Além de inflar dados de combate ao desmatamento, Mourão gasta em um mês o equivalente 80% do orçamento anual de fiscalização do Ibama e ainda assim não estanca a destruição

Lábrea (AM): 1500 hectares de desmatamento entre 09/01/2020 e 28/05/2020 (Sentinel 2*).
Mexa na imagem e veja a destruição

Depois de 17 meses de um governo que patrocina a corrosão dos órgãos de fiscalização ambiental e incentiva o crime no chão da floresta, a reação de enviar as Forças Armadas à Amazônia como resposta aos mais altos índices de desmatamento dos últimos anos parece não passar mesmo de uma “grande cena”, dessas dignas de ficção com heróis inventados. 

Chamada de Verde Brasil 2, a operação militar que teve início em 11 de maio foi deflagrada a partir de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que subordinou Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) ao Exército. 

Após os órgãos ambientais terem sofrido redução drástica de pessoas e orçamento, impactando fortemente suas operações de fiscalização, agora perdem também qualquer autonomia de ação no combate ao desmatamento na Amazônia. Apontada pelo governo como a bala de prata para resolver os problemas ambientais, a GLO vem se mostrando inócua desde o primeiro mês e, mesmo assim, teve seu prazo estendido até julho.

Apuí (AM): 1600 hectares de desmatamento entre 28/03/2020 e 16/06/2020 (Sentinel 2*)

Imagens de satélite mostram que entre janeiro e maio deste ano enormes clareiras seguem rasgando a floresta em áreas de 1.500, 1.600 e até 1.700 hectares, em regiões do Amazonas, Mato Grosso e Pará, respectivamente. Esses foram os maiores desmatamentos identificados dentro do período de execução da GLO. Uma destruição que seria facilmente interrompida se desde o início tivessem sido usados inteligência e real interesse do governo no combate aos crimes ambientais.

Alertas de desmatamento (DETER) - 11 de maio a 11 de junho de 2020


Afora a falta de efetividade de toda essa encenação comandada pelo vice-presidente Hamilton Mourão, que coordena o Conselho Nacional da Amazônia, há de se chamar a atenção para a volumosa injeção de recursos nessas ações. Ao custo mensal de 60 milhões de reais, o equivalente a quase 80% do orçamento anual de fiscalização do Ibama, essas operações teriam como objetivo principal combater o desmatamento nos meses que antecedem a temporada de queimadas criminosas na floresta. Só que com o início da seca chegando e o fogo batendo à porta, o quadro que vem se desenhando não é apenas catastrófico para a quantidade de árvores que vão tombar por conta dos incêndios, mas também pelo agravamento da vulnerabilidade das populações da Amazônia à Covid-19. 

No começo de junho, o vice-presidente Hamilton Mourão disse em uma reunião com ministros que em maio o desmatamento havia sido o menor dos últimos anos. No entanto, o que vimos, na verdade, foi a maior taxa de alertas do mês registrada nos últimos cinco anos. Como se não bastasse a narrativa passando uma bela maquiagem nos números, ao divulgar o resultado da ação das Forças Armadas na Amazônia, o governo se utilizou de dados de outros órgãos federais e estaduais para inflar a operação militar Verde Brasil 2.

Segundo reportagem do Estadão, foram contabilizadas até mesmo informações de uma megaoperação realizada no Pará um mês antes dos militares serem enviados para a floresta. E pior, foram usados números de uma ação de combate ao desmatamento ilegal que havia sido desautorizada e repreendida pelo governo federal, custando a exoneração do diretor e dos coordenadores de fiscalização e operações do Ibama.



Claudia (MT): 1600 hectares de desmatamento entre 26/04/2020 e 15/06/2020 (Sentinel 2*)


Com a aproximação da época de queimadas na Amazônia, uma tragédia está em curso. No ano passado, quando batemos recordes de alertas de incêndio, o número de crianças internadas com problemas respiratórios dobrou nas áreas mais afetadas pelo fogo. Foram cerca de 2,5 mil internações a mais, por mês, em maio e junho de 2019, em aproximadamente 100 municípios da Amazônia Legal, segundo estudo da Fiocruz

Hoje, hospitais em toda região norte já estão lotados. Na primeira semana de maio, houve aumento de 38,8% de queimadas em comparação com o mesmo período de 2019. Ou seja, essa é uma equação que nos coloca diante de um quadro dramático. 

É difícil nutrir muita esperança de que a catástrofe ambiental que vimos no ano passado seja menor em 2020. Afinal, a contenção do colapso está nas mãos de um governo que se utiliza de um discurso falso para maquiar e engrandecer suas ações de combate ao desmatamento mas que, na prática, se mostra completamente incapaz de combater a destruição do maior patrimônio de todos os brasileiros, a Amazônia; e proteger seus povos. 

*Fonte imagens de satélite: European Union, contains modified Copermicus Sentinel data 2020, processed with EO Browser