É hora de exigir que as empresas e os mercados assumam – e cumpram – compromissos com a proteção da Amazônia

Floresta queimando registrada durante sobrevoo realizado no início de setembro pelo Greenpeace. © Chico Batata/Greenpeace

Os recentes incêndios na Amazônia revelaram para o mundo que a destruição da floresta segue em ritmo acelerado e também evidenciaram outro fato importante: cada vez mais consumidores estão exigindo produtos livres do desmatamento e estão pedindo para as grandes empresas se adequarem, sob pena de perderem mercado. Pressionadas pelos consumidores, as corporações mundiais precisam parar de associar suas marcas com a destruição da maior floresta tropical do planeta e pedir ao governo brasileiro que pare a destruição da Amazônia.

“A destruição da Amazônia acontece para garantir o lucro de alguns grupos: madeireiros, grileiros e políticos locais e multinacionais de diversos setores, muitas delas com sede em outros países. Não podemos proteger a Amazônia e o clima do mundo se não exigirmos também que estas empresas se posicionem contra o grave aumento da destruição da floresta. Elas devem eliminar produtos que venham dessa destruição da sua cadeia de suprimento”, explica Rômulo Batista, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Perto de 2,5 milhões de hectares – incluindo florestas e áreas recém-desmatadas – foram queimados na Amazônia brasileira em agosto, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe). O número de incêndios na Amazônia aumentou em 111% desde o início do mandato do presidente Bolsonaro.

Há muito tempo se sabe que destruir a Amazônia faz mal para a biodiversidade, para o clima e para as populações que dela dependem, mas cada vez mais fica provado que também faz mal para economia brasileira. Cientistas e também iniciativas práticas têm evidenciado que utilizar a biodiversidade de forma sustentável, como já fazem os indígenas há milhares de anos, além de preservá-la em pé é muito mais lucrativo do que derrubá-la para colocar pasto – e ainda há muito o que avançar em termos de conhecimento e uso de todo esse potencial.

É justamente com o propósito de expor as empresas que, de algum modo, lucram com a destruição da Amazônia, que o Greenpeace Internacional iniciou neste mês uma campanha para que gigantes do setor de fast food, como Burger King, McDonald’s e KFC, rejeitem mercadorias – como carne bovina e soja – vinculadas à destruição ambiental da Amazônia e de outras biomas do Brasil. Há nove anos estas empresas adotam políticas de desmatamento zero, mas não cumprem esses compromissos.

“O governo Bolsonaro precisa parar de incentivar a destruição da Amazônia e o ataque às populações indígenas e cumprir o seu dever constitucional que é promover a proteção da Amazônia. As empresas que compram produtos do Brasil devem cobrar dele uma política ambiental que garanta que suas mercadorias não estejam sujas pelas queimadas e cinzas da floresta e nem carreguem em si a dor dos seus povos”, conclui Rômulo.

Países realizam protestos pela proteção da Amazônia

Desde que as queimadas na Amazônia chamaram atenção, muitos protestos aconteceram em diversos países. Ativistas do Greenpeace ao redor do mundo, em locais como Argentina, Chile, Colômbia, Áustria, Espanha, Nova Zelândia, Suécia, Israel e Turquia, também pediram o fim da destruição da floresta.

Empresas já suspenderam compras

É pela pressão dos consumidores que algumas empresas internacionais anunciaram a suspensão de compras de couro do Brasil, segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), associação que representa as empresas produtoras do setor.

O estreito vínculo das queimadas na região Amazônica com o agronegócio foi o motivo alegado para esta suspensão. Tanto a agência espacial estadunidense Nasa, quanto o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) evidenciaram que os incêndios deste ano na Amazônia estão relacionados com a alta do desmatamento na região.

Em seguida, a maior produtora de salmão do mundo, a norueguesa Mowi, também anunciou que poderia interromper as aquisições de soja do Brasil caso o país não reduzisse o desmatamento na Amazônia.

Como em um efeito dominó, a gigante do setor de alimentos, Nestlé, que atua há quase cem anos no Brasil, anunciou que deverá reavaliar as práticas de seus fornecedores na região, especialmente em relação à carne e cacau. A companhia também compra óleo de palma e soja produzidos na Amazônia. Em 2010, a fabricante assumiu compromisso de que seus produtos não estivessem associados ao desmatamento, porém em recente relatório publicado pelo Greenpeace Internacional a multinacional não conseguiu comprovar que nenhuma das suas cadeias produtivas eram de fato livre de desmatamento.

Atualmente cada vez mais consumidores do mundo todo exigem respeito a critérios socioambientais por parte das empresas, independente da posição que elas ocupem na cadeia de produção. Mercados e empresas globais têm responsabilidade sobre os produtos que compram e não podem aceitar ter seus produtos associados a esse tipo de atividade destruidora. Por isso, devemos cobrar que as empresas se posicionem em defesa da Amazônia.