2,8 toneladas de ajuda emergencial foram entregues em Tefé para fortalecer a luta dos povos indígenas da região contra a disseminação da Covid-19

25 de agosto de 2020 – terça-feira, próxima parada: Fonte Boa

Sem conexão! Em um dia “normal”, estaríamos focados nos mais variados canais digitais para atender inúmeras demandas de trabalho e pessoais. Aqui, em plena floresta amazônica, não tivemos qualquer sinal de conexão, de internet ou celular. 

Com o ritmo de vida e trabalho frenético que levamos, estar desconectado dessa forma para algumas pessoas é desesperador. Para outras pode ser um alento, uma possibilidade de “acalmar a alma”, como dizem. 

Além do transporte, a comunicação também é um grande desafio para os povos da floresta. A vida aqui impõe um ritmo peculiar. © Marcos Amend / Greenpeace

Para nós, a comunicação com o mundo “além-rio” é necessária principalmente para organizarmos as entregas dos materiais de ajuda emergencial nas próximas paradas do barco – já que, dadas as diversas variáveis que lidamos no dia-a-dia, não é possível saber exatamente os horários de chegada nas cidades. 

Foi justamente por não termos conseguido nos comunicar ontem com André Kambeba, coordenador da União dos Povos Indígenas do Médio Solimões e Afluentes (Unipim-SA), que tivemos que dormir atracados no popularmente conhecido Porto “do Rodue” (derivação nativa de roadway – rodovia em inglês, que se refere à área da instalação portuária em que se carrega e descarrega carga). 

Mesmo com muitas tentativas, só conseguimos falar com André Kambeba, ponto focal da Coiab para receber os materiais, quando chegamos em Tefé  © Marcos Amend / Greenpeace

Haja força!

No início da noite, Wayne, Carol, Fred e eu retiramos mais de 2.800 quilos de materiais dos dois porões do barco e subimos tudo para o convés. Fred, que tirava as caixas do claustrofóbico e escuro porão, foi quem ficou mais ensopado de suor. “Academia, pra quê?”, zombou ele. Em seguida, fizemos mais um processo de descontaminação nas centenas de caixas das doações, para evitar qualquer possibilidade de contágio dos indígenas.  

Era pouco mais de meia-noite quando chegamos a Tefé, depois de mais de 52 horas navegando neste primeiro trecho da nossa expedição, um percurso de 620 km. Seu André, após esperar por algumas horas e sem notícias nossas, já tinha ido embora. Como ele é quem receberia a maior parte da carga a ser deixada em Tefé, enviada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), e diante da sua impossibilidade de retornar ao porto, percebemos que pernoitar ali era necessário. 

Seu Souza, nosso prático (piloto de embarcações navais) manobrou para encaixar o “Samara Lopes XII” no trapiche lotado. Mesmo tarde da noite, descarregamos os materiais que serão utilizados para a instalação de enfermarias de campanha naquela região, como concentradores de oxigênio e equipamentos de proteção individual, que a equipe do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Médio Solimões tinha ido buscar. Com 15 polos-base, eles atendem 20.400 indígenas de 17 povos, entre eles estão os Katukina, Kulina, Tikuna (povo indígena mais populoso do país), Kanamari, Mura, Apurinã e Kokama.

Noite “curta, curta, curta” 

Madrugada fria adentro, após muitas tentativas, conseguimos conexão para enviar materiais (como este texto) aos colegas da nossa equipe que atuam na “base”, e organizar com parceiros a logística de entregas nos próximos dias ao longo do rio. Um pouco antes das 3h, todos estavam em suas redes, literalmente exaustos. Às 6h30 já estávamos em pé, dispostos a recuperar o não previsto tempo “dormido” em Tefé. 

O intenso movimento no porto, e a impossibilidade de aproximar qualquer veículo do nosso barco para descarregar as centenas de caixas, faria com que saíssemos de Tefé somente por volta das 14h, o que atrasaria bastante nossa programação. Seu Souza, no entanto, agilizou uma canoa para que o descarregamento fosse feito pelo lado do rio. Com isso, às 10h30 estávamos já prontos para zarpar de Tefé, rumo ao nosso segundo destino:  Fonte Boa. Não será mais preciso parar em Uarini porque a carga destinada à essa cidade também foi entregue ao Dsei em Tefé. Recuperamos, assim, um pouco mais de tempo.  

Wayne e Carol já tinham ido à feira comprar alguns mantimentos (pena não terem encontrado tucumã nem pupunha – duas frutas deliciosas daqui). Tínhamos gravado algumas entrevistas e colhido dados para compreender melhor a situação da disseminação da Covid-19 aqui no Médio Solimões. Alguns combinados com colegas da equipe, em São Paulo, e com nossos parceiros também já tinham sido ajustados. Impressionante como aquelas horas da manhã renderam tanto! 

Missão cumprida! Com essas 2,8 toneladas entregues, o Asas da Emergência totaliza 42 toneladas de ajuda emergencial entregue aos povos indígenas da Amazônia, desde maio. Através de 48 voos e duas embarcações, centenas de comunidades indígenas que vivem em regiões em que o acesso só é possível por via aérea ou fluvial receberam materiais hospitalares, de higiene básica e proteção para se fortalecerem na luta contra a Covid-19.   

Ao sair da boca do Lago de Tefé e voltar para o caudaloso Solimões, tivemos algumas agradáveis surpresas… que eu vou contar somente amanhã porque já está tarde aqui e o dia foi, realmente, “longo, longo, longo”!


Acompanhe como foi o 2º dia do Diário de Bordo do Asas Da Emergência.

As conquistas dos últimos 50 anos só foram possíveis porque, desde o início, tivemos pessoas de todas as partes do mundo ao nosso lado; ativistas, voluntários, doadores e apoiadores fazem parte dessa história. Você também pode fortalecer essa luta e futuras conquistas. Faça parte desse grupo de pessoas que vivem por um mundo melhor,  por um planeta mais verde e justo. Junte-se a nós e seja um doador do Greenpeace!

Desmatamento na Terra Indígena Karipuna (RO). © Christian Braga FAÇA A SUA PARTE