Colônia de coral monitorada em Green Island Dabaisha durante o branqueamento e seis meses depois, já em estado de mortalidade. A imagem evidencia os impactos das mudanças climáticas nos recifes de coral de Taiwan. 
© Marco Chang / Greenpeace  

Especialista explica como o El Niño intensifica o aquecimento dos oceanos em meio à crise climática, acentuando secas, enchentes e a degradação de ecossistemas marinhos

Caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico, o El Niño é um dos fenômenos climáticos mais influentes do planeta e é capaz de alterar padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em diferentes regiões do mundo. 

Como o El Niño atinge o Brasil?

No país, seus efeitos provocam secas nas regiões Norte e Nordeste, chuvas intensas no Sul e alterações profundas no Atlântico Sul. Em um cenário de aquecimento global, as consequências do El Niño tendem a ser amplificadas, transformando eventos moderados em episódios extremos, com consequências cada vez mais severas para a biodiversidade, para as atividades econômicas e as populações em situação de vulnerabilidade socioambiental. 

Para entender como o fenômeno chega à América do Sul, conversamos com a oceanógrafa Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, que analisa extremos climáticos no oceano e no continente e como eles estão profundamente conectados. A pesquisadora é uma das autoras do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e conta sobre a relação que tem com os oceanos desde criança e quais foram as mudanças que presenciou nos ecossistemas marinhos: 

Quando era pequena, andava na praia; tinha conchas. Aí, depois, não tinha mais nada; não tinha concha nenhuma, né? Como é agora. […] Eu sempre fui muito bem em exatas, então, da área da oceanografia, o que me chamou mais a atenção foi a oceanografia física, onde você estuda as correntes, a maré, esse tipo de coisa. Não tanto a parte biológica; estudamos o oceano como atmosfera.

Qual a relação do El Niño com os oceanos? 

O fenômeno do El Niño é caracterizado por um aquecimento acima do esperado das águas do Oceano Pacífico. O Pacífico corresponde à metade do planeta; é uma área muito grande e qualquer coisa que aconteça ali impacta a atmosfera global.

  • 🌬️O El Niño começa quando os ventos alísios tropicais, que normalmente empurram as águas quentes do Pacífico em direção à Indonésia e à Austrália, enfraquecem. 
  • ⛈️Com isso, essa massa de água quente se desloca para a região próxima à América do Sul, aquecendo anormalmente o oceano. Esse aquecimento altera a formação de nuvens e a circulação do ar na atmosfera, provocando impactos climáticos em várias partes do mundo. 
  • Apesar de ser um fenômeno recorrente, o El Niño não tem uma data fixa para acontecer. Ele costuma se repetir em intervalos de 2 a 7 anos, com duração de 9 a 12 meses. A intensidade e o tempo entre um evento e outro mudam constantemente, especialmente com a aceleração das mudanças climáticas. 

Em anos de El Niño há muito mais ondas de calor marinhas globalmente. Quando a água quente se move, nuvens densas a acompanham, e essa movimentação muda toda a circulação atmosférica”, afirma Regina Rodrigues. 

O que são ondas de calor marinhas e quais seus impactos? 

As ondas de calor marinhas são picos prolongados de aumento da temperatura da água do mar. Durante eventos como o Super El Niño, esses episódios tendem a se tornar mais frequentes e intensos. Essa combinação perigosa ameaça a saúde da biodiversidade marinha e os modos de vida dos Povos do Mar e gera prejuízos para setores econômicos que dependem diretamente dos recursos marinhos.

Principais impactos:

  • Mortalidade e alteração dos ciclos de vida de diversas espécies marinhas;
  • Prejuízos para a pesca, a aquicultura e riscos à manutenção da segurança alimentar;
  • Riscos à saúde humana e proliferação de doenças;
  • Pressão adicional sobre ecossistemas e comunidades já fragilizados pelas mudanças climáticas.

As ondas de calor marinhas são inicialmente percebidas por mudanças na superfície do oceano. Contudo, os efeitos dessa mudança se estendem por toda a coluna d’água, ou seja, em diferentes profundidades. Fora do nosso olhar, os efeitos do aquecimento da água do mar podem causar impactos negativos desde a praia  até o mar profundo. 

Por que o El Niño provoca secas e enchentes ao mesmo tempo? 

Ao deslocar as águas quentes do Pacífico, o El Niño altera a circulação do ar e gera ondas invisíveis na atmosfera que viajam por todo o planeta. Na América do Sul, essas ondas formam bloqueios atmosféricos que impedem a passagem livre das frentes frias, alterando o caminho habitual das chuvas no continente.

Então, quando esse bloqueio se instala, as frentes frias que normalmente avançariam pelo continente encontram dificuldade para seguir seu percurso. Elas ficam estacionadas sobre uma mesma região por mais tempo, concentrando chuva e aumentando o risco de eventos extremos, enchentes e alagamentos.

Se a chuva que deveria passear por todo o Brasil fica presa em uma região, outras áreas ficam mais secas do que o esperado. Por isso, o fenômeno costuma estar associado a secas nas regiões Norte e Nordeste, além de aumentar as condições favoráveis para queimadas em biomas como o Pantanal. É dessa forma que um único fenômeno climático pode provocar impactos opostos em diferentes regiões do país.

O que torna o El Niño mais extremo hoje?

Embora o El Niño seja um fenômeno natural, seus efeitos estão ocorrendo em um planeta cada vez mais aquecido pela ação humana. A queima de combustíveis fósseis e o desmatamento aumentam a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, intensificando o aquecimento global. Esse calor extra é absorvido principalmente pelos oceanos, que acumulam energia e registram temperaturas cada vez mais elevadas. 

O oceano absorve mais de 90% do excesso de calor no sistema climático da Terra, acumulado devido às emissões de gases de efeito estufa. (Fonte: IPCC)

Em outras palavras, os gases de efeito estufa não causam o Super El Niño, mas tornam suas consequências potencialmente mais extremas. 

El Niño e branqueamento de corais: quais são os impactos nos oceanos? 

Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais biodiversos do planeta e os mais vulneráveis ao aquecimento dos oceanos. O aumento da temperatura da água provoca estresse térmico nos corais, tornando o branqueamento um dos principais sinais da crise climática.

Segundo Regina Rodrigues, eventos de como o El Niño podem agravar esse cenário. No Nordeste brasileiro, a redução da cobertura de nuvens aumenta a incidência de radiação solar, o que aquece o ar e estimula que o oceano absorva esse calor. Águas mais quentes intensificam o estresse dos corais, fazendo com que eles expulsem as zooxantelas microalgas que ficam grudadas em seus tecidos e que são responsáveis por fornecer nutrientes e cor aos corais. Sem zooxantelas, os corais perdem a cor e a proteção dos seus esqueletos, tornando-se brancos e frágeis. Esse processo tem o nome de branqueamento.

O branqueamento não representa necessariamente a morte imediata do coral. Conforme explica a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica  (NOAA) os corais podem sobreviver temporariamente ao fenômeno, mas tornam-se extremamente vulneráveis, pois perdem sua principal fonte de alimento e ficam mais suscetíveis a doenças, redução do crescimento e mortalidade.

Os maiores episódios globais de branqueamento de corais registrados coincidiram com eventos intensos de El Niño, incluindo o 4º evento global de branqueamento em massa, que ocorreu entre 2023 e 2024. Para Regina, os corais estão entre os ecossistemas mais vulneráveis às mudanças climáticas.

“Os corais de águas tropicais já estão bem comprometidos.

De acordo com o relatório Oceano sem Mistério da Fundação Grupo Boticário, os recifes podem dissipar até 97% da energia das ondas, reduzindo os impactos de ressacas, tempestades e erosão costeira. Estima-se que cerca de 275 milhões de pessoas vivam a até 30 quilômetros de recifes de coral e dependam, direta ou indiretamente, dos serviços ecossistêmicos fornecidos por esses ambientes.

Recifes de corais são ecossistemas fundamentais para a proteção de cidades costeiras, especialmente durante tempestades intensas, ressacas e eventos extremos. 

Para além da perda de biodiversidade, o colapso dos recifes ameaça modos de vida inteiros. Comunidades ribeirinhas, pescadores artesanais e povos que dependem diretamente do mar para alimentação, renda e proteção territorial são os primeiros a sentir os efeitos de um oceano em desequilíbrio, embora, muitas vezes, sejam os que menos contribuíram para a crise climática. 

Como se preparar para os impactos do El Niño? 

Medidas emergenciais podem até ajudar a reduzir danos imediatos, mas é o planejamento de longo prazo que nos  prepara para os eventos extremos que podem ser causados pelo El Niño.

  • fortalecer a Defesa Civil nas cidades costeiras, com foco em sistemas de alerta precoce para chuvas intensas, inundações, deslizamentos e ressacas;
  • investir em educação climática e cultura oceânica, para promover um entendimento da intensa conexão entre oceano e clima;
  • desenvolver planos de contingência específicos para populações costeiras que dependem da pesca artesanal e de outras atividades econômicas que acontecem nas cidades à beira do mar;
  • criar áreas marinhas protegidas, que possam conservar ecossistemas críticos, como os recifes de corais e manguezais, e servir de refúgio térmico para a biodiversidade marinha. 

Essas estratégias são mais eficazes do que ações pontuais adotadas nas vésperas de um evento extremo. Soluções climáticas baseadas no oceano podem ser duradouras quando implementadas  antes de uma crise acontecer, como a proteção de territórios tradicionais e de ecossistemas costeiros e marinhos, o ordenamento da ocupação urbana na linha de costa e a incorporação da adaptação climática nas políticas públicas. Os oceanos já cuidam do planeta, regulando o clima global, precisamos garantir que continuem sendo capazes de desempenhar essa função.  

Em um cenário onde a atmosfera está cada vez mais quente, podendo tornar o El Ninõ mais frequente e intenso, a necessidade de agir se torna ainda mais urgente. Como alerta Regina Rodrigues, “o El Niño está vindo em intervalos cada vez menores”. Para enfrentar esse desafio, é preciso cobrar medidas que enfrentem as causas da crise climática e fortaleçam a capacidade de adaptação das comunidades, especialmente nas zonas costeiras. 

Assine a petição e apoie ações concretas para cobrar por medidas de adaptação climática já!

Sem a ajuda de pessoas como você, nosso trabalho não seria possível. O Greenpeace Brasil é uma organização independente - não aceitamos recursos de empresas, governos ou partidos políticos. Por favor, faça uma doação mensal hoje mesmo e nos ajude a ampliar nosso trabalho de pesquisa, monitoramento e denúncia de crimes ambientais. Clique abaixo e faça a diferença!