Ameaçados pela ganância de mineradoras, madeireiras e grileiros, assentados insistem na defesa de seu modo de vida tradicional

A mineração, ela não é desenvolvimento para nós, agricultores familiares. Ela é um desastre, é uma ameaça muito forte. Pode ser desenvolvimento para eles porque de lá que eles tiram toda a renda deles. Para o agricultor familiar, não é desenvolvimento e não é sustentável”. A convicção e o olhar sincero, mas também preocupado, de Rosenilce dos Santos Victor denotam alguém que conhece bem os desafios da realidade em que vivem.

Nascida na comunidade Maranhão, localizada na região do Lago Grande, que fica mais a oeste do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, Nicinha, como Rosenilce é conhecida por todos, é uma ativa diretora da Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista Gleba Lago Grande (Feagle). Localizado no município de Santarém, no Pará, com 252 mil hectares, este assentamento é o lar de 144 comunidades, que totalizam uma população de cerca de 6.600 famílias de extrativistas, ribeirinhos, agricultores e indígenas. E mesmo com uma ocupação secular do território, ele se mantém bastante preservado: 85% de sua área é composta por florestas densas e várzeas naturais. Este fato se deve justamente aos modos de viver das populações agroextrativistas e indígenas, que dependem da floresta em pé.

Assim como Rosenilce, outros personagens como Valdino, Sara, Ian e Manoel Edivaldo protagonizam os novos episódios de vídeos de um minuto da série Arandu. Filhos e filhas do PAE Lago Grande (como os moradores se referem a quem nasceu naquela terra), eles representam milhares de outros comunitários que, nos últimos anos, passaram a integrar, de modo inadvertido, uma trama marcada por disputas e universos antagônicos.

De modo simplista, esta trama pode ser resumida em uma luta entre aqueles que defendem a continuidade do modo de vida tradicional de suas famílias e ancestrais, dependentes da floresta em pé e da preservação da natureza e aqueles que pretendem explorar economicamente os bens naturais (madeira, minérios, biodiversidade, etc), visando o lucro, mesmo que para isso seja necessário destruir um ecossistema milenar e romper uma teia sociocultural que se sustenta de modo equilibrado e resiliente há décadas e até mesmo séculos, no caso dos indígenas que ali vivem. Resumidamente, trata-se de uma disputa entre defensores da vida e obcecados pelo lucro.

“Na nossa região nós temos tudo do agroextrativismo. Lá das matas, nós colhemos os frutos, como a castanha, o uxi, os óleos de andiroba, o piquiá… são frutas nativas que a gente consome no dia a dia na época de safra. Todo agricultor familiar faz também o plantio da roça, de onde colhe a mandioca. Com ela, a gente faz o beiju, a farinha, a goma, a farinha de tapioca e muitas diversidades de biscoito”, explica Nicinha. “Nós vivemos em um lugar que a gente chama de paraíso porque de lá nós tiramos tudo para a nossa sobrevivência”.

Em 2019, 1.300 pessoas se reuniram para a I Romaria Do Bem Viver, para defender o modo de vida tradicional e o território © Tuane Fernandes / Greenpeace

Davi x Golias

A segunda temporada de Arandu dá voz à luta de alguns destes protagonistas que não aceitam a destruição das vidas simples que vivem e das belezas e da fartura que as florestas, a terra e os rios lhes oferecem.

Os desafios, os atores envolvidos e a conjuntura política no país remetem à lendária luta de Davi contra Golias. Mineradoras, dentre elas a multinacional Alcoa (EUA), já apresentaram 28 requerimentos à Agência Nacional de Mineração para a exploração de bauxita em mais da metade (55%) do PAE. Elas pretendem fazer esta exploração especialmente numa área de platô do território, onde há maior concentração de bauxita. Mas é justamente nesta região que também estão as nascentes de rios que irrigam boa parte do território, que seriam destruídas pela atividade mineradora.

Além da ganância das mineradoras, grileiros e ocupantes que não respeitam a titulação coletiva do território têm, recentemente, investido em uma ofensiva sobre as terras do PAE. Madeireiras também têm, cada vez mais, cometido a prática ilegal de invadir e retirar, de modo criminoso, caminhões de toras da região.

Resolutos, filhos e filhas do PAE, afirmam que vão continuar na defesa de seu território, de seu modo de vida simples e tradicional, da soberania alimentar de suas famílias, da natureza, suas águas e animais.

Com firmeza e sabedoria, Nicinha conclui: “A gente sabe que o desenvolvimento que eles falam é para outros países. Não vai ficar nas nossas comunidades. Toda a riqueza nossa daqui vai ser levada. E nós não queremos isso! Queremos se manter na nossa terra porque é lá que estão as nossas raízes e o futuro de nossos filhos e netos”. 

Os episódios de Arandu são semanais e publicados nas manhãs de sábado. Acompanhe e conheça mais a realidade de comunidades tradicionais que vivem na Amazônia. 

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