Em entrevista ao Greenpeace, o climatologista José Marengo faz uma análise da relação entre aquecimento global e a falta de chuvas que impactou o nível dos reservatórios de grande parte das hidrelétricas do país, um dos motivos da alta nas tarifas de energia

Detalhe de um terreno ressecado que costumava ser o fundo do reservatório de Serra Azul. Em 2015, o Greenpeace realizou uma expedição aos principais mananciais superficiais da região sudeste do Brasil, onde milhões de pessoas foram ameaçadas pela falta de água desde 2014, para destacar a ligação entre o desmatamento e a crise hídrica. © Gabriel Lindoso / Greenpeace
Detalhe de um terreno ressecado que costumava ser o fundo do reservatório de Serra Azul. Em 2015, o Greenpeace realizou uma expedição aos principais mananciais superficiais da região sudeste do Brasil, onde milhões de pessoas foram ameaçadas pela falta de água desde 2014, para destacar a ligação entre o desmatamento e a crise hídrica. © Gabriel Lindoso / Greenpeace

A escassez de chuvas entre setembro de 2020 e março de 2021 nos reservatórios de grande parte das hidrelétricas do país somada à falta de planejamento do poder público resultaram na pior crise hídrica dos últimos 91 anos, no Centro-Sul. Cinco estados estão em alerta de emergência para o período de junho a setembro: Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.

Por conta dessa queda no nível dos reservatórios, o governo anunciou o acionamento das termelétricas para atender à demanda do consumo de energia. Além de mais poluentes, a produção de energia por usinas térmicas é mais cara e essa decisão reflete diretamente no bolso da população, que é para quem o governo repassa o prejuízo com o aumento da conta de luz

Mais emissões, maiores os riscos de novas secas. E o planejamento?

Uma vez que geram energia a partir da queima de combustíveis, como diesel, gás e carvão, as termelétricas são mais poluentes, contribuindo assim para o aumento das emissões brasileiras de gases de efeito estufa que intensificam o aquecimento global e, consequentemente, o risco de um futuro com mais secas e ainda mais intensas.  

Há tempos a ciência vem alertando que as mudanças climáticas estão provocando o aumento da intensidade e frequência de eventos extremos, caso de secas e cheias. Como bem lembrou o climatologista e meteorologista José Marengo em entrevista ao Greenpeace Brasil (que você pode conferir nos vídeos que estão nesta página), “a atmosfera não reconhece fronteiras”. Enquanto o mundo todo sofre os impactos do agravamento da crise climática, o Brasil também paga seu preço, e em vez de tentar reverter este cenário com o reconhecimento de que vivemos uma crise e um plano de enfrentamento, o governo coleciona ações que seguem aumentando as emissões

Como se não bastasse as dificuldades impostas pela pandemia, pelos eventos decorrentes da crise climática, insegurança alimentar e desemprego, agora o cidadão brasileiro vai ter de arcar com o aumento da tarifa de energia que, como toda situação de crise, tem peso e consequências muito mais graves sobre aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade.

A situação atual poderia ter sido evitada? Será que em vez de construir e acionar termelétricas, que agravam a crise climática, o Brasil já não poderia ter acelerado em direção à transição para o investimento em fontes de  geração de energia limpa, renovável e sustentável? 

Para responder a algumas dessas perguntas, a gente te convida a ouvir essa entrevista com José Marengo, climatologista, meteorologista e coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), órgão ligado ao Ministério da Ciência. 

A entrevista com Marengo foi realizada virtualmente no dia 25 de junho de 2021. 

Parte 1: Eventos extremos, como a seca no Centro-Sul, poderão ser mais frequentes e intensos com as mudanças climáticas

Nesta primeira parte da conversa, Marengo chama atenção para o fato do clima mundial estar mudando como resultado da intensificação do aquecimento global e que as consequências já estão sendo observadas. “O aquecimento global é um processo natural, só que as atividades humanas estão acrescentando e intensificando, assim como seus impactos. Nós estamos sentindo coisas que não deveriam estar acontecendo, deveriam acontecer nas próximas décadas ou 100 anos”, alerta. 

Parte 2: O que pode ser feito para mitigar os impactos das mudanças climáticas?

Em novembro deste ano, representantes de países representantes dos países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU)  vão se reunir na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP26) para tratar de um inimigo comum e que não reconhece fronteiras, a crise climática. O Brasil tem um papel fundamental neste enfrentamento, que passa pelo fim do desmatamento da Amazônia.  

O cumprimento das metas assumidas pelos países no Acordo de Paris e o combate ao desmatamento são algumas das ações destacadas por Marengo para mitigar os impactos das mudanças climáticas. Ele também aborda a questão social, uma vez que as pessoas em situação de vulnerabilidade têm sua realidade agravada pelas consequências da crise do clima. 

Parte 3: Ao acionar termelétricas para evitar apagão, Brasil entra no “cheque especial”

O Brasil tem um enorme potencial para investimento em geração de energia limpa, renovável e sustentável, como eólica e solar. No entanto, em um momento como este, por falta de planejamento, infraestrutura e vontade política, precisamos recorrer às térmicas para evitar um apagão, que são mais caras e poluentes. 

Nesta terceira parte da entrevista, Marengo aborda as consequências de ainda termos de depender de fontes de energia suja para situações de emergência como a que estamos vivendo agora. 

Parte 4: Quais outros eventos extremos são provocados pelas mudanças climáticas no Brasil?

Chegando ao fim desse papo sincero com a ciência que esperamos ter te ajudado a pensar em algumas das perguntas lançadas lá no começo do texto, Marengo comenta sobre alguns outros eventos extremos que já são reflexo das mudanças climáticas.