“Agimos agora ou não conseguiremos salvar o clima do planeta”, alerta a ciência. Acabar com combustíveis fósseis, zerar o desmatamento e garantir justiça climática estão entre os caminhos.

Greve Global pelo Clima, mobilização mundial puxada pelas mãos da juventude, que exige medidas concretas para frear as emissões de gás carbônico e combater o aquecimento global. (2019) © Barbara Veiga / Greenpeace

Os principais cientistas climáticos do mundo que fazem parte do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, acabam de entregar a terceira parte do sexto relatório sobre mudanças climáticas. Trata-se de um plano de resgate para a humanidade com soluções climáticas que podem e devem ser colocadas em ação imediatamente.

Antes de partir para as soluções, durante a coletiva de imprensa do IPCC, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou: “Estamos a caminho dos 3° Celsius (de elevação da temperatura média do planeta), em uma via rápida para um desastre climático. Precisamos cortar em 45% as emissões até 2030″.

E é aqui que você e eu entramos: precisamos garantir que esse relatório não seja engavetado. Ele precisa ser falado em todos os cantos do mundo, e o mais importante: posto em prática.

As ações de enfrentamento da crise climática que os líderes mundiais e o setor financeiro tomaram até agora continuam sendo insuficientes. Precisamos de muito mais, e rápido. Até 2030, vivemos em uma década crucial em que ou agimos ou a vida no planeta continuará sendo drasticamente afetada.

Afinal, quais são as ações necessárias? Aqui estão as nossas 6 conclusões do relatório do IPCC sobre mitigação que achamos que você precisa saber:

  1. Temos as soluções de que precisamos para limitar o aquecimento em até 1,5°C.

Esta é a melhor notícia: temos as soluções para reduzir mais da metade das emissões globais em apenas oito anos, o que é necessário para cumprir a meta do Acordo de Paris. Nesta década crítica, as maiores reduções de emissões globais viriam a partir da transição justa para energia solar e eólica, eficiência energética, agricultura agroecológica e redução do desmatamento (principal fonte de emissões do Brasil). Mais da metade desse potencial vem com custos baixos (abaixo de 100 reais/tonelada) ou até mesmo sem custos! Investir em energia solar e eólica, por exemplo, trará economia e muito mais emprego em comparação às formas atuais.

  1. Precisamos do uso racional dos recursos naturais: podemos fazer mais com menos

Até 2050, existe um enorme potencial de estratégias que podem servir para frearmos as consequências da lógica do crescimento infinito, poupando o uso descontrolado dos recursos naturais e reduzindo  as emissões em 40-70%.  Algumas dessas estratégias são:

  • Repensar a infraestrutura das cidades, como por exemplo a criação de políticas públicas que encurtem a distância entre quem produz e quem consome, transporte  limpo e  saudável e menores fluxos de circulação, possibilitando que as pessoas morem perto do trabalho.
  • Promover a adoção de tecnologia e condições socioculturais que permitem modos de vida sustentáveis, desde cidades que priorizem os pedestres e ciclistas, ​​a modelos de mobilidade compartilhada, casas autossustentáveis, reciclagem e reuso de materiais e dietas saudáveis ​​sem veneno e excesso de carne. 

O poder público precisa garantir condições que permitam opções social, ambiental e climaticamente responsáveis. Para isso, é prioridade que as necessidades das populações historicamente vulnerabilizadas sejam atendidas para que lhes seja garantido o direito à escolha. 

O atual modo de produção hegemônico no país, extremamente predatório, não permite que todos tenham acesso a alimentos agroecológicos, por exemplo. Resultado de um Estado que historicamente financia grandes produtores enquanto dificulta a vida dos pequenos que produzem alimentos saudáveis e sem veneno.

  1. Dinheiro e recursos existem, mas precisam ser redirecionados dos problemas para as soluções.

Para alcançar os cortes de emissões necessários em 2030, os fluxos anuais de investimento em energia limpa, eficiência, agricultura e florestas precisam se multiplicar. Para caminhos que se mantenham abaixo de 2°C, é necessário um aumento de 3 a 6 vezes nos níveis atuais desses investimentos, e para 1,5°C ainda mais. Existe dinheiro, mas hoje esse dinheiro (público e privado) alimenta o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis. A remoção dos subsídios aos combustíveis fósseis poderia, por si só, reduzir as emissões em até 10% até 2030. Enquanto isso, o acesso ao financiamento climático, especialmente para países em desenvolvimento, continua limitado.

