De acordo com cientistas, além de contribuir com a emissão de gases do efeito estufa, o consumo excessivo de carne já causa mais problemas de saúde que o sexo não seguro e o uso de álcool, drogas e tabaco juntos


Estudo indica que para controlar as mudanças climáticas, e termos uma vida mais saudável, a humanidade terá que mudar seus hábitos alimentares.

Os sistemas de produção de alimentos têm potencial para nutrir a saúde humana e apoiar a sustentabilidade ambiental. Mas atualmente eles têm desempenhado um papel totalmente oposto, contribuindo para as mudanças climáticas e o adoecimento da população. É o que aponta o relatório publicado pela Comissão de Alimentação, Planeta e Saúde da revista científica The Lancet (“The Lancet Commissions Food in the Anthropocene: the EAT–Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems).

O estudo reuniu 37 cientistas de 16 países, com especialidades em várias áreas, como saúde humana, ciências políticas e sustentabilidade ambiental, para mapear os impactos da produção e consumo de alimentos nos padrões atuais para a saúde e para a capacidade de produção no futuro. Uma das principais conclusões é que precisamos reduzir drasticamente o consumo de produtos de origem animal e migrar para meios mais sustentáveis de produção e consumo com urgência, pelo bem das pessoas e do planeta. O que confirma os dados publicados em março de 2018 pelo Greenpeace.

Alimentação saudável é justa para quem produz, livre de veneno, respeita o meio ambiente, tem menos carne e mais vegetais e é inclusiva.

“Quando tantos especialistas em saúde da comunidade internacional se unem para informar cidadãos e tomadores de decisão sobre a gravidade dos impactos sombrios da produção e consumo global de carne e laticínios sobre o clima e a saúde, todos nós deveríamos escutar com muito cuidado”, ressalta Reyes Tirado, Cientista Sênior de Pesquisa do Laboratório de Pesquisa do Greenpeace, da Universidade de Exeter. “Uma redução de 50% da carne em nossas dietas, e cortes de 70 a 90% em alguns países da Europa Ocidental ou América do Norte, certamente não é uma coisa fácil de colocar em prática. Mas é o ponto em que chegamos depois de décadas de consumo excessivo e algo necessário para que possamos honrar o acordo climático global para resolver nossa atual crise climática”, disse.

Hoje em dia, a produção de carne emite um volume de Gases do Efeito Estufa (GEEs) equivalente ao de todos os carros, caminhões, aviões e navios do planeta juntos. No Brasil, além das emissões, a produção pecuária está constantemente associada à retirada de direitos de trabalhadores e povos indígenas. Da Amazônia, passando pelo Cerrado, ao Chaco argentino, os ambientes naturais de toda a América Latina vem sendo destruídos para dar lugar à criação de gado e a produção de commodities, como soja e milho, que depois são usados para alimentação animal em todo o mundo. Aumentando também as emissões relacionadas ao desmatamento.

Se não forem controladas, as emissões da indústria de proteína animal podem comprometer a meta internacional de não exceder os 1,5º Celsius de aumento na temperatura média global até o final do século. Mas podem comprometer também nossa saúde.

Como alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050?

No Brasil, produzimos grãos e carnes de forma desproporcional – se compararmos com outros tipos de alimentos – sob o argumento de erradicar a fome no mundo. Mas na realidade vivemos um triste paradoxo: a fome ainda assola nosso país, além de tantos outros, enquanto o número de brasileiros obesos e com sobrepeso, sofrendo com doenças crônicas causadas em grande parte por uma alimentação rica em açúcar e gordura e pobre em todo o resto, continua a crescer. Somos um país de obesos famintos!

Esse cenário é reforçado pelo estudo da AET-Lancet e não se restringe ao Brasil, é uma epidemia global. De acordo com os pesquisadores, embora a produção mundial de calorias tenha acompanhado o crescimento populacional, mais de 820 milhões de pessoas ainda passam fome e muitos mais estão expostos a alimentação de baixíssima qualidade. Os cientistas sugerem que “Dietas não saudáveis representam um risco maior de morbidade e mortalidade do que o sexo não seguro e o uso de álcool, drogas e tabaco juntos”.

Não existe um consenso na ciência quanto à necessidade de se “comer carne”, embora existam vários posicionamentos apontando sobre a insustentabilidade de continuarmos a consumi-la nos níveis atuais. Mas há um ponto em que todos concordam: o segredo para uma boa alimentação é a diversidade.

No “Guia Alimentar para a População Brasileira”, do Ministério da Saúde, recomenda-se a ingestão de no máximo 200 gramas de proteína animal por dia – para carne vermelha essa quantidade é ainda menor. Vegetais, frutas, grãos e tubérculos, por outro lado, tem passagem quase livre no cardápio. Isso significa que o ideal seria comermos apenas um bife OU uma coxa de frango OU um sanduíche de presunto com ovo por dia. UM Só. Já o estudo da EAT-Lancet vai mais longe, sugere o consumo de, no máximo, 14 gramas de carne vermelha ao dia.

A verdade é que não tem planeta B para vivermos. A atual forma de produção de commodities no Brasil está longe de favorecer o País a produzir e consumir alimentos de outra forma. Estimular uma alimentação mais variada, com menos carne e veneno na merenda escolar, é estimular nossos filhos a fazer essa mudança positiva se multiplicar. Seja na escola, na faculdade ou numa casinha de sapê. Como reforça o estudo, “Uma transformação radical do sistema alimentar global é urgentemente necessária”.