Saiba o que é o El Niño, sua relação com a crise climática e como se preparar para a seca, enchentes, queimadas e ondas de calor.
O El Niño é um fenômeno climático natural e recorrente que tem se tornado cada vez mais frequente e intenso. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e o avanço da agropecuária contribuem para agravar seus efeitos, que são potencializados pela crise climática e pela desigualdade social. Como resultado, populações vulnerabilizadas e ecossistemas sensíveis ficam mais expostos a eventos extremos.
Os impactos do El Niño no Brasil costumam incluir o agravamento de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, branqueamento de corais e aumento no preço de alimentos. Na última passagem do El Niño, em 2024, o país enfrentou a maior estiagem da história — com rios secos, queimadas intensas e muita fumaça na Amazônia e no Pantanal — e fortes chuvas, como as causadoras das enchentes no Rio Grande do Sul, o pior desastre climático do estado.
Quando esses eventos extremos se combinam com falta de planejamento público, os prejuízos sociais, econômicos e ambientais aumentam.
1. Como o El Niño afeta as regiões do Brasil?
Os impactos do El Niño variam entre as regiões. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o fenômeno agrava a seca, o calor extremo e as queimadas. No Sudeste, favorece ondas de calor, baixa umidade e insegurança hídrica. No Sul, geralmente provoca chuvas acima da média, enchentes e deslizamentos. Em todo o Brasil, os preços dos alimentos, da água e da energia podem aumentar.
2. O que significa El Niño?
Segundo a agência científica NOAA, o nome El Niño surgiu há cerca de 200 anos, quando pescadores peruanos observaram que as águas do Oceano Pacífico ficavam mais quentes em determinados períodos, geralmente próximos ao Natal. Em homenagem ao Menino Jesus, eles passaram a chamar o fenômeno de “o menino” em espanhol.
3. Qual a relação entre El Niño e mudanças climáticas?
O El Niño está associado ao aquecimento das águas do oceano. Em um planeta mais quente devido às emissões de gases de efeito estufa (GEE), os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pela crise climática, influenciando regimes de chuva e vento, e potencializando eventos extremos.
4. Super El Niño não é alarme, é alerta
Ainda não é possível prever a intensidade do El Niño, mas os sistemas de monitoramento indicam que o fenômeno chegou e que precisamos de ação climática urgente, como mostram os efeitos das fortes chuvas, secas e ondas de calor nos últimos anos. De acordo com a plataforma Adapta Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), 65% dos municípios brasileiros têm baixa capacidade de adaptação climática, um alerta do quanto precisamos nos antecipar antes das tragédias acontecerem.
5. Risco de queimadas e fumaça
A maioria dos incêndios florestais tem origem humana. Em anos de El Niño, as queimadas tendem a se intensificar, como foi em 2024, quando a fumaça atingiu 10 estados da Amazônia e do Pantanal, aumentando problemas respiratórios, especialmente entre populações indígenas, ribeirinhas e periféricas. Relatório do Greenpeace mostra que a qualidade do ar violou as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). O desmatamento e a degradação da floresta favorecem a propagação do fogo, que amplia as emissões, retroalimentando a crise climática.
6. Conta mais cara: comida, água e luz
A chuva intensa e a seca severa afetam a produção agrícola e pressionam o preço dos alimentos. No El Niño de 2015, por exemplo, gastos com comida subiram 12%. Seca prolongada também reduz a geração hidrelétrica e pode elevar as tarifas de energia. No Sudeste, há risco de insegurança hídrica semelhante ao cenário de São Paulo em 2015, com reservatórios em níveis baixos.
7. Seca severa e ondas de calor
O Brasil enfrentou a pior seca de sua história no último El Niño, que atingiu mais de 80% dos municípios do país em 2024. Para 2026 e 2027, especialistas alertam sobre a possibilidade de novos períodos de estiagem intensa e temperaturas acima da média. O calor extremo também tem se tornado cada vez mais frequente: há 60 anos, o Brasil registrava 7 dias de ondas de calor por ano; hoje, esse número chega a 52 dias. Mais de 48 mil brasileiros morreram em duas décadas em decorrência do calor extremo, principalmente idosos, mulheres, pessoas negras e de baixa escolaridade (Fiocruz, 2024).
8. Fim dos combustíveis fósseis
Reduzir o uso de petróleo, carvão e gás e frear novas explorações, como na Foz do Amazonas, ajudam a conter a intensificação da crise climática. A queima de combustíveis fósseis é a principal causa do aquecimento global e grande parte desse calor é absorvida pelos oceanos, agravando fenômenos climáticos como o El Niño. Ecossistemas marinhos, como os recifes de coral, ajudam a proteger o litoral — onde mora a maioria dos brasileiros — contra tempestades e erosões, mas o aumento de temperatura do oceano pode causar seu branqueamento, como ocorreu em 2024, gerando um impacto em cadeia: prejudica a renda de pequenos pescadores e a segurança alimentar da população, já que a pesca artesanal é responsável por mais de 60% dos pescados no país.
9. Agronegócio: vilão e vítima
A agricultura está entre os setores mais afetados pelos eventos climáticos extremos. Ao mesmo tempo, o avanço da agropecuária sobre os biomas brasileiros impulsiona o desmatamento, principal fonte de emissões do país, agravando os impactos do El Niño. Em vez de fortalecer ações de adaptação e mitigação, a bancada ruralista tem promovido medidas que enfraquecem a proteção ambiental, como mudanças no licenciamento ambiental e ameaças à Moratória da Soja.
10. Saiba o que fazer diante do El Niño
Em ano de eleição, devemos lembrar que o El Niño é natural, mas a gravidade de seus impactos não. União, estados e municípios têm responsabilidade de agir antes do pior acontecer, investindo em ciência, infraestrutura, defesa civil e proteção ambiental para reduzir danos e perdas humanas. Além de acompanhar alertas meteorológicos, cobre da prefeitura, da escola e dos órgãos públicos a existência de planos de adaptação climática e prevenção a desastres, principalmente para as famílias vulnerabilizadas.
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