  1. As metas e políticas nacionais atuais são uma receita para o fracasso e têm que evoluir.

Embora muitos países tenham melhorado seus planos climáticos – o que NÃO é o caso do Brasil, pelo contrário – nenhum país está reduzindo as emissões na velocidade exigida pela meta de 1,5°C. Políticas desalinhadas levam a fluxos financeiros alinhados à economia da destruição. Já temos infraestrutura de combustíveis fósseis suficiente para estourarmos a meta de 1,5°C, caso sejam usadas até o final de sua vida útil. Precisamos desmontar esse modelo o quanto antes e evitar falsas soluções de curto prazo ou planos que pressupõem que de alguma forma, em algum lugar, alguém removerá nossas emissões da atmosfera em grandes quantidades, em algum momento no futuro.

  1. Aqueles com altas emissões têm maior potencial para cortes de emissões

Os países e aqueles que possuem maior poder econômico no mundo, como as famílias com renda entre os 10% mais ricos, que contribuem com cerca de 36-45% das emissões globais, são os que precisam ser mais cobrados pela mudança necessária. Dois terços dessas famílias vivem em economias desenvolvidas. 

Equidade e justiça climática são essenciais para uma política climática eficaz e para garantir o apoio nacional e internacional para a descarbonização. Além das diferenças nas contribuições de emissões atuais e cumulativas, há também desigualdades brutais no grau de vulnerabilidade a impactos, tanto em dinâmicas nacionais como internacionais. Portanto, além de políticas públicas de mitigação e adaptação nos países, estados e municípios, a cooperação internacional é fundamental para uma transição justa e de baixo carbono.

  1. As sementes para uma mudança transformadora já foram plantadas. Agora é o momento de crescer e agir.

Chegar a um futuro sustentável e justo exige mudanças transformadoras que interrompam as atuais tendências. São necessárias mudanças tecnológicas, mas principalmente socioeconômicas, sistêmicas e culturais. Para isso, precisamos tanto de ações consistentes dos detentores do poder político e econômico, quanto de pressão pública e o fortalecimento de movimentos sociais.

O rápido avanço de soluções solares e eólicas, por exemplo, disruptivo em termos de custos, desempenho e adoção, não é uma coincidência. Foi impulsionado por políticas e pressão pública por mudanças (graças a pessoas como você!). Juntas, essas soluções podem começar a eliminar os combustíveis fósseis do sistema energético em uma velocidade e escala antes consideradas impensáveis. É essa mesma disposição, ou mais, que precisamos no Brasil de hoje para combater o desmatamento, que é a nossa principal fonte de emissão de gases de efeito estufa, além de ameaçar a vida dos povos da floresta e nosso patrimônio natural.

Os desafios que precisam ser superados não são pequenos. Países, empresas e indivíduos que possuem as maiores riquezas e, consequentemente, podem perdê-las com a transformação do atual modelo, podem tentar resistir à mudança. Mas a conscientização da sociedade e o apoio à ação climática e por justiça socioambiental tem aumentado. 

A sociedade civil tem se mobilizado amplamente. De um lado, a juventude toma conta das ruas do mundo porque entende que as gerações anteriores falharam e ela não tem ao menos um presente seguro, quem dirá um futuro. E fechando esse cerco, a sociedade civil também se articula indo aos tribunais para acessar a justiça e cobrar por seu direito a um meio ambiente saudável, caso dos litígios climáticos contra governos, setor privado e instituições financeiras. 

“Há agora um crescente acordo acadêmico de que o litígio climático se tornou uma força poderosa na governança climática”, conclui o IPCC.

Então agora, qual é o plano?

Agora nós devemos melhorar nosso jogo, em grande estilo, para tirar os combustíveis fósseis do caminho, curar nosso sistema alimentar, proteger nossas florestas e lutar por um futuro que atenda aos direitos e necessidades de todos, ao invés da ganância de poucos.

Este é o momento de se levantar, ser ousado e pensar grande. Vamos juntes?


As duas primeiras partes do sexto relatório do IPCC examinaram as causas e os impactos das mudanças climáticas. No primeiro, divulgado em agosto de 2021, os cientistas trouxeram informações sobre a base física das mudanças climáticas passadas, presentes e futuras, e afirmaram ser inequívoca a influência das emissões humanas sobre o clima do planeta. Na segunda parte do relatório, divulgada em fevereiro, o IPCC confirmou o que já estamos testemunhando e vivenciando: os eventos extremos climáticos estão aparecendo mais rapidamente e se agravarão mais cedo do que previa a ciência. Alguns impactos já são irreversíveis. Precisamos ser mais rápidos e ambiciosos nas ações e soluções.