
Depois de quase três décadas de idas e vindas na Comissão Internacional Baleeira (CIB), a proposta de proteger baleias em mais de 20 milhões de km² de oceano retorna à votação este ano
Há histórias de conservação que atravessam gerações, países e resistem ao tempo, e a criação do Santuário de Baleias do Atlântico Sul é certamente uma delas. Construída a partir da articulação entre ciência, governos e pressão da sociedade civil, a proposta foi elaborada para garantir que baleias e golfinhos tenham uma parte do oceano onde possam viver, realizar suas rotas migratórias e ter seus filhotes em um ambiente seguro e protegido.
A proposta começou a ser elaborada em 1998, quando Brasil e África do Sul defenderam a criação de uma área de proteção para os grandes cetáceos do Atlântico Sul. Em 2001, um grupo de países do Sul Global apresentou formalmente a proposta à Comissão Internacional da Baleia (CIB), ao lado da Argentina, da África do Sul, do Gabão e do Uruguai.
O objetivo sempre foi o mesmo: impedir a caça comercial e garantir espaço de recuperação para pelo menos 51 espécies de cetáceos — mamíferos marinhos que incluem baleias, golfinhos e botos — que habitam essas águas, entre elas seis baleias migratórias ameaçadas de extinção, como a baleia-fin, a baleia-cachalote, a baleia-azul, a baleia-sei, a baleia-franca e a baleia-minke.
Só no século 20, cerca de 2,9 milhões de baleias foram caçadas no mundo, e 71% dessas mortes aconteceram no hemisfério sul.
Fonte: Scientific American
Mesmo depois do PL 4014/1984 que proibiu a caça comercial no Brasil, as populações de baleias continuam pressionadas por poluição sonora, colisão com navios, lixo marinho, e pelo aquecimento do oceano, provocado pelo avanço da crise climática.
Desde então, o santuário já esteve no centro de sucessivas negociações internacionais. Cientistas, governos, organizações ambientais e centenas de milhares de pessoas se mobilizaram para que o Atlântico Sul se tornasse uma região na qual a conservação e a pesquisa não letal fossem prioridade.
Um namoro que ficou pelo caminho
Em 2016, a aliança pelo santuário teve seu momento mais visível com o Ministério do Meio Ambiente lançando a campanha #santuarioeuapoio, ano em que o Greenpeace coordenou uma petição que reuniu cerca de 830 mil assinaturas em menos de três meses, entregues ao então ministro do meio ambiente, que se comprometeu a levá-las à reunião da CIB na Eslovênia.

O resultado da votação, em outubro daquele ano, mostrou o tamanho do apoio e também do obstáculo: 38 países votaram a favor, 24 contra e 2 se abstiveram, o equivalente a 60% dos votos.
A regra da CIB exige 75% de aprovação para criar um santuário, e a proposta ficou de fora por uma margem pequena diante da força da mobilização.
Por que 2026 é diferente?
Passados 25 anos de “namoro” entre a proposta e a aprovação final, o cenário internacional mudou. A entrada em vigor do Tratado Global dos Oceanos em 2026 fortaleceu a governança internacional dos mares e deu novo peso político a iniciativas como o Santuário do Atlântico Sul. Em setembro, a proposta volta a ser votada na CIB, em um momento que o Greenpeace descreve como um dos mais decisivos da trajetória da campanha.
O pedido está na mesa há décadas. Em setembro, os países do Atlântico Sul têm a oportunidade de finalmente dizer sim às baleias e a um oceano seguro, saudável e em paz. Em um mundo marcado por conflitos e divisões, o Santuário representa a força da união entre países em torno de um bem que pertence a todos nós. Proteger as baleias é proteger o oceano, e um oceano saudável é essencial para a vida de toda a humanidade. O futuro do oceano começa aqui.
Afirma Bruna Canal, porta-voz de oceanos do Greenpeace Brasil.
A criação do santuário representa uma visão de cooperação entre os países do Atlântico Sul e reconhece o papel das baleias como espécies-chave para a saúde dos ecossistemas marinhos. No Brasil, a caça de cetáceos já é proibida.
Uma causa que já atravessa gerações, com a aprovação do Santuário do Atlântico Sul:
- 51 espécies de cetáceos habitam as águas do Atlântico Sul e seriam protegidas pelo santuário
- 20 milhões de km² é a área que passaria a ter caça de baleias e golfinhos e mamíferos marinhos proibida
Documentários como “Baleias a Óleo“, de Lísia Palombini, registram como esses animais eram caçados na Baía de Guanabara durante o período colonial para iluminar as ruas do Rio de Janeiro com sua gordura, em uma época em que a costa fluminense chegou a sofrer o que se chamava de “congestionamento de baleias”. A distância entre aquele passado e o santuário que se discute hoje mede o tamanho da mudança que décadas de ciência, diplomacia e mobilização já conquistaram, mesmo sem a aprovação final.
Quem casa, quer casa
No fundo, é isso que o santuário oferece. Um casal de baleias que se encontra no Atlântico Sul precisa de um lugar em paz e seguro para namorar, acasalar, dar à luz e criar seus filhotes ao longo de meses de travessia, Essas águas já foram palco de namoro, acasalamento e aprendizado entre mães e filhotes muito antes de qualquer fronteira ser desenhada nelas, e o que a proposta do santuário faz é reconhecer formalmente esse uso para que essas famílias marinhas possam de fato habitar em paz.
O oceano não pode esperar mais 25 anos
A votação de setembro de 2026 é uma nova chance de transformar em política internacional o que a ciência já comprova há décadas. Mas propostas como essa só avançam quando a pressão da sociedade civil se soma à diplomacia.
Faça uma doação às campanhas do Greenpeace pela proteção dos oceanos e ajude a garantir que, desta vez, o Santuário de Baleias do Atlântico Sul saia do papel!
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