Tentativa de reduzir meta oficial de proteção é mais uma prova de que ministro de Meio Ambiente atua contra sua própria pasta

Quem são vocês, incendiários desde sempre, ferozes construtores de ruínas? Os que queimam, impunes, a morada ancestral, projetam no céu mapas sombrios: manchas da floresta calcinada, cicatrizes de rios que não renascem. – Milton Hatoum, 2020

O escritor amazonense Milton Hatoum fez um comovente poema sobre a destruição causada pelos incêndios criminosos na Amazônia. Confira o vídeo.

Mesmo após a crise gerada pela divulgação do vídeo da reunião ministerial e com a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal em chamas, Ricardo Salles continua tentando passar suas boiadas. A última do antiministro de Meio Ambiente foi tentar reduzir a meta oficial de preservação da Amazônia, como mostrou reportagem do Estadão ontem (04/08). Mas a imprensa e a sociedade civil estão atentas: criticado ao longo do dia, Salles aparentemente recuou. 

Até 2023, o governo brasileiro tem em sua meta orçamentária a redução de 90% do desmatamento e queimadas em todo o país, de acordo com o Plano Plurianual (PPA), aprovado pelo Congresso em 2019 e sancionado pelo presidente Bolsonaro. Dando justificativas absurdas visando esconder sua má-fé, Salles propôs uma nova meta no lugar: proteger apenas 390 mil hectares de floresta na Amazônia.

Para se ter uma ideia de quão insuficiente a meta de Salles é, apenas entre agosto de 2018 e julho de 2019, foram desmatados mais de 1 milhão de  hectares na Amazônia, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ou seja, aproximadamente um terço dos 390 mil hectares de floresta que Salles pretende deixar em pé. 

Para Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, reduzir a meta de desmatamento prova, mais uma vez, que o governo Bolsonaro trabalha para implementar seu projeto antiambiental no país. “Se a questão fosse incompetência, seria grave, mas contornável. No entanto, o problema está na intenção perversa de atuar em prol do desmatamento e do crime ambiental”.

Mariana avalia que o projeto do governo é justamente a ausência de plano, meta ou orçamento capazes de proteger as riquezas naturais do Brasil de forma concreta, além do sucateamento dos órgãos responsáveis pela proteção e preservação do meio ambiente.

“Nivelar por baixo a meta de redução de desmatamento prejudica as florestas e o clima global e, fatalmente, gera ainda mais constrangimentos internacionais em um momento em que investidores, empresas e outros países ameaçam romper acordos comerciais e boicotar produtos brasileiros por conta desta política antiambiental”, ela afirma.

fogo na Amazônia em Mato Grosso
Restos de floresta sendo queimados em área com registro de desmatamento em Juara (MT). © Christian Braga / Greenpeace

Amazônia, Cerrado e Pantanal em chamas

Para piorar, a mudança no PPA sugerida por Salles trocaria uma meta para todo o país por um programa que só abrange a Amazônia. Cerrado e Pantanal, que, assim como a Amazônia, ardem em chamas no momento, ficariam de fora. Maior área alagada do planeta, o Pantanal registrou aumento recorde de mais de 500% nas queimadas no primeiro semestre de 2020. Como é um bioma que vive um período de estiagem prolongada, é mais vulnerável ao fogo. 

Para Mariana Mota, é dever do Poder Executivo colocar em prática uma política séria envolvendo inteligência e fiscalização contra o desmatamento, para prevenir o pior em todos os biomas. “Em vez disso, o governo Bolsonaro se limita a apresentar planos emergenciais insuficientes e muita propaganda, quando a natureza já está devastada, beneficiando justamente quem lucra com a destruição ambiental”.

A “moratória do fogo” é um exemplo disso. Apresentado pelo vice-presidente Hamilton Mourão em julho, como parte do plano de combate ao desmatamento, o Decreto nº 10.424/20 proíbe o uso do fogo em território nacional por 120 dias. Adivinhe se a lei, sozinha, convenceu criminosos a não queimarem nossas florestas, áreas alagadas e savanas? Os sobrevoos feitos pelo Greenpeace sobre a Amazônia mostram que não. Depois da moratória, Amazônia e Pantanal bateram recordes de focos de calor no mês de julho. 

Proteger as florestas e os demais ambientes naturais é fundamental na luta contra umas das maiores crises humanas atuais: a emergência climática. A ação humana faz com que o desmatamento seja um dos principais fatores de emissões de gases de efeito estufa do Brasil. A perda de florestas tem consequências negativas para a biodiversidade do país, gerando ainda mais desequilíbrios ecológicos que impactam o solo, um ciclo de desastres para o meio ambiente e o ser humano, intrinsecamente dependentes e relacionados. 

Assista: O Instituto SOS Pantanal fará uma live no Instagram amanhã, quinta-feira, 6 de agosto, às 20h, sobre os incêndios no Pantanal. É uma boa oportunidade para entendermos melhor o drama por que passa este incrível bioma brasileiro.

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