A floresta mais biodiversa do mundo ainda é uma das menos conhecidas, mas a pesquisa pode influenciar a criação de políticas de conservação e o uso racional de seus recursos

Rio Tapajós, na região da Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku, no Pará. (Rogério Assis/Greenpeace)

A Amazônia e sua biodiversidade estão sob ameaça e não há tempo a perder. Por isso, em 2020, lançamos o projeto Protegendo o Desconhecido que tem, entre outras objetivos, incentivar e apoiar o trabalho de pesquisadores brasileiros sobre a biodiversidade da maior floresta tropical do mundo, por meio do Programa Tatiana de Carvalho de Pesquisa e Conservação da Amazônia.

Não é um trabalho simples, com 4,1 milhões de km², a Amazônia brasileira possui um dos menores esforços de amostragem da biodiversidade no planeta. Mas mesmo com toda a dificuldade de se empreender pesquisa no Brasil e com a redução dos investimentos na ciência e na proteção do meio ambiente, em apenas quatro anos, foram identificadas 600 novas espécies de animais na Amazônia. 

Para Fabricius M.C.B. Domingos, pesquisador da Universidade Federal do Paraná co-coordenador do comitê de avaliadores da banca responsável pela seleção dos projetos do Programa Tatiana de Carvalho, o potencial da biodiversidade amazônica é inestimável, mas há um constante déficit de investimentos em pesquisa e na formação de cientistas no Brasil, que vem piorando devido ao preocupante momento político que vive o país. Por isso, é cada vez mais importante projetos como o lançado pelo Greenpeace. 

“Não podemos depender exclusivamente dos financiamentos de fonte pública, porque eles não são suficientes e muitas vezes são ignorados nas políticas públicas. As bolsas de mestrado vão proporcionar que a gente ultrapasse um desses obstáculos, que é a geração de recursos humanos de qualidade e cientistas prontos para atuar na linha de frente do conhecimento da biodiversidade no futuro”, afirma. 

Para o pesquisador, o Brasil vem seguindo na contramão do que orientam cientistas do mundo todo e das necessidades econômicas e ambientais do país, adotando medidas diretas para impedir que a preservação seja feita de maneira eficiente. “Além disso, os ministérios da educação e ciência têm minado o financiamento dos programas de pós-graduação de universidades inseridas na Amazônia e outras instituições de pesquisa, que são os maiores produtores de conhecimento acerca de biodiversidade da Amazônia e de como preservá-la. Os programas e os pesquisadores estão perdendo o financiamento e até mesmo sendo vistos como inimigos”, completa. 

O resultado destas medidas para “impedir a preservação” já podem ser vistos a olhos nus. No ano passado, entre agosto de 2018 e julho de 2019, houve um aumento de 30% no desmatamento da Amazônia, segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). E os alertas apontam que, em 2020, estes números podem ser ainda mais alarmantes. Segundo dados do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) a área com alertas de desmatamento quase dobrou nos últimos oito meses e a área com alertas de degradação já é 122% maior, de agosto de 2019 a março de 2020. 

O desmatamento contribui negativamente com a crise climática e promove a rápida perda da biodiversidade. Quando a Amazônia vai abaixo, não são só árvores que caem, mas também a sua biodiversidade riquíssima, muitas vezes desconhecida. 

“Enquanto a gente destrói o meio ambiente, colocamos em risco nossa própria vida. A biodiversidade como um todo tem esse valor gigantesco que é proporcionar o ambiente adequado que podemos transformar, até certo ponto, para o bem estar da vida humana e tem um valor intrínseco inestimável”, alerta Fabricius.

O desmatamento pode levar à intensificação e surgimento de doenças, ao mesmo tempo que a biodiversidade, se compreendida e conservada, pode trazer a cura para doenças. Só a Amazônia hospeda cerca de um terço da biodiversidade de plantas do planeta. 

Para proteger a floresta, e nossa própria existência, precisaremos reduzir drasticamente as emissões, zerar o desmatamento, e criar novas áreas protegidas. 

“Com esse programa de incentivo à pesquisa esperamos contribuir para o conhecimento da biodiversidade da Amazônia, mostrando que a pesquisa é fundamental para a nossa sociedade”, afirma Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia do Greenpeace. O Brasil e o mundo precisam saber o que está em jogo. Fique ligado no projeto Protegendo o Desconhecido