximação da pauta climática com a linguagem das ruas foi destacada pela poeta marginal Calma, que abriu o evento.

O slam, o rap e a cultura hip-hop têm um papel muito importante para a comunidade porque aproxima os debates que parecem acadêmicos e elitistas.  E a questão climática é uma questão urgente, cada vez mais, que precisa se tornar popular, que precisa ser de conhecimento do povo”, defende Calma.

À direita MC Ravena no evento do Corre de Quebrada da Expo Favela Paraíba, em João Pessoa, em 2026. © João Aires / Greenpeace

Para MC Ravena, o Hip-Hop também é espaço de encontro e organização coletiva:

O rap nos ajuda porque nos dá voz. É um lugar de se expressar, de lutar por direitos, onde a gente conhece pessoas com as mesmas lutas que a nossa. A gente consegue fazer um coletivo e, quem sabe, fazer uma revolução pra mudar esse sistema que só quem sofre com ele somos nós, de periferia, as pessoas mais pobres.

Lara Horrany e Arthur Gonçalves, voluntários do Greenpeace Brasil em João Pessoa, na Expo Favela Paraíba 2026. © João Aires / Greenpeace

Os voluntários do Greenpeace Brasil na cidade celebraram o encontro de MCs no evento do Corre de Quebrada, pois enxergam no Rap pelo Clima, que chega em sua sética edição, o cumprimento do papel essencial de integrar a pauta ambiental à identidade local.

A gente trouxe o Corre de Quebrada com o intuito de dar visibilidade aos MCs da nossa região, para enaltecer a nossa cultura e o nosso hip-hop. Pra mim, acrescenta muito para viver a cultura periférica local, porque hip-hop é movimento, é dar visibilidade e valorização ao que muitas pessoas não enxergam“, comenta Arthur Gonçalves, voluntário do Greenpeace em João Pessoa.

MC KitKet © João Aires / Greenpeace

CORRE E AÇÃO POLÍTICA

Conectar a vivência periférica às escolhas eleitorais foi fio condutor das rimas em vários momentos do evento. Pautas como o preço dos alimentos, o custo da energia, os impactos das chuvas e o racismo ambiental também dependem de decisões políticas e da distribuição dos recursos públicos.

MC Vulto, produtor cultural e apresentador do Corre de Quebrada na Expo Favela Paraíba 2026.
© João Aires / Greenpeace

O Hip Hop tá aí fazendo política, sendo política, e buscando sempre a melhora da periferia, a melhora do meio ambiente e a igualdade racial, de gênero, e respeito acima de tudo, comenta Vulto, um dos organizadores do encontro.

Mudar a realidade que passou pelo palco do Rap pelo Clima no Corre de Quebrada depende também de quem ocupa o espaços de tomada de decisão. Por isso, a disputa eleitoral precisa ser vista a partir do território: quais prioridades chegam ao orçamento público e quem vai defendê-las?

É nesse encontro entre clima e território que a justiça climática ganha novos significados. A pergunta deixa de ser apenas “quanto a temperatura vai subir?” e passa a ser também “quem decide como a cidade cresce?” , “quem está mais exposto às mudanças?” e “quem fica com os maiores prejuízos?”.

Na batalha, essas perguntas não aparecem como palestra. Aparecem em verso, provocação e resposta. A lama virou imagem, a especulação imobiliária virou rima e o território virou argumento.

Essa é uma das forças do Hip-Hop: fazer a realidade da quebrada ocupar o centro da conversa. Na rima, o cotidiano vira crítica, a vivência vira argumento e a indignação ganha voz. A quebrada sabe o que quer e precisa. Tem saber, memória e voz. Só precisa ser ouvida.

Assine a página do Corre de Quebrada e entre pro canal.

Sem a ajuda de pessoas como você, nosso trabalho não seria possível. O Greenpeace Brasil é uma organização independente - não aceitamos recursos de empresas, governos ou partidos políticos. Por favor, faça uma doação mensal hoje mesmo e nos ajude a ampliar nosso trabalho de pesquisa, monitoramento e denúncia de crimes ambientais. Clique abaixo e faça a diferença